Poderia ser uma máquina escavadora. Poderia ser um estetoscópio. Poderiam ser pilhas de processos, códigos e livros - ela não se importaria.
Qual nada.
O objeto de trabalho dele era um violão.
E um homem nunca tem com um violão uma relação de trabalho apenas. Ela sabia. Ele amava o violão. Era nele que gastava seus momentos de inspiração-mais-doce, a compor canções de amor e ódeio, músicas sobre início e fim. Sim, ela sabia. Assim como sabia que não poderia simplesmente competir com a música. Tinham - ele e o violão - os segredos mais cúmplices. Era ali onde ele escolhia repousar as mãos nas horas de melancolia. Justo quando, de tanto amá-lo, tanto mais queria-lhe ela bem. Era ali, e não com ela, que ele se sentia compreendido. Com o violão, ele atingia um visível estado de completude que, ainda mais para ela, agigantava-se ao absurdo. Inaceitável.
Oh, quanto o amava. Mas já não suportava o tal violão.
- Faz parte de mim, querida. - Ele dizia - Veja a música que compus para você! - E era como se a usasse como pretexto para infidelidade.
Foi quando ela, literal e deliberadamente, quebrou o objeto de tantos ciúmes. Cruelmente. Por maldade.
Assustado com a reação da esposa, o homem não brigou. Não reclamou. Nem disse coisa alguma. Simplesmente foi à loja e comprou um novo, como o outro.
Naquela noite, choveu. Mas ela já não agrediu mais violão, nem marido. Nada. Deitada no quarto, enquanto ele tocava na sala, silenciosamente permitiu a cada uma das amadeiradas notas que assassinassem reiteradamente o sufocante amor. Em sinfonia dolorosa, a lágrimas grossas. E, desde então, nunca mais sentiu amor, nem dor, nem coisa alguma.
Mas é que quem a visse ali: nas tardes nubladas, em meio a linhas e agulhas, entre o crochê e o tricô, obstinada e compenetrada em seu pesar e sua lida - poderia quase escutar, num inaudível e alfinetado som, notas de amor e fúria. Interminavelmente bordadas: ora início, e ora fim. Pontos que fazem-desmancham-e-refazem um mesmo coração.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Rasante.
Ele era fraco. Autocentrado. E, de muitas maneiras, o culpado. Por descuidos que atingiam ela e por outros que não a atingiriam também - posto estarem conectados em inconsequente sintonia.
Ela achava que eram uma dupla, ele sabia que não. E era por pura maldade que não a jogava ali mesmo: do precipício. Negando-lhe, procrastinando-lhe, a agoniante libertação pela verdade do desexistir em pluralidade.
Até o momento em que ela caiu. E existem alturas das quais já não esperamos que pessoas apareçam para nos salvar mesmo.
Distraído, solitário e completo, o alpinista alcançava, naquele instante, o cume da montanha do eu. Repleto e sublime.
E foi por não ter encontrado ninguém e nada em que segurar que a mochila descobriu que era pássaro.
Ela achava que eram uma dupla, ele sabia que não. E era por pura maldade que não a jogava ali mesmo: do precipício. Negando-lhe, procrastinando-lhe, a agoniante libertação pela verdade do desexistir em pluralidade.
Até o momento em que ela caiu. E existem alturas das quais já não esperamos que pessoas apareçam para nos salvar mesmo.
Distraído, solitário e completo, o alpinista alcançava, naquele instante, o cume da montanha do eu. Repleto e sublime.
E foi por não ter encontrado ninguém e nada em que segurar que a mochila descobriu que era pássaro.
domingo, 13 de dezembro de 2015
Destruísmo.
O mundo entrelaçava-se de tal forma à mulher que ela tudo sentia. Para desespero do marido, que solicitamente sempre arrancava da rosa os espinhos. Ainda assim, as mãos da mulher doíam.
Todas as manhãs, ele fazia a feira. Uma vez ao mês, comprava-lhe roupas novas. Nas ocasiões especiais, trazia joias. Mas ela permanecia magra, maltrapilha e endividada.
Um dia, o homem ferido e decidido resolveu tapar todos os ralos da casa para não haver por onde escoar tanto segredo.
Viu passar pela cozinha um rato. Ela lhe deu todo o queijo. Viu passar pela janela uma mendiga, ela lhe deu todas as roupas. Viu um cão, para ele a carne. Viu um gato, para ele o leite. Para a vizinha, os doces. Para a visita, as frutas. Para a caridade, as joias, mantas e cobertores.
O homem olhou ao redor de si, na casa vazia, sem entender o que a mulher faria com ele mesmo, afinal. Mas, quando se virou, já não conseguia enxergá-la. Até um dia, quando, escovando os dentes, ao se ver num relance de espelho, encontrou-a cravada em suas costas.
Todas as manhãs, ele fazia a feira. Uma vez ao mês, comprava-lhe roupas novas. Nas ocasiões especiais, trazia joias. Mas ela permanecia magra, maltrapilha e endividada.
Um dia, o homem ferido e decidido resolveu tapar todos os ralos da casa para não haver por onde escoar tanto segredo.
Viu passar pela cozinha um rato. Ela lhe deu todo o queijo. Viu passar pela janela uma mendiga, ela lhe deu todas as roupas. Viu um cão, para ele a carne. Viu um gato, para ele o leite. Para a vizinha, os doces. Para a visita, as frutas. Para a caridade, as joias, mantas e cobertores.
O homem olhou ao redor de si, na casa vazia, sem entender o que a mulher faria com ele mesmo, afinal. Mas, quando se virou, já não conseguia enxergá-la. Até um dia, quando, escovando os dentes, ao se ver num relance de espelho, encontrou-a cravada em suas costas.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
E tenho dito.
Não tenho medo dos medos que moram dentro de mim. Já nos declaramos guerra e, desde então, vivo em paz.
Mas vejo bem as caretinhas que eles me fazem do lado de lá.
Dali. De onde o dia é sempre cinza. Explodem em deboches, como granadas num audivelmente surdo campo minado. Acionadas por qualquer variação de tempo.
Agora, para cá entre nós, nesse cantinho onde repousa a mente do coração - aí eles não voltarão jamais.
Mas vejo bem as caretinhas que eles me fazem do lado de lá.
Dali. De onde o dia é sempre cinza. Explodem em deboches, como granadas num audivelmente surdo campo minado. Acionadas por qualquer variação de tempo.
Agora, para cá entre nós, nesse cantinho onde repousa a mente do coração - aí eles não voltarão jamais.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Dualidade.
Havia duas estradas que levavam a um destino só: a caminhada. No entroncamento, o desavisado viajante parou. É que lhe torturavam as incertezas do seguir. E se. Porém. Aquém. Apenasmente. O chão eram formigas que insistiam em seu trabalho, vazias a divagações alheias. Adivinhadoras da inutilidade de concentrar esperanças e expectativas na estrada. Peregrinas, por saberem que não era esta, e sim a caminhada, que percorreria o destino.
Passou um louco, solto de pensamentos e desconexo de reflexões. Doidivagando por qualquer estrada. Um sábio entendeu a encruzilhada e seguiu reto, a passos confiantes, na mesma direção do louco, para estranhamento do viajante. Uma mulher passou com o marido pela outra estrada. Na verdade, ela sequer reparou por onde seguia, deixando-se guiar pelo homem no mais livre arbítrio. É que olhava para o céu e para a paisagem. Ralhando de vez em quando com as crianças, para que aquietassem a mania de perguntar-lhe desmotivos. Ensinava-lhes que era certo e doce o caminho do amor. Em qualquer situação.
Acima, as nuvens trocavam de uma figura para outra, pois todas serviam, a cada vez que o viajante pedia aos céus uma pista. Como respostas aleatórias de um oráculo imaginário e azul de certezas. As quais, em seus medos, ele invertia na mente, fantasmagando-as. Plantadas, algumas não-me-toques se ouriçavam com o movimentado pensamento errante do viajante empacado. O qual, quando afinal escolheu um lado, o fez depois de tanto tempo, e seguido de um raciocínio tão turvo, que o dia ficou tarde e velho demais. E anoiteceu.
Passou um louco, solto de pensamentos e desconexo de reflexões. Doidivagando por qualquer estrada. Um sábio entendeu a encruzilhada e seguiu reto, a passos confiantes, na mesma direção do louco, para estranhamento do viajante. Uma mulher passou com o marido pela outra estrada. Na verdade, ela sequer reparou por onde seguia, deixando-se guiar pelo homem no mais livre arbítrio. É que olhava para o céu e para a paisagem. Ralhando de vez em quando com as crianças, para que aquietassem a mania de perguntar-lhe desmotivos. Ensinava-lhes que era certo e doce o caminho do amor. Em qualquer situação.
Acima, as nuvens trocavam de uma figura para outra, pois todas serviam, a cada vez que o viajante pedia aos céus uma pista. Como respostas aleatórias de um oráculo imaginário e azul de certezas. As quais, em seus medos, ele invertia na mente, fantasmagando-as. Plantadas, algumas não-me-toques se ouriçavam com o movimentado pensamento errante do viajante empacado. O qual, quando afinal escolheu um lado, o fez depois de tanto tempo, e seguido de um raciocínio tão turvo, que o dia ficou tarde e velho demais. E anoiteceu.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Cadeira de espaguete.
Era de tardinha, e a mulher levava a cadeira para a calçada, movimentando a rua, para ver as coisas que queria ver. À volta, vizinhos faziam o mesmo. O sol pintava-se de cores cada vez mais escuras. Em breve, seria breu. E o que mais haveria seriam estrelas de luz ensandecida a persuadir os tolos a trocarem sonhos por ilusões. E quantas promessas descabidas os faria jurar, as quais somente a sensatez da alvorada poderia desfazer.
O movimento era igual. Mas, para a mulher, a cada dia os olhos viam algo diferente. Às vezes, reparava apenas nos casais enamorados. Em outras, nas pessoas fartas de idade a reclamar as dores de mais um dia ainda. Tinha dias em que lhe fascinava simplesmente ver aquilo que o vento carregasse, com poeira e barro, imaginando de onde viria e para onde iria, na levada quente que nos assanhará a todos. Ou então atentar para os cachorrinhos da rua. Tão desamparados e sorridentes como o fundinho da alma. Uma vez, secretamente espionou outras mulheres sentadas na calçada, como ela própria. Foi um assombro enxergar-se tão literal. Nesse dia, ela recolheu a cadeira mais cedo.
Com o ar da noitinha, da jantinha e do café, enchia-lhe o peito a certeza de que é bom ser casa. Calçada por onde alguém possa entrar, sair, sentar e ser. Ainda que às vezes, quando, no ato final, as cores fugiam do céu por completo - deixando-o entregue aos deslumbres de um brilho sem luz - um abandono absurdo a deixasse com o juízo abarrotado da solidão mais ampla.
O movimento era igual. Mas, para a mulher, a cada dia os olhos viam algo diferente. Às vezes, reparava apenas nos casais enamorados. Em outras, nas pessoas fartas de idade a reclamar as dores de mais um dia ainda. Tinha dias em que lhe fascinava simplesmente ver aquilo que o vento carregasse, com poeira e barro, imaginando de onde viria e para onde iria, na levada quente que nos assanhará a todos. Ou então atentar para os cachorrinhos da rua. Tão desamparados e sorridentes como o fundinho da alma. Uma vez, secretamente espionou outras mulheres sentadas na calçada, como ela própria. Foi um assombro enxergar-se tão literal. Nesse dia, ela recolheu a cadeira mais cedo.
Com o ar da noitinha, da jantinha e do café, enchia-lhe o peito a certeza de que é bom ser casa. Calçada por onde alguém possa entrar, sair, sentar e ser. Ainda que às vezes, quando, no ato final, as cores fugiam do céu por completo - deixando-o entregue aos deslumbres de um brilho sem luz - um abandono absurdo a deixasse com o juízo abarrotado da solidão mais ampla.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Bulbo sideral.
Dentro do corpo, algum desejo corria por entre o sangue, a refrescar as células que sorriam ao ouvir histórias de amor. Alienatoriamente. Para esquecerem algum pensamento fixo latente de desfuturo ou dor. A mente, sábia, deixava-se ludibriar. Fantasmagando setimentos desprovidos de razão ou vigência. Como só os sãos conseguem fazer.
Porque naquela noite, longe o tempo e espaço, um atrofiado amor estendera-lhe a mão para que dançassem. Por todo um sonho. Como se em vida existisse para si a possibilidade que ela mesma negou. Aquele então amor, o que em verdade asfixiara.
E a manhã lhe sorria. Largamente. Com a beleza das flores que há tempos dissecara e petrificara tão frágeis. Que um dedo as poderia esfarelar.
Porque naquela noite, longe o tempo e espaço, um atrofiado amor estendera-lhe a mão para que dançassem. Por todo um sonho. Como se em vida existisse para si a possibilidade que ela mesma negou. Aquele então amor, o que em verdade asfixiara.
E a manhã lhe sorria. Largamente. Com a beleza das flores que há tempos dissecara e petrificara tão frágeis. Que um dedo as poderia esfarelar.
domingo, 8 de novembro de 2015
Ponte.
Ele estava em todos os lugares, mas ainda assim era imperioso não perder a magia dos encontros marcados. De uma a três vezes por dia. Especialmente aos domingos.
Naquele, por exemplo, como em todos os outros, o Senhor da vida estaria no lugar marcado curando feridas e jorrando água para os sedentos. Mas ela estava longe demais para encher os olhos dessas visões. Grudada no breu da irrealidade dadaísta para onde seus próprios pés a haviam guiado. Buscando lentilhas. Tentando não sentir (e gritando!) a falta de ar, água, luz, de si, e dele. Que, desapercebido, estava com ela até mesmo ali. Como em qualquer outro lugar. Desde o dia em que a tatuou no espírito com sua marca indizível.
Os pés presos petrificavam-se com o piche. Mas a quem sente saudades do Motivo, desesquecendo sua voz, nem mesmo o delírio persuade com mentiras tormentosas. E, porque era grande a fome de alimento, força e razão, ela desejou comer. Então, ele a propulsionou de volta a si mesmo de uma tal distância sideral, pelas asas da fé, moído e traspassado pela ressurreição de toda vida.
Naquele, por exemplo, como em todos os outros, o Senhor da vida estaria no lugar marcado curando feridas e jorrando água para os sedentos. Mas ela estava longe demais para encher os olhos dessas visões. Grudada no breu da irrealidade dadaísta para onde seus próprios pés a haviam guiado. Buscando lentilhas. Tentando não sentir (e gritando!) a falta de ar, água, luz, de si, e dele. Que, desapercebido, estava com ela até mesmo ali. Como em qualquer outro lugar. Desde o dia em que a tatuou no espírito com sua marca indizível.
Os pés presos petrificavam-se com o piche. Mas a quem sente saudades do Motivo, desesquecendo sua voz, nem mesmo o delírio persuade com mentiras tormentosas. E, porque era grande a fome de alimento, força e razão, ela desejou comer. Então, ele a propulsionou de volta a si mesmo de uma tal distância sideral, pelas asas da fé, moído e traspassado pela ressurreição de toda vida.
domingo, 1 de novembro de 2015
Lapso.
O motivo era simples: ela esqueceu de respirar.
Inchado, o peito sufocado buscava ar nos pulmões. Enquanto os olhos fixos em um mesmo e só alguém enxergavam apenasmente, já não mais enviando ao cérebro qualquer registro de um passado que pesava. Pareciam olhos de peixe morto no prato, com um incerto brilho esvidraçado.
Ressabiado, o estômago se recolhia em presságios, aos embrulhos.
O coração batia mais lentamente porque às vezes nos atrapalhamos, quando alarmados.
Agora, a visão se distorce, turvando de luz contornos sombrios.
Os braços se sentem desesperadamente sós: como nunca.
- Mas a lua e os anjos são testemunhas. Eles bem sabem que não é possível. Que não há de ser amor. Tudo não passará de uma displicência boba.
(O ocorrido foi que, esvaindo de si o ar do ressentimento, a enamorada esqueceu de puxar de volta o respiro expirado. Atingindo contra si mesma uma flecha que assassinava orgulhos e feria rancores. Por, imperdoavelmente, perdoar...)
Inchado, o peito sufocado buscava ar nos pulmões. Enquanto os olhos fixos em um mesmo e só alguém enxergavam apenasmente, já não mais enviando ao cérebro qualquer registro de um passado que pesava. Pareciam olhos de peixe morto no prato, com um incerto brilho esvidraçado.
Ressabiado, o estômago se recolhia em presságios, aos embrulhos.
O coração batia mais lentamente porque às vezes nos atrapalhamos, quando alarmados.
Agora, a visão se distorce, turvando de luz contornos sombrios.
Os braços se sentem desesperadamente sós: como nunca.
- Mas a lua e os anjos são testemunhas. Eles bem sabem que não é possível. Que não há de ser amor. Tudo não passará de uma displicência boba.
(O ocorrido foi que, esvaindo de si o ar do ressentimento, a enamorada esqueceu de puxar de volta o respiro expirado. Atingindo contra si mesma uma flecha que assassinava orgulhos e feria rancores. Por, imperdoavelmente, perdoar...)
domingo, 25 de outubro de 2015
Uvas verdes.
- Você precisa de mim?
- É claro que preciso, preciso imensamente...!
- Precisa mesmo?
- Preciso de você mais do que o ar e a forma, você é meu motivo...
- Eu...
- ...
- ?
- ...
- ???
- Eu acho que não preciso de você.
- Ah, então nunca te precisei!
- É claro que preciso, preciso imensamente...!
- Precisa mesmo?
- Preciso de você mais do que o ar e a forma, você é meu motivo...
- Eu...
- ...
- ?
- ...
- ???
- Eu acho que não preciso de você.
- Ah, então nunca te precisei!
domingo, 18 de outubro de 2015
Unrecyclable London.
And yet, she sought a true love. Like an old storie’s love. Though all she had was uninspireness and narrowness. On a 21st century world of fast lovers that divorced dreams.
The girl gets her train and pretends to unsee everyone. Through bridges and tunnels. The free newspaper in her hands brags some tragedy while she sips a coffee, grabbed somewhere, hoping it would warm her way to elsewhere. Maybe there were mice down on the rails. Searching and searching some treasure on the dust. So was she.
Unhelpfully. For mice would find their aims in the garbage. But love was nor paper, plastic, metal or glass.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Travessuras ou gostosuras.
O doce no pote em cima da geladeira pertencia a quem o amava por direito: a pequena garotinha. Por ele, ela comia toda a salada. E engolia o choro depois da briga com o irmãozinho. Esperando impacientemente os braços da mãe ou do pai para alcançar a distância que ela mesma não conseguiria transpor. O doce em seu sangue era a corrida feliz, o néctar que alimentava sua sede de aventuras travessas. Como a de empilhar cadeiras para se agigantar. E quem sabe arrancar o tal pote lá de cima.
Como de costume, o irmãozinho passou de inimigo contumaz a fiel escudeiro da garotinha. Sentado à porta da cozinha, para evitar o flagra de um tal ato de bravura e independência da irmã. O doce pertencia às crianças. Era o que a menina repetia a si mesma. Não haveria mal algum em tomar para si o que se tem.
Exceto porque o que temos de nosso são apenasmente as escolhas que fazemos e o que delas nos advém. E digo isso no exato momento em que menina e doce se estatelam no chão. As formigas e moscas comeram tudo, no final. Além da lixeira - mas essa come até casca de ovo e lata de sardinha. O choro da garotinha, os cacos de vidro, o grito do irmão, a bronca da mãe e do pai foram uma confusão só, que eu prefiro nem contar.
Mas o certo é que, com o tempo, a garotinha cresceu e conseguiu alcançar aquele e outros tantos potes da cozinha. E descobriu que sempre é possível haver um outro pote mais alto ainda, não importa o quanto se cresça. E que não tem escada que suba mais alto no mundo do que toda a coragem cristalizada num coração que aprendeu a fazer calda e merengue de paciência.
domingo, 4 de outubro de 2015
domingo, 27 de setembro de 2015
Ritual.
Quando ele me telefona,
eu sei sempre
o que às vezes não sinto.
É como uma certeza mimetizada em fios de cobre
onde pousam e voam passarinhos
e borboletas de estômago...
eu sei sempre
o que às vezes não sinto.
É como uma certeza mimetizada em fios de cobre
onde pousam e voam passarinhos
e borboletas de estômago...
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
domingo, 13 de setembro de 2015
Poesia crua. (Ou: Poema para Fábio)
O papel em branco
pode ter qualquer cor
desde que espelhe a alma.
(Ou coisa que por ela ande.)
O que amo em ti
- não houvesse palavra -
escreveria igual:
...
(Para ler a mordidos lábios.)
pode ter qualquer cor
desde que espelhe a alma.
(Ou coisa que por ela ande.)
O que amo em ti
- não houvesse palavra -
escreveria igual:
...
(Para ler a mordidos lábios.)
domingo, 6 de setembro de 2015
domingo, 30 de agosto de 2015
Circular.
No final do arco-íris, ao invés de pote de ouro, tudo que a sonhadora encontrou foi um velho par de sapatos. Surrados e apertados. Com um solado que parecia descolado e colado outra vez. Então, chorou. Não é fácil caminhar anos de volta sem algum consolo nas mãos, a que se possa tocar. E já de nada vale a experiência para quem não tem novos desafios.
O sol era árduo. Por mais colorido que estivesse, o céu fazia-se preto ou branco. Da cor do vazio. Os amores e encantos, se outrora, soavam a mais improvável das liras.
Amarrados um ao outro, os cadarços do sapato uniam os pés que se arrastavam pelo chão, reduzindo em tamanho suas passadas. Eles estavam sujos de estrada, pois a cada pisão o solado esfacelava o asfalto em pedrinhas de piçarra. Desfazendo a pista. Tal qual o tempo fazia com ela, a cada desaniversário. Desfiando-lhe a vida. Em breve, tudo o que restaria de tanto cansaço seria matéria-prima. Esperando para decompor ou recompor, a depender de ainda remanescer-lhe a vontade última de ainda querer. E, por hora, esse foi o último relato de que se teve notícia.
O sol era árduo. Por mais colorido que estivesse, o céu fazia-se preto ou branco. Da cor do vazio. Os amores e encantos, se outrora, soavam a mais improvável das liras.
Amarrados um ao outro, os cadarços do sapato uniam os pés que se arrastavam pelo chão, reduzindo em tamanho suas passadas. Eles estavam sujos de estrada, pois a cada pisão o solado esfacelava o asfalto em pedrinhas de piçarra. Desfazendo a pista. Tal qual o tempo fazia com ela, a cada desaniversário. Desfiando-lhe a vida. Em breve, tudo o que restaria de tanto cansaço seria matéria-prima. Esperando para decompor ou recompor, a depender de ainda remanescer-lhe a vontade última de ainda querer. E, por hora, esse foi o último relato de que se teve notícia.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Cerco.
Um dia, uma gota única de chuva molhou a terra. E, porque era só uma gota, dela germinou uma semente bem pequena. Que, curiosa, por fim saiu da terra, esticando os olhos em suas folhinhas para espiar ao redor. O mundo era demasiado quente, e então a plantinha quis abanar-se. Fazendo um movimento bonito. Que a florzinha ao seu lado imitou. Num improvisado balé. Animado, o grilo compôs uma batucada para percussão.
Era a maior das descobertas para a plantinha, que estava longe de alcançar a perfeição de um Bolshoi. Na verdade, seu farfalhar era bastante desengonçado. Ela quase não tinha galhos. A florzinha ao seu lado não passava de uma coisinha, assim, muito minguada. E ao grilo só aceitaria acompanhar em canto o sapo. E isso, enquanto controlava o pensamento de o engolir. Afinal, a fome às vezes não faz lá grandes exigências.
Mas, ao se agitar, a plantinha imaginava o requeleque da copa mais armada. Seus amigos principiantes a tinham por mestra experiente. E, agora, que todos façam silêncio. Pois que vem passando pelas bandas de cá o Crítico, com seu crivo de cerdas de espelho cortantes...
[!!! ... ... .]
Desolada, a plantinha começou a murchar. A florzinha perdeu algumas pétalas. O grilo foi, enfim, engolido pelo sapo. Seria demais achar que todos sobreviveriam a um crivo tão espelhado. Que, ainda por cima, achatava e engordava aqueles que criticava. Cria o Crítico haver, naquela pequenez, galhos que pudesse podar. Picotando, sem dó, umas vidinhas tão tenras.
Ferido de dor, o céu chorou uma chuva desfibriladora. Mas, para o Crítico, isso não haveria de ser remédio nem castigo. Já não há mesmo com que se comova quem não tem um coração.
Era a maior das descobertas para a plantinha, que estava longe de alcançar a perfeição de um Bolshoi. Na verdade, seu farfalhar era bastante desengonçado. Ela quase não tinha galhos. A florzinha ao seu lado não passava de uma coisinha, assim, muito minguada. E ao grilo só aceitaria acompanhar em canto o sapo. E isso, enquanto controlava o pensamento de o engolir. Afinal, a fome às vezes não faz lá grandes exigências.
Mas, ao se agitar, a plantinha imaginava o requeleque da copa mais armada. Seus amigos principiantes a tinham por mestra experiente. E, agora, que todos façam silêncio. Pois que vem passando pelas bandas de cá o Crítico, com seu crivo de cerdas de espelho cortantes...
[!!! ... ... .]
Desolada, a plantinha começou a murchar. A florzinha perdeu algumas pétalas. O grilo foi, enfim, engolido pelo sapo. Seria demais achar que todos sobreviveriam a um crivo tão espelhado. Que, ainda por cima, achatava e engordava aqueles que criticava. Cria o Crítico haver, naquela pequenez, galhos que pudesse podar. Picotando, sem dó, umas vidinhas tão tenras.
Ferido de dor, o céu chorou uma chuva desfibriladora. Mas, para o Crítico, isso não haveria de ser remédio nem castigo. Já não há mesmo com que se comova quem não tem um coração.
domingo, 16 de agosto de 2015
Fim de tarde na Maranhão.
A cidade era correnteza forte que levava os carros de lá para cá, e de cá para lá. Maré que engolia as pessoas mais e mais para dentro de si. Descascadas.
Na avenida Maranhão, o Parnaíba escorre nos olhos de um outrora pescador que um dia já amou ver as cores bronzeadas do céu despencarem na água, da canoa. Agora, troca e vende vales. Sem mais confiar a escassos peixes magros o sustento. Da angústia de não ser tudo que não era, ou de desconhecer o que jamais estudou. Tristeza mais funda que o rio ilhado de areia.
Na calçada, alguém rabiscava, de caneta, um desenho sem paisagem. É que lhe amargava não ter o que não tinha, e a fraqueza queimava-lhe em pó a dor e o amor.
Outro alguém, apressado, voltava algures para procurar algo que perdeu, ou esqueceu.
A caminho da parada de ônibus, uma mulher reclama da sandália que quebrou, por tiras cansadas de tanto caminhar.
O pescador vende água, biscoito e chiclete de menta também.
Ele ainda vai escutar carros e motos passando, e buzinas, e resmungos, antes de tudo adormecer. Para, em seguida, despertar prontamente com o noticiário de um novo dia que nunca começou realmente.
Na avenida Maranhão, o Parnaíba escorre nos olhos de um outrora pescador que um dia já amou ver as cores bronzeadas do céu despencarem na água, da canoa. Agora, troca e vende vales. Sem mais confiar a escassos peixes magros o sustento. Da angústia de não ser tudo que não era, ou de desconhecer o que jamais estudou. Tristeza mais funda que o rio ilhado de areia.
Na calçada, alguém rabiscava, de caneta, um desenho sem paisagem. É que lhe amargava não ter o que não tinha, e a fraqueza queimava-lhe em pó a dor e o amor.
Outro alguém, apressado, voltava algures para procurar algo que perdeu, ou esqueceu.
A caminho da parada de ônibus, uma mulher reclama da sandália que quebrou, por tiras cansadas de tanto caminhar.
O pescador vende água, biscoito e chiclete de menta também.
Ele ainda vai escutar carros e motos passando, e buzinas, e resmungos, antes de tudo adormecer. Para, em seguida, despertar prontamente com o noticiário de um novo dia que nunca começou realmente.
domingo, 9 de agosto de 2015
Elo.
A menor das crianças se sentia grande quando em seu colo a tomava o pai. Dele, puxava barba e cabelos. O mundo, enfim, era algo que se podia domar. E crescia sempre.
Para o colo, aprendeu a puxar os fantasmas que se escondiam debaixo da cama, ou atrás do armário. Para ali, foi puxando algumas decepções e um bocado de expectativas.
Então, o colo do pai já era um lugar gigante, onde cabiam raiva, dor, amor, sufoco e tudo mais que pudesse existir... Condensava-se tudo em uma só matéria, que os que conhecem entendem bem: confiança.
Porque teve colo de pai, um dia a criança cresceu e soube dar colo a seus filhos também. Não faz muito tempo, o pai descansou de tanto ar o coração, deitando na terra. E em seu colo a criança chorou. E chora ainda hoje, quando se distrai.
É que o colo de pai restou plantado. Tem do tronco raízes e galhos bem ramados, e abraça forte a todo aquele que precisar.
Para o colo, aprendeu a puxar os fantasmas que se escondiam debaixo da cama, ou atrás do armário. Para ali, foi puxando algumas decepções e um bocado de expectativas.
Então, o colo do pai já era um lugar gigante, onde cabiam raiva, dor, amor, sufoco e tudo mais que pudesse existir... Condensava-se tudo em uma só matéria, que os que conhecem entendem bem: confiança.
Porque teve colo de pai, um dia a criança cresceu e soube dar colo a seus filhos também. Não faz muito tempo, o pai descansou de tanto ar o coração, deitando na terra. E em seu colo a criança chorou. E chora ainda hoje, quando se distrai.
É que o colo de pai restou plantado. Tem do tronco raízes e galhos bem ramados, e abraça forte a todo aquele que precisar.
domingo, 2 de agosto de 2015
domingo, 26 de julho de 2015
Ciranda, cirandinha.
É preciso ruidoso vento para abrir as portas que teimamos em manter fechadas. Sem nunca fechar realmente. Vindo de onde for. As ondas que sacodem o barquinho inundam os pescadores de possibilidades. Ainda quando não há escolha. Na montanha-russa, crianças alucinadas amam viver mais que a própria vida. E, naquele dia, ela precisava esquecer um amor.
Sem sufocá-lo. Era abrir a gaiola e deixar o pássaro voar. E depois voltar, lembrar inteira do canto. Aprendendo a calar. Escutar e dançar ritmos outros desiguais. Com a integridade frágil daquilo que cai mas não parte.
Calejado, um par de olhos resistentes desescondia a alma de quem desarma o peito da ilusão. Pela liberdade. Na renúncia do que nunca foi, mas se pensou ter sido, como quando sentimos fome de chocolate.
Sem sufocá-lo. Era abrir a gaiola e deixar o pássaro voar. E depois voltar, lembrar inteira do canto. Aprendendo a calar. Escutar e dançar ritmos outros desiguais. Com a integridade frágil daquilo que cai mas não parte.
Calejado, um par de olhos resistentes desescondia a alma de quem desarma o peito da ilusão. Pela liberdade. Na renúncia do que nunca foi, mas se pensou ter sido, como quando sentimos fome de chocolate.
domingo, 19 de julho de 2015
Céu limpo.
Caminhava com um balde, que lhe guardava as memórias. Vez em quando, puxava alguma de sorriso doce. Ou doída como os calos da alma. Pois a vida é melodia para tons graves e agudos. Nela, a beleza reside além - onde se descobre entrecaminhos. Já que o mundo não é roupa estendida e pregada a esperar o sol no varal.
Dobrando a esquina, a mulher viu uma lembrança, que guardara triste, rindo de rachar os dentes. Mais um pouco, e a memória que guardara esma apareceu-lhe aplaudida, tida por bela e elegante, recebendo presentes e fazendo viagens fantásticas.
A mulher olhou para o outro lado e viu seus sonhos, ou o que lembrava deles, correndo por direções que não alcançaria. Cruzando o caminho de gente que ela não gostou um dia. E do gostar ou desgostar, só restavam reminiscências. A amplidão do presente ocupava mais espaço que todos os baldes, catando-lhe os olhares a todo sempre, ao desanuviá-los de outroras ou falsas tristezas e alegrias...
Dobrando a esquina, a mulher viu uma lembrança, que guardara triste, rindo de rachar os dentes. Mais um pouco, e a memória que guardara esma apareceu-lhe aplaudida, tida por bela e elegante, recebendo presentes e fazendo viagens fantásticas.
A mulher olhou para o outro lado e viu seus sonhos, ou o que lembrava deles, correndo por direções que não alcançaria. Cruzando o caminho de gente que ela não gostou um dia. E do gostar ou desgostar, só restavam reminiscências. A amplidão do presente ocupava mais espaço que todos os baldes, catando-lhe os olhares a todo sempre, ao desanuviá-los de outroras ou falsas tristezas e alegrias...
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Segredo.
Não era a cartola e umas tantas cartas na manga que faziam a magia do mágico. Nem o suspense, pausado em gotinhas homeopáticas de tambores rufando. Ou mesmo a assistente bonita, com suas roupas coladas e brilhosas.
Ali, à frente da pista. Administrando truques entre bolsos e fundos falsos. Acontecia mágica quando os olhares todos por sobre o mágico, empatizados, sentiam-se também capazes de determinar o curso e o tempo.
Abracadabra. E a bolinha que havia desaparecido reaparecia.
Sopro. E o passarinho branco voava, mas antes era um lenço.
Racionalmente ensandecido, o mágico sutilmente subvertia as mentes, guiando-as por tão doce ilusão. Não importava se impossível. De alguma forma, era real.
Saíam personagens os que entraram plateia no espetáculo. Enquanto o ator principal encerrava a noite com o maior de todos os números: o de fazer as pessoas acreditarem que o improvável, prescindíveis técnicas e compartimentos secretos, seria mera questão de dizer ao tempo alguma palavra mágica.
Ali, à frente da pista. Administrando truques entre bolsos e fundos falsos. Acontecia mágica quando os olhares todos por sobre o mágico, empatizados, sentiam-se também capazes de determinar o curso e o tempo.
Abracadabra. E a bolinha que havia desaparecido reaparecia.
Sopro. E o passarinho branco voava, mas antes era um lenço.
Racionalmente ensandecido, o mágico sutilmente subvertia as mentes, guiando-as por tão doce ilusão. Não importava se impossível. De alguma forma, era real.
Saíam personagens os que entraram plateia no espetáculo. Enquanto o ator principal encerrava a noite com o maior de todos os números: o de fazer as pessoas acreditarem que o improvável, prescindíveis técnicas e compartimentos secretos, seria mera questão de dizer ao tempo alguma palavra mágica.
domingo, 5 de julho de 2015
Sentença.
Porque vivia mais rápido que o tempo, a morte a espreitava já a mais de um quarteirão. Entre uma medicação e outra, entreolhavam-se. Os mais sábios, em experiência e lógica, a aconselhariam a deixar-se ir docemente, tão infinitos somos depois de nós. E agradecer.
Mas ela tinha um amor.
Por isso a agonia. Por isso o respiro gritando tosse, teimando vida. E todo o desespero, e desejo. Ainda mais do que ela ou ele, era pela linda promessa que lhes sombreara a vida, de ambos em uma. Promessas são palavras que falamos e não se desfazem mais. Era caso de amor eterno: já estava dito.
Inescapável, a morte e suas passadas avessas bem mais de perto sopravam-lhe a cantiga do sono. Quase rente ao coração em gemidos. Foi por impulso, levantou-se e decidiu falar ao homem ainda uma vez. Ou, na verdade, sobre todas as vezes.
- Que era eterno o amor. E imenso o tempo. Que os fios da vida quando desenrolamos para bordar um tapete às vezes é obra para mais de um fio só. Se não por ele, pelo amor que os unia, que deixasse a porta aberta, quando dos dois restasse apenas um. Para, então, amanhecer.
Por dentro, sabia que, bordado o tapete, pisar-se-iam, sobre um, todos. Ela, ele e a futura cor. Pois que não ser mais ou não ter sido antes são adagas empunhadas contra o peito de quem amou como seu a alguém. E o que entendia a morria lentamente.
Mas ela tinha um amor.
Por isso a agonia. Por isso o respiro gritando tosse, teimando vida. E todo o desespero, e desejo. Ainda mais do que ela ou ele, era pela linda promessa que lhes sombreara a vida, de ambos em uma. Promessas são palavras que falamos e não se desfazem mais. Era caso de amor eterno: já estava dito.
Inescapável, a morte e suas passadas avessas bem mais de perto sopravam-lhe a cantiga do sono. Quase rente ao coração em gemidos. Foi por impulso, levantou-se e decidiu falar ao homem ainda uma vez. Ou, na verdade, sobre todas as vezes.
- Que era eterno o amor. E imenso o tempo. Que os fios da vida quando desenrolamos para bordar um tapete às vezes é obra para mais de um fio só. Se não por ele, pelo amor que os unia, que deixasse a porta aberta, quando dos dois restasse apenas um. Para, então, amanhecer.
Por dentro, sabia que, bordado o tapete, pisar-se-iam, sobre um, todos. Ela, ele e a futura cor. Pois que não ser mais ou não ter sido antes são adagas empunhadas contra o peito de quem amou como seu a alguém. E o que entendia a morria lentamente.
domingo, 28 de junho de 2015
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Conselho.
Os sentimentos são coisas coloridas que saem de dentro das pessoas queridas e entram-nos pelo nariz, conquistando tudo que há por dentro. É doce sorrir, perder o sono ouvindo confidências, é doce até mesmo chorar por quem se quer bem.
O perfume de quem se ama não tem validade. Com o tempo, melhora. Fica mais complexo e encorpado por muitas camadas vivas tão únicas. Do profundo amadeirado ao cítrico faceiro; ou floral, com um toquezinho de canela. Ou banana. Ou qualquer outra coisa, triste ou feliz, que, pensando bem, faz um cheiro bom.
Exceto quando fede. Mas aí é porque a pessoa querida se mudou e esqueceu de avisar, e ficou só o corpo respirante dela por aqui. Você sabe como os amigos podem ser esquecidos! Com certeza, ela está em algum lugar, cheirando as flores mais belas. E esse em que se tornou seu antes querido, bem, eu não sei. Mas não mexa com ele. A menos que esteja preparado para o apocalipse zumbi...
O perfume de quem se ama não tem validade. Com o tempo, melhora. Fica mais complexo e encorpado por muitas camadas vivas tão únicas. Do profundo amadeirado ao cítrico faceiro; ou floral, com um toquezinho de canela. Ou banana. Ou qualquer outra coisa, triste ou feliz, que, pensando bem, faz um cheiro bom.
Exceto quando fede. Mas aí é porque a pessoa querida se mudou e esqueceu de avisar, e ficou só o corpo respirante dela por aqui. Você sabe como os amigos podem ser esquecidos! Com certeza, ela está em algum lugar, cheirando as flores mais belas. E esse em que se tornou seu antes querido, bem, eu não sei. Mas não mexa com ele. A menos que esteja preparado para o apocalipse zumbi...
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Tarde.
A gente nunca alcança o fim da estrada. Ele, sim, é que nos alcança. Um a um. Sem jamais sabermos como e quando. Se vai dar tempo ter um filho. Ou ver um neto crescer. Se vai dar tempo conseguir aquele emprego (é preciso tanta teima!), de chegar a casar com aquele namorado.
Se vai dar tempo montar um castelo de cartas para, então, assoprar. Encher e chutar tantos baldes de nós mesmos. Que a vida é matéria, e também se gasta. Aos muitos ou aos poucos, todo mundo acaba.
E o mais não sei dizer. Do fim, não conheço. Que das ruas que em mim correm, beiro à calçada.
Se vai dar tempo montar um castelo de cartas para, então, assoprar. Encher e chutar tantos baldes de nós mesmos. Que a vida é matéria, e também se gasta. Aos muitos ou aos poucos, todo mundo acaba.
E o mais não sei dizer. Do fim, não conheço. Que das ruas que em mim correm, beiro à calçada.
domingo, 7 de junho de 2015
Peso de papel.
Por entre as memórias,
um arrepio guardado.
De propósito.
Entre o querer intangível
e o querê-lo inatingível.
um arrepio guardado.
De propósito.
Entre o querer intangível
e o querê-lo inatingível.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Pedreiro.
Então, ele fechou os olhos e seguiu. Sem jamais olhar para trás. Até porque quem o guiava dizia ser a hora. E ele não saberia, por si só, o caminho, se acovardasse. Além do mais, odiava hospital, cheiro de UTI, odiava aparadeiras e fraldas geriátricas. E as picadas, e os soros, e aquela falta de ar e sol.
Não seria triste pensar na vida inteira que havia sido. Errou e acertou. Conseguiu a graça de construir um saldo feliz, um mundo para filhos, netos, bisnetos. E um bom nome para carregarem. O prenderiam as pontas soltas e miúdas por continuar, as atas e mangas do quintal, a liberdade que os anos emprestam aos velhos para falarem o que bem entenderem. E tanto mais os filhos haveriam de escutar, e os genros, e as noras. E tantas teimas a senhora haveria de suportar. Sobretudo, pela senhora. Por ela, não seria prudente espiar por trás um segundo sequer. Um só pensamento poderia magnetizá-lo de volta. Para o mundo dos que não morrem nem vivem. Pois o certo é que sua vida fora esvaída do aqui...
E levada para além do tempo, onde somente os corajosos e fiéis podem chegar. Não existe choro nem lágrima na morada eterna. Construíra um chão para tanta gente nessa terra que era preciso oferecer seus préstimos também ao Autor do mundo. Desmediria-lhe a alegria de ajudá-lo na obras da mansão celeste - uma em que coubessem todos os de coração puro - projetada por Deus desde sempre.
Não seria triste pensar na vida inteira que havia sido. Errou e acertou. Conseguiu a graça de construir um saldo feliz, um mundo para filhos, netos, bisnetos. E um bom nome para carregarem. O prenderiam as pontas soltas e miúdas por continuar, as atas e mangas do quintal, a liberdade que os anos emprestam aos velhos para falarem o que bem entenderem. E tanto mais os filhos haveriam de escutar, e os genros, e as noras. E tantas teimas a senhora haveria de suportar. Sobretudo, pela senhora. Por ela, não seria prudente espiar por trás um segundo sequer. Um só pensamento poderia magnetizá-lo de volta. Para o mundo dos que não morrem nem vivem. Pois o certo é que sua vida fora esvaída do aqui...
E levada para além do tempo, onde somente os corajosos e fiéis podem chegar. Não existe choro nem lágrima na morada eterna. Construíra um chão para tanta gente nessa terra que era preciso oferecer seus préstimos também ao Autor do mundo. Desmediria-lhe a alegria de ajudá-lo na obras da mansão celeste - uma em que coubessem todos os de coração puro - projetada por Deus desde sempre.
domingo, 24 de maio de 2015
Egoísmos.
- Por que você não me ama?
- Porque não tenho tempo. Por que você não me ama?
- Porque você não me ama.
- Porque não tenho tempo. Por que você não me ama?
- Porque você não me ama.
domingo, 17 de maio de 2015
Regra de três.
- Você quer me conquistar?
- Quero.
- E você, também quer me conquistar?
- Quero.
- Ah, pois então primeiramente eu não quis.
- Quero.
- E você, também quer me conquistar?
- Quero.
- Ah, pois então primeiramente eu não quis.
domingo, 8 de março de 2015
Rasteirinha.
Ser mulher é uma missão. E não escolha. Significa pertencer a um
pedaço de mundo no qual ser funcionária padrão, a chefe, ou a melhor aluna
da classe não fazem a mínima diferença – por mais benefícios que possam
trazer – no quesito tarefa cumprida. Implica em carregar no peito a necessidade diária de surpreender, existindo como elo de ligação entre a raça
humana e as verdades mais evidentes. Como o reconhecimento da
necessidade primeira de afeto, por si e por todos. E a de criar asas. E raízes.
Uma mulher nunca está sozinha por opção. São coisas da vida. Que
acontecem, quase ou sempre, para que ela ultrapasse as próprias limitações e
aprenda a ser invariavelmente libertária e doce, cada vez mais, não importando
a que preço. Aliás, uma mulher não se preocupa seriamente com o preço
quando se trata de bem de valor imensurável. Como a autodescoberta.
Porque a dor. Amargura. A martelada que seja. Perfuram no coração da
mulher poços insondáveis de humildade. Subterrânea nela. Que se sabe, ou se
adivinha, pequena ante os mistérios que lhe destemperam o ânimo. Ou geram
vida. À uma.
Existir é a tarefa mais desafiadora que uma mulher pode receber.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Dar o pé a torcer.
O homem que criava um papagaio insistia em deixá-lo voar. Por mais que o avisassem os amigos que um dia o Louro bem poderia sumir. É que não queria vê-lo ressentido do cativeiro. Solto, o pássaro poderia comer as frutas dos galhos mais altos da árvore do quintal. E voar. Mas, sobretudo, voltar.
Por gratidão, os pássaro não se importava de que o dono lhe cortasse a pontinha das asas. Nutria-lhe amor. Bebia café em sua mesa, fincava as patas nos seus dedos ou no braço. Para conversar com ele, aprendia novas palavras. Cantava em uma nota só.
O verde e amarelo do papagaio e o azul do céu formavam um belíssimo cenário. Coloriam o coração e os dias do homem. Que confiava no Louro. Mas é que, ao vê-lo voar um tanto mais alto, um outro dia, rumo à copa da árvore de um vizinho, enciumou-se e lhe impôs correntes.
E foi por tristeza que o papagaio nunca mais quis falar.
Ou sequer reclamar. Mas isso porque pressentiu, na escura crueldade, alguma amarga doçura remota.
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Alvorada.
As margaridas gargalhavam feito hienas na floricultura, e já era manhã. O saudoso salgueiro enxugava as lágrimas, por chuvosa a noite, encorajado pelo lírio que o fitava de algures.
O ar não cabia em si de tanta esperança. Tudo era doce, puro, real e assustadoramente novo.
Exceto para as margaridas - ainda bêbadas, debochadas e estúpidas - que fofocavam entre risinhos. Não existe seriamente sobriedade em emendar noites nos dias vagando aos bandos, trôpegas e colombinas. Queriam que a loja abrisse logo para paquerar os rapazes, roubando olhares que pertenciam às namoradas. Qual florezinhas levianas e descompromissadas, que eram.
Orvalhado, o lírio laranja agora meditava na cor do céu. O salgueiro afinal se conformava por ter perdido seu grande amor. Ele não pedira, mas amanhecera ainda assim. O sol, em dosada força, aquecia o dia branda e vigorosamente. O seu calor desfazia as nuvens e os rumores de que em algum momento elas pudessem atrapalhar qualquer alguém, com suas dores.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Tudo bem?
O encontro dos olhos separados pelo tempo tinha a dureza dos fatos e a
leveza da casualidade. Pairando.
Por alguns segundos, o nariz se fechou: de novo sentindo o cheiro da vida-que-poderia-ter-sido,
em flashback. Só que aqueles olhos já não verteriam
lágrimas. Não é que não houvesse cicatriz. Mas no momento presente, dali
onde estava, era simplesmente lucro demais que o remendado coração
pudesse ainda pulsar simplesmente. Sem mais precisar de sutura, gazes ou
esparadrapos. Não se chora por palimpsestos.
Autônomos, os pés decidiram mover-se, a passos firmes. A boca contraiu-se
oscilante num sorriso gélido. No ar, a firmeza de um soldado que mata
inimigos por tanto querer bem à pátria. Aos seus. A si. A tudo. Sufocando,dentro de si, os gritos de quem mata uma barata. Por saber que deve. Muda, em tamanho escândalo.
E foi assim, por dentro em desmaio, que a mulher guiou pelo salão de festas a própria alma desacordada, arrastando-a por entre o espaço para não perder o presente.
Com os olhos vazios como um peixe escorrendo por água abaixo. Maquilados com
sombra negra, ressaltando as pupilas escuras. Vestida num bonito vestido cor-de-rosa, que destoava de tudo. Pois que, sem alma, a mulher já não era amor, nem
cor, nem flor alguma.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Dois pássaros.
O escritor amava a Arte. Moravam juntos. Tinha-na por sua. Juramentada em versos testemunhados por mim, por você e por todos. Mas se desmedia em paixão indisfarçável pela Celebridade. Que, fogosa e insaciável, num belo dia cinza o partiu. Deixando-o, já de mãos dadas com o novo best-seller da prateleira.
Injuriado, o artista se inflamou. Que haveria de tê-la de volta. Por já não crer haver, consigo mesmo, valor algum. E pôs-se a escrever, sem nenhuma inspiração, quadrinhas passionais de recalque. As quais a Celebridade prontamente esnobou, desapercebendo-as por completo. Até que ele definhou.
Na surdina, a Arte enxugou das lágrimas a revolta e catou da casa as últimas migalhas de dignidade, colocou-as em sua mala, e a fechou. Não fosse a última a saltar de um tão naufragado barco. Restou, no fim, o nada. Despojado até do último destroço.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
"Espólio"
Eu tinha mandado um e-mail de agradecimento, mas como ele voltou pra minha caixa postal...
Agradeço aqui pelo presente - um livro premiado do poeta Rubervam du Nascimento (e autografado!) :D
Em Teresina, onde muita gente boa mantém seus escritos nos fundos das gavetas, é muito bom ler os autores com gabarito que estão seguindo na poesia. Os poemas são irretocáveis, têm métrica e simétrica. MUITO OBRIGADA pelo livro, pela atenção, pelo "Atente!". E viva a poesia, porque falta alma aqui e no mundo!!!
L.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Criação I.
Ela fixava o papel como quem tinha o que dizer, mas esperando que ele o fizesse. Desviava o olhar, como quando mentindo. E depois voltava, inexorável, para onde antes - interpretando saber, mas escondendo para trás de si o sentimento indecifrável.
O papel esperava. Não porque quisesse; era sua missão. A paciência é virtude que vence os maus hábitos por simples teima. Impessoal e despassional.
O sentimento descia pelos olhos, via o papel, e voltava. Não queria estar nu.
Até que, por pura curiosidade, colocando um pé e depois o outro, a mão, e enfim molhando o cabelo, deixou-se nadar por inteiro na palidez dos versos. Descoberto.
O papel esperava. Não porque quisesse; era sua missão. A paciência é virtude que vence os maus hábitos por simples teima. Impessoal e despassional.
O sentimento descia pelos olhos, via o papel, e voltava. Não queria estar nu.
Até que, por pura curiosidade, colocando um pé e depois o outro, a mão, e enfim molhando o cabelo, deixou-se nadar por inteiro na palidez dos versos. Descoberto.
domingo, 18 de janeiro de 2015
Sufrágio.
Foi a janela que trouxe o vento que ao invés de ar puro fez-se resfriado. Em sonoros espirros. Então a princesa, sempre presa na mais alta torre do castelo-coração de alguém, irremediavelmente soube que havia um mundo lá fora capaz de contagiar os sãos. Para desespero alheio.
Já não queria as rosas do jardim. Exigia que lhe buscassem mudas d'além mares, e depois bichos, por fim pássaros. Aos quais se agarraria em minguante lua qualquer, livrando-os da gaiola. E consentiria que a guiassem aérea por onde sabiam voar: em rumo de casa.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Status quo ante.
O mendigo que mora perto da minha casa revira o lixo. Ele tem fome. Acho estranho escutar a sua fala. A droga muda um tanto e outro da voz, até deformar o inteiro. Ele mistura alucinações com realidade em seus relatos, sempre cheios de muito rancor.
O mendigo que mora perto da minha casa se junta com o mendigo que vigia carros na calçada do meu trabalho. E com o mendigo que pede nos sinais de trânsito da avenida que se cruza com a que sobe para o Morro da Esperança de todo dia. São prováveis rivais entre si.
Juntos, eles reviram a minha alma.
Ela mistura ilusão e realidade, com pensamentos tão cheios de pavor. Eles andam sempre com facas. Eu tenho medo dos bandidos. Os mendigos sentem fome. Os bandidos extorquem dinheiro. Os mendigos podem ser bandidos também.
Embriagados por uma dose e outra de droga, a que vem de dentro. Pobres de tudo. Tanto eles quanto o meu espírito – quando, por covardia, esquecer, um instante apenas, que ali e aqui bate um coração.
sábado, 3 de janeiro de 2015
Sorine.
E foi na quina de alguma pedra dessas que nascem entrecaminhos: ele perdeu a fé. Mas ainda existia, e o mundo era composto da mesma matéria, só não havia o porquê.
O vento quente e empoeirado cobria as raladuras da queda. E o rapaz engolia a sede, já que não cria em água ou cálice. O caminho, de sempre o mesmo, desdobrava-se-lhe em cansaço por causa do calor do dia, na cabeça o sol de rachar.
A atmosfera agora tinha um peso esmagador. O ar que entrava parecia ser o mesmo que saía do nariz, pois nada possivelmente seria novo, tudo revolvia de si para si em vômito, asmático-ruminante.
Os problemas resolviam as soluções, apagando os pontos finais; que viravam reticências, vírgulas e travessões... Num roteiro censuravelmente trágico.
Foi quando ele começou a ver graça em coisinhas pequenas daqui e dali, como frestas de luz. Inusitadamente. E a vida era então o cuidado de ler um livro que nos entende bem.
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Poema de Halloween.
Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato. Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...
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Quando o meu pior medo pulou da caixa dos temores para o meio da rua era como se esta rua já nem fosse mais tão minha assim. Então, me...
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Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato. Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...
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Talvez eu tenha algo a dizer sobre o tempo que passa que ultrapasse as pequenas ganâncias que moram em mim e querem dominar o mundo. Sempre ...




