domingo, 25 de dezembro de 2016

Além do horizonte.

Porque a vida era boa, o bichinho precisava trocar de concha como quem se despede de si: lentamente. Anátema aos dias, meses ou anos. Seguro de atentar a cada detalhezinho de sua continuação. Haveria um backup esquematizado de todos os encantos que pudesse transportar em si à nova morada. Mas, sobretudo, do que passou não restaria mais nada. Por escolha.

O bichinho ia embora devagar porque tinha amado ficar. E já não iria retornar. É que é assim que a vida segue. Linda.

Muitos animais censuraram-no pela demora. Mediam o tempo com calendários e relógios. Desconheciam as estações inerentes somente audíveis ao mais sensível coração. Arrancavam cascas de ferida como se fossem bandeides, sangrando desapercebidos ou em segredo, para não dar o braço a torcer. Ao bichinho, ninguém enganava.

Ele era sábio.

Talvez mais do que um pouquinho só demorado demais mesmo.

Ainda vaga.

Um dia, há de chegar juntinho de mim.

Quem sabe arranje na concha nova um espacinho para dois.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Anjos.

o vento negro acalantava os galhos
onde pássaros empoleirados descansavam do dia,
na velocidade do pensamento

as almas separadas pelas ruas
escorriam qual anéis ensaboados,
amor em riste,
dormindo nuas

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Dorme, coração.

Chacoalhada pelas emoções,
a criança cansada do dia
espera pela noite
pisando espalhado em cacos audíveis de lágrimas.

Sua alma só precisa de um banho e um leitinho.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Divórcio.

A distância centímetra entre os dois corpos media a altura orgulhosa de um gigante e a força de todos os dentes do mundo. E a memória das mágoas.

Cruzada a porta, o homem prometeu de si a si mesmo jamais acreditar em sorrisos ou palavras outra vez.

Esmagada pelo bater da porta, a mulher sufocava com seu peso toda queixa e todo amor. Traía-lhe a esperança de um fim depois do fim. O querer crer que no mundo houvesse ainda cores.

O homem em seu caminhão de fretes buscava logística no depois, subindo e descendo serras. E correndo os perigos da estrada, sem os pudores de quem tem coração. Sem afrouxar a mordaça à saudade que, ainda assim, o atocaiava e estrangulava, vez em quando.

A mulher descascava sempre cebolas. Que o mal de tudo seria o desmotivo. E depois, é receita das mais simples falsear um porquê.

 Até o dia em que se encontraram. No fórum, perante o juiz. À tal distância centímetra. Que é quanto media o muro alto que arranhava de cinza um céu de azuis. Erguido imponentemente ali por desrazões que já nenhum dos dois, e nem ninguém, saberia realmente contar. E, por isso mesmo, fingiam esconder-se como formiguinhas, nas sombras esvanecentes do tamanho muro. Não descobrisse o desamor que lhe haviam faltado.

domingo, 27 de novembro de 2016

Alfazema.

A mais bela mão que segure o tempo em um pouco transforma-se no tremor ressequido de um afã. Belo sim, porque um dia o foi. E a beleza é perfume verdadeiro, que fica mesmo quando se vai.

Finda a correria, o semblante é feliz se, dada a largada, já o era. São iguais sempre as duas faces da mudada moeda. O velho brinquedo é novo sempre que a criança descobre de brincar. Ainda quando por imaginação, se adiantados os anos.

Aos menos é o que hoje, quando recebeu flores, a jovem mão envelhecida ouviu das sábias pétalas que anteviu caírem, entre sussurros e enternecidos gemidos. Nua de segredos. Evidente por si. A beleza era, então, conquista a qual nunca alcançam os que se regam do medo de um dia murchar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Penada.

O desejo é um monstro alucinado de fome que, um dia, abrindo a boca para me engolir, explodiu. Mas a pontinha dos meus pés, porque foi quase deglutida, desde então se recusa a pisar no razoável chão. Assim, por sã a minha mente, fantasmagueio.

domingo, 13 de novembro de 2016

Estaca.

O meu pai é a linha que me costura os pés ao chão para que eu não desista de voar: ele mantém a lei da gravidade. O meu pai sempre foi - e será, sempre - quando encontro dentro de mim os traços retos que me organizam os sentidos mais contundentes. Arquivo e guardo o que for cabível. E que se lance fora o pó daquilo que já não tiver utilidade.

Ele tem gosto de feijão. Como mágica, cresce cada dia mais dentro de mim, quando pelo raciocínio e lógica realizo um sonho. Como teima, contesta todos os dias as minhas vontades, para me treinar a força com que as devo realmente querer ou não.

O meu pai fala mais alto do que o mundo inteiro sem uma única palavra.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Enquanto.

Ele a amava como se espera uma fruta amadurecer no pé. Porque não estavam prontos. Num mundo em pó solúvel instantâneo.

Tinha dia que chovia, dia que fazia sol. Sobretudo, tinham dias. Com vinte e quatro horas, de sessenta minutos cada. E se ele a esperava contando as gotas e os fios de sol, contando os segundos, era porque tinha certeza no coração.

Por amor é que regava as plantas do quintal, como se fosse obrigação diária. Ele - que sempre estava com pressa demais. Parava ali seus instantes melhores, sob um céu laranja de amores certos e temporãos.

Apaixonado.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Marra.

Talvez eu tenha algo a dizer sobre o tempo que passa que ultrapasse as pequenas ganâncias que moram em mim e querem dominar o mundo. Sempre inatingíveis.

Talvez eu fale ao tempo que já não me incomoda que ele siga passando tanto assim. Que não me incomoda que carregue para longe os amigos - seja para outras paisagens, ou para além da vida. Que eu estou sentada e bem confortável vendo as ondas do mar. Quebrando.

Talvez eu diga o quanto amei voar rasante de asa delta por emoções que desafiaram a minha paz. Ou ler, comer, vestir e cantar o que havia de mais divertido na modinha. E que já não me fazem falta as extravagâncias irreverentes, ou o mais novo caos político extenuante dos trending topics.

Estou bem. Sóbria. De resto, guardei minha única e própria cor. Se os anos não me assustam, é porque já não há sonho algum que seja grande o suficiente para não caber em mim. E, no dia em que eu não mais for, posto vazia a plateia, nem que seja a cortina que encerrar o ato sorrirá ao meu fim.

sábado, 22 de outubro de 2016

Maldades.

Ela chegou. Largou a bolsa e as chaves na mesa. E terminou de percorrer o corredor enquanto tirava os sapatos. Em alívio, mas agora desesperava.

É que, chegando ao quarto, pelo espelho, viu uma barata. Sentiu-se vista pela barata. E, porque a vida já lhe era suficientemente difícil, chorou. E não lhe tirem a razão.

Ela, que tanto trabalhava. E cansava. E tentava arrumar a própria bagunça todos os dias. Que havia velado o final de semana aos estudos, não descansando: ela não precisava. Não agora. Não ali. Nem daquele jeito.

Tinha asas.

Num ápice de desrespeito, a barata alada invadia o banheiro e pousava em sua escova de dentes. Lambia o tubo de pasta.

A mulher virou tapete de chão. Inerte. Impotente. Seu semblante era duro e frio, quase a morte. A barata a tripudiava absurdamente.

Foi então, e sempre chega o depois. Que, por não conseguir dormir, ela acordou. Logo, tudo o mais sufocou com cheiro de Baygon pela casa inteira, e desde-em-diante era ela quem zombava. E foi o ponto final.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ventos Uivantes.

Não sei quando. Um dia, Catherine olhou para um céu de cores e desejou sinceramente ser quem não era. Inabalável.

E fingiu não-ser com tanto ardor que magoou tudo a que pertencia.

Heatcliff, o dono do seu coração, urrou e esbravejou qual fera a ponto de nunca conseguir ser feliz, arrastando na imensidão de tristeza todos, exorcizando para sempre a luz do sol, em continuado absurdo.

Percebendo-se morta, ela voltou a si já inexoravelmente tarde.

A noite era fria, pesada e nua. Como só imaginamos lendo os piores livros.

Nunca mais, ou antes, esperança alguma. Neve por dentro dos ossos e a cerrar-lhe os dentes, e a enrijecer os músculos de quem já não existia. A fantasma batia desesperada na janela do vilão. Eram batidas mais fortes que o ódio, e o hálito da morte lhe era mais doce do que tudo, de tão áspero o coração.

Por ter escolhido o escuro, por ter destruído em si o entorno, por já não saber ou querer consertar. E por ser tão cruel. Outrora, lacerado obstinadamente por seu único motivo. Então, embriagado de amor e solidão.

Ele ainda preferiria mil vezes viver a morte a um cemitério.

domingo, 2 de outubro de 2016

Timing.

Ela acordou de sobressalto, entrou na roupa, sorveu café com chiclete de menta e saiu. Ainda assim, já era outubro. Tarde demais para começar o que quer que fosse. Continuavam tic tac os ponteiros que mais um pouco e trariam o ônibus, as pessoas e o movimento. Fechava os olhos e sentia o chão ficando longe longe longe. Igual a tudo que não passava de pensamento. Noventa dias para tentar de novo.

O presente continuava.

Ao redor, por entre narizes e bocas, o ar abastecia a vida. Não a que queria, mas a que é. Desobstante, por detrás dos óculos, a matéria premente futurava aspirações, enraizada. Como a fé de quem sente a ponta da trança.

sábado, 6 de agosto de 2016

Triz.

Quando deliro, o corpo me atrapalha a alma:
Essa pressa que sai batendo a porta, sem onde
Ou desde.

Deito, mas a tosse, sacudindo sua feia dança,
Diz que é hora de acordar
- por escuro o céu -
E a vigília me esgarça o olhar
Inchado.

Se eu apenas deliro,
Embebedada a calma,
Do raso, me afoga um fundo cheio.
Eu quase que quase não nado.

sábado, 30 de julho de 2016

Avessia.

Ela correu pelos ventos, saltou obstáculos, esgueirou-se no escuro. Mas, enfim, ele a alcançou. O cansaço. Com seus olhos vermelhos que um dia foram brancos, antes do tempo os encrudescer. Trazia rugas que arrastavam o insopesável.

O cansaço, que a tomava pelo braço, não era a dieta que nega o doce. Era o enjoo, a angústia. De quem comeu mais do que devia. Ou tentou mais do que poderia. E a levava de volta à trilha mesma por onde veio. A ela: tão farta de si e dos seus dias que não resistiria em cores vivas.

De teima, ainda virou as costas. Arrancou o coração. E o arremessou ao preservado longe.

domingo, 5 de junho de 2016

Advertência.

Ele era o grito de liberdade que a acordara de uma vida de noite sem fim. A carta de alforria. Como uma capa de super-herói, era o que a vestia, e então ela podia tudo que uma mulher sozinha não poderia. Como sair à noite, mudar de casa, trocar a faculdade por um curso de artes e virar a cara para a gente chata.

Porque estava apaixonado, deleitava-lhe prometer a ela todas as cores, inclusive a rosa mais sonhada.

A embevecia sorver os anos doces e cremosos de amor com ovomaltine.

Até o dia em que, passeando, ela pisou por onde ele não permitiria, desapercebidamente. Foi quando, ao retornar ao sempre, com a alegria de um canto, ele a interpelou. Com as mãos espalmadas, enumerou-lhe as milhares de correntes invisíveis e descomunais que a prendiam. E mostrou a espessura das macias e intransponíveis paredes de algodão do castelo que lhe havia construído.

Aí, não se sabe se por medo, desamor, mágoa ou puro espanto: ela chorou.

domingo, 1 de maio de 2016

Admirável mundo novo.

Quando ela acreditou que ele a amava, tratou logo de cavar buracos naquele coração. E de fincar estacas, e construir paredes. Instalou pessoalmente a tubulação, os fios da energia, as tomadas. Comprou piso de cerâmica. Encomendou cortinas cor-de-rosa pela internet. Pediu à mãe que bordasse, em ponto de cruz, uma toalha para a mesa de vidro.

Era pleno o amor, e dia após dia transcorria sua construção. Meticulosa ela, batia sempre bem os pés no chão, pisando forte ao caminhar. Para acreditar que era sólido. E para espantar o fantasma do olvido. O qual, diziam, causaria rachaduras nas paredes, amados tijolos.

Ele sorria sempre, de tanta meticulosidade. Afinal, tão certo quanto o chão é chão ele a amava. E o céu era azul de cuidados e certezas.

Foi quando sobreveio o terremoto.

E podia ser pior porque, na verdade, ela e ele sobreviveram.

Mas a Terra não era mais Pangeia, e já cada um morava em um novo continente.

domingo, 24 de abril de 2016

Fresta.

Vou buscar nas batidas do meu coração, e trago para a superfície, uma vez e outra, alguma calma. Como quem procura pedrinhas, mergulhando até o chão da piscina. E volta. Iminente a possibilidade de, em mais, morrer o ar.

Alguma calma. E as cores do quadro continuam as mesmas. Já então, um pouco menos assustadoras. Alguma calma e continuo tensa, concentrada no provável golpe do inimigo, mas encontro leveza no abismo-triz.

Alguma calma e não enlouqueço. Nem esqueço.

Abençoado intervalo entre a sístole e a diástole do pulsar.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Fim de caso.

Era de partir o coração que a aurora (desapaixonada) não aparecesse ali para desfazer tamanho mal-entendido. Talvez porque não fosse um mal-entendido. O barquinho bêbado e trôpego sairia em missão de busca e resgate do seu grande amor mesmo que fosse tarde, todos sabiam. Queimava-lhe, denso e escuro, o raivoso ziguezague do mar. Doía mais que água-viva.

O barquinho trôpego e louco deixava-se bolar pelas ondas de soda cáustica, cegamente vagando. No perquirir notícias de um ensolarado idílio já findo, arranhava-se entre pedras e cascalhos, até perder a esperança. Atingido pelos relâmpagos da tempestade. Sucumbido pelas grossas, pesadas e amargas balas de gota d'água, que o sacudiram, redemoinhas. Escurecendo-lhe o nariz.

E até amanheceria. Só que, daquele barquinho, não restaria mais nada. Não em sendo ele assim, como era. Passional e inconsequente.

Era de doer. De partir o coração. Que o barquinho se tivesse deixado estar tão aturdido, rouco, louco e remexido.

Inexorável, irredutível.

E morto.

domingo, 10 de abril de 2016

Naftalina.

Fazia sol, e ele a buscou no aeroporto com uma caixinha de presente. Seus olhos cor-de-sonho brilhavam. Dentro, mais um colar. Prateado, com um morango cravejado de pedras. Também enchia a florida caixa cor-de-rosa uma folha amassada de papel seda vermelho-apaixonado. Naquele dia, ele disse a ela o quanto era ruim que estivessem longe e que isso nunca mais aconteceria.

É claro que isso foi antes de dizer-lhe que não deveriam estar juntos nunca mais por toda a vida. Uma coruja apareceu a ela naquela noite, enigmando tragicidade, minutos antes.

E todo o tempo, choro, promessa, os porta-retratos e as músicas, todo ar e cemitério foram espremidos para caber ali: na caixinha guardada.

Que ficava escondida.

Enquanto ela recomeçava, por ser impossível simplesmente continuar.

Se a sobressaltava um pensamento, lembrança doce ou ruim. Se lhe vinha alguma angústia, saudade sem ter mais o de quem. Espremia mais a tal caixinha. Que, com o tempo, passou a quase desexistir, em instntes de feliz esquecimento, como quando tomamos um analgésico.

Por isso, mais constantemente viajava. Fora de casa, os caminhos eram sempre mais iluminados. Ninguém precisa pôr as rachaduras de casa na mala.

Mas é que, voltando-se para dentro de si, ela simplesmente preferia nunca mais se abrir. Ou tocar no que lhe era incenso e tóxico, naquilo que sabia que não poderia destruir. Mas que também não destruiria, se pudesse.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Mortalha quentinha.

O gosto do passado era doce e ensolarado, mas teria no fim o amargor da decepção mais leviana. Posto que, naquela noite, ao fechar-lhe o portão o costumeiro amor, seus olhos escuros esvaziaram de si tudo que era essência, mudando passivamente de cor para um raso gélido adiante outrora inimaginado.

Definitivo, o fim pairava. Como guerra pressentida em Berlim. Sem que houvessem máscaras de gás.

Entre a asma e o latente suspiro, ela questionava a lua. Que, enlutada, preferia não se pronunciar. Tramando consigo colar ainda os cacos de amor. Ou tecer-lhes a memória, com os mais puros fios grisalhos, numa colcha de belíssimos retalhos.

domingo, 27 de março de 2016

Paixão.

Era Páscoa, e o moço da Galiléia andava pelas bocas que resmungavam o preço do peixe e do chocolate - falantes mausoléus de uma festa sem lágrimas. E incomodava.

Que houvesse sofrido. Existido. Que fosse mesmo santo, abnegado e o próprio amor. Perturbava nele crer ou descrer. Com pequenas maldades, as pessoas da ruazinha enforcavam o Judas. Ou pelo desejo quase sentido de honestidade e austera justiça, sob a prerrogativa de tê-lo paramentado como os corruptos da ocasião, réus julgados e condenados informalmente à pena máxima pelos populares.

E assim, enterrando-se o homem que só sabia perdoar, festejavam aqueles que de sacrifícios compassivos só queriam esquecer - enquanto o ano seguia, umbiguesmado, aos reclamos da política e do futebol.

terça-feira, 22 de março de 2016

Agnóstico.

Muitas foram as escolhas que o trouxeram ali para onde estava: naquele momento. Quando em criança, a paixão pelo giz-de-cera. Agonia ao ver um papel em branco. Depois, o prazer de descascar a ponta do lápis com estilete. Por fim, a magia do misturar das tintas, criando cores inéditas em óleo. O fascínio pelo céu que muda, pelas estações do ano. Sobretudo, a crença de poder sempre traduzir as emoções em pinceladas estudadas e por ele mesmo calculadas.

Naquele exato momento, no entanto, a tela diante de si restava inflexível, imutável, branca e muda. Todas as possíveis cores em sua paleta eram falíveis. E ele simplesmente não poderia.

Ainda que misturasse o azul e o laranja, imitando o entardecer do céu, como as pessoas provariam a amplidão de pressentir o tempo pelo cheiro? E, se desenhasse a menina de vestido branco que. em sua mente, caminhava premente por uma cidadezinha etérea, como entenderiam quão absurdamente transparentes eram seus olhos espelhados?

Na galeria, o contraste entre quadros de flores vivas e de natureza morta. Gravuras que retratavam amores e dissabores. Ou deuses em momentos lascivos e humanos. Onde caber a menininha de branco estilhaçante?

Eventualmente, ele tentou pintá-la. Começando pelos olhos. Mas estes logo refletiram-no duro e agonizante. Numa tela remanescente, inexpressiva e espaçosa demais. Do rosto do pintor, caiu uma lágrima. A menina estava ali, presa em sua mente, e ele não conseguia resgatá-la. Tão pequena. Frágil. Como sem ter quem valesse por si. Quase condenada a jamais existir, sendo que urgia.

Ela não precisava de cuidados nem de um pai, ou coisa alguma. Mas, porque era real, lancinava-lhe o prolongado não cabê-la em si. Atormentado, o dantes hábil pintor seguia incapaz de coordenar traços tão claros. O riso da alma que nela enxergava. Miserável por não saber deixar fluir o que livremente era. Por ter sempre que recorrer a suas próprias cores para desenhar, autossuficientemente, o que, em verdade, escapava ao domínio de si. Por não confiar na essência entrementes de tudo que se explica por si só. Ou sequer conseguir enxergar, por detrás de uma bolha de medo, a fome tremenda que se lhe desmilinguia. Da fé indizível que em miragem lhe importunava descrer. Desafortunado.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Dedos (des)apontados.

Um dia, a alegria dos lábios que se encontravam virou o conforto de um café quentinho. Nas manhãs cotidianas certas de incertezas. E os carinhos ao pé do ouvido viraram a força motriz do bom ânimo. Os abraços eram promessas e os sorrisos, bombons para as almas.

Que caminhavam confiadamente unidas pelo fio mais fino e tênue. Não fossem soltas e separadas para os lados. Nem amarradas forte demais a ponto de quebrar.

Lado a lado, a passos simétricos, os anos seguiam.

Até quando, do desfiadozinho de um ciúme escondido, a linha rompeu barragens de águas pesadas. Aí, então, só para se defender, os dedos das mãos dadas acusadoramente se desentrelaçaram. Tristes, em riste.

domingo, 6 de março de 2016

Curare.

A dor - sabia o faquir - vinha de um ponto único, um espinho cravado no entorno da alma. Não de todas as desgraças literalmente juntas, como os pregos da sua cama.

Ali, reunidos, eles não eram nada. É preciso certa dose de calmaria despretensiosa e de coragem ruminada para sentir dor. O faquir não saberia doar-se a um único machucado, por isso tinha a vida que podia suportar. Passava seus dias sob a sombra resistente da resignação. Não ousasse ele ter um amor. Um sonho. Ou deixar-se seduzir por qualquer expectativa específica. E o fogo não o queimaria. Nem jamais lhe perturbaria o cravar das lanças.

Na rua, a viver do que sobejava dos bolsos dos passantes, o homem que lambia espadas subvertia a nevralgia a um ponto ao qual os corações doloridos que desavisadamente o encontravam desajariam ardentemente alcançar. Mas isso antes de desesquecerem em cada lágrima a réstia indelével do amar...

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Criação II.

No espelho, a barriga lisa fingia instante esquecer o pensar num filho. Pois é matéria demasiado complicada comer manias e paixões e ao fim pesar, por dentro, a sustança do feijão. Os filhos só conhecem a porta da frente, e atravessam medos e limites nossos, dedo em riste, querendo vida e mais vida.

A eles não se engana dando comida ao invés de alimento. Tampouco se interessam por livros a menos que sintam de você que podem fazer história. Filho é uma batida que começa a pulsar dentro, mas que depois ultrapassa tudo no mundo.

No quarto cinza, por entre projetos engavetados e estantes de sonhos empoeirados por décadas, haveria um filho. Mas, para então, era preciso que a mulher despertasse do rotineiro transe da mesmice e transformasse tudo em si numa única cor viva de verdade. Para, pintando, desgastar-se amorosamente, como óleo em tela, até acabar.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Minutos.

A respiração marcava o tempo que escorria pelo ralo que haveria de engolir-lhe, ao fim, a esperança. Por isso, ela tentava não respirar. Involuntariamente. Até o ponto em que as narinas enchiam-se de inevitabilidade, vorazes. - Que assim fosse, comandava-lhe o cérebro. Sem que o assentisse o coração.

Ele não chegaria. Da mesma forma que os seus sonhos, planos e desejos mais simples.

De medo, já nem olhava o relógio.

Avestruz, com a cabeça chafurdada numa lata de refrigerante, à entrada do cinema. Sob os olhares-mundo dos mudos.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Mau humor matinal.

Ela poderia não abrir a janela. Mas, se abrisse, o vento da manhã a invadiria com as certezas mais irrefutáveis. Docemente. Ao grasnado dos passarinhos.

Seus olhos fechados tentavam construir pesadelos. Ainda inebriados de uma turvez noturna. Qualquer coisa seria melhor do que acordar e contar as calorias do cereal, ou lembrar do chefe.

Mas é que lá fora, enquanto o sol esquentava os carros que evaporavam os segundos parcos do dia no vai-não-vai dos sinais de trânsito, reinava rotineiro o azul do céu. Em animada animosidade. Como quem reclama do preço daquilo que sabe que nunca vai faltar.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

A graça é leve.

Porque o fardo que trazia consigo a cansava, nem sempre os dias eram fáceis. Às vezes, quando levantava rápido demais, era preciso urgentemente respirar fundo em sua sede para aclarar a vista. Ao que ela disfarçava a tontura, com um sorriso opaco. Noutras, simplesmente o peito a abafava. Para que não gritasse. Nem rasgasse as páginas todas do seu calendário a cada nova ou velha agonia resiliente. Como uma mordaça.

Certa noite, cabeça no travesseiro, o peso que carregava sufocou-lhe os pensamentos. Seus despertos olhos fechados preferiam não enxergar a dura cama, que a trocava de posição com supliciosa ginástica de culpas. Ela ainda buscava ocupar a mente contando ovelhas, mas temia que, juntamente consigo, todas despressurizassem. Sucumbindo ao medo e ao horror.

Por último, em sobressalto, acordou a luz, e então chorou. Foi quando, às preces, o céu se abriu, em forma de leão. O senhor da fúria e da paz a colocou para dormir - lá fora explodiam bombas e mísseis - e então a marcou solenemente com sua pluma, e pintou aquela manhã de amarelo e azul, e todas as outras.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Pela estrada afora.

Ela previa o final das histórias e sentia que aquele seria lindo e pleno. Quando, depois da página 20, inventou que deveria também ser temprano para ser tempestivo. E encasquetou de encontrar um atalho para si própria.

A busca pelo caminho curto consumia-lhe dias e noites. Virara a razão principal do seu curso. O motivo pelo qual parou de trabalhar, de comemorar datas, de sorrir com os amigos. Era preciso ter prioridades.

Em algum ponto nas curvas floridas do caminho longo, o amor a esperava. Junto com tudo aquilo que realmente importa. Mas ela buscava um atalho, e a certeza da existência das almejadas finalidades belas no caminho longo não poderia importuná-la neste primeiro, custoso e sobrepujante mister.

Um dia, ela cansou de se dar inteira ao meio. Talvez no mesmo dia em que o fim cansou de esperá-la, na oposta direção certa. Então, descobriu-se escassa, rasa e tonta, tentando dirigir a vida como quem, em uma curta pista, roda num carrinho de bate-bate.

Bate-batendo o coração.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Inimputável.

No dia em que ele a ameaçou com flores, ela ficou brava como não se pôde entender. É que cada pétala era intrínseco dardo, num assalto qualificado de coração.

E, por ter-lhe trancado dos sentimentos a porta, as flechas então cravadas a doíam. Sangradas. Sem que a ele fosse imputada qualquer tipicidade.

O que mais sei é que, por agonia, ela o procurou. Abriu-lhe a carteira. Entregou identidade, impressões digitais e tudo de mais valor que em si existia. Desde então, e para sempre, a tiveram por desculpavelmente feliz e louca.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Resiliência.

Nos momentos difíceis, acalantavam-lhe a alma as batidas intermitentes de um coração que prometeu nunca deixá-la, enquanto vivesse. Eram, ela e ele, um só. Indivisíveis. Mas não exatamente inseparáveis.

Inclusive ali, na UTI. Era como se metade de si recheasse mornamente um corpo estático. Enquanto almas e corações restavam unos. Ela, madura e eterna demais. Ele, cansado e irremediavelmente pretérito.

E quando o último respiro fechou a porta, apagando a luz, a alma concluiu que solidão não era desexistir. Era existir, depois. Quando a agonia última, feita de certezas lancinantes sendo mastigadas e engolidas por um buraco negro, comprimisse-lhe cores em dores.

Dentro do corpo entregue aos vermes, a metade sem vida do coração putrefava junto às promessas lindas e fiéis de antes. Decompondo a viúva. Ao tempo em que do ontem ter um dia existido remanescia-lhe a vida que ainda é. E que urge tão cotidiana quanto limpar o pó da casa. Como partículas suspensas de saudade a pousar em memórias.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Verde, a esperança é minha!

Já era tarde, e mesmo assim o papagaio-louro-do-bico-dourado dava bom dia, como quem persistia ao repetir. Envoltas em amarelo, às suas cinzas pálpebras cerradas fugia o céu azul do sempre nunca. Elas escondiam seus olhos. Ele tinha as asas cortadas.

Para que não voasse.

Mas era pássaro.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Grito e guerra.

Foi quando pediu ao namorado que matasse a barata, e ele não matou (alegando que se escondera debaixo do sofá), que a agonia noturna por conhecer a existência de um perigo viscoso e próximo cresceu. Invisível.

Tique-taque.

Inerte, o homem despediu-se caminhando rumo à praça, seguindo para o outro lado da cidade no ônibus das onze. Deixando-a a sós com o algoz, a chinelos limpos.

 ...

Na penumbra, a solidão da mulher a restava. Fugida do sono pelo coração, o qual arguia que colocar a cabeça no travesseiro seria como fechar os olhos para o conformismo gigante que sapateava na sala. Ou dar razão aos que se escondem nos cantos, que se esgueiram nas preguiçosas brechas das desculpas. Aplaudir a quem nunca apóia a revolução.

Então, o baygon que ela de si espremeu matou a noite, a barata, o rapaz e todos os seus emplastos.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...