terça-feira, 22 de março de 2016

Agnóstico.

Muitas foram as escolhas que o trouxeram ali para onde estava: naquele momento. Quando em criança, a paixão pelo giz-de-cera. Agonia ao ver um papel em branco. Depois, o prazer de descascar a ponta do lápis com estilete. Por fim, a magia do misturar das tintas, criando cores inéditas em óleo. O fascínio pelo céu que muda, pelas estações do ano. Sobretudo, a crença de poder sempre traduzir as emoções em pinceladas estudadas e por ele mesmo calculadas.

Naquele exato momento, no entanto, a tela diante de si restava inflexível, imutável, branca e muda. Todas as possíveis cores em sua paleta eram falíveis. E ele simplesmente não poderia.

Ainda que misturasse o azul e o laranja, imitando o entardecer do céu, como as pessoas provariam a amplidão de pressentir o tempo pelo cheiro? E, se desenhasse a menina de vestido branco que. em sua mente, caminhava premente por uma cidadezinha etérea, como entenderiam quão absurdamente transparentes eram seus olhos espelhados?

Na galeria, o contraste entre quadros de flores vivas e de natureza morta. Gravuras que retratavam amores e dissabores. Ou deuses em momentos lascivos e humanos. Onde caber a menininha de branco estilhaçante?

Eventualmente, ele tentou pintá-la. Começando pelos olhos. Mas estes logo refletiram-no duro e agonizante. Numa tela remanescente, inexpressiva e espaçosa demais. Do rosto do pintor, caiu uma lágrima. A menina estava ali, presa em sua mente, e ele não conseguia resgatá-la. Tão pequena. Frágil. Como sem ter quem valesse por si. Quase condenada a jamais existir, sendo que urgia.

Ela não precisava de cuidados nem de um pai, ou coisa alguma. Mas, porque era real, lancinava-lhe o prolongado não cabê-la em si. Atormentado, o dantes hábil pintor seguia incapaz de coordenar traços tão claros. O riso da alma que nela enxergava. Miserável por não saber deixar fluir o que livremente era. Por ter sempre que recorrer a suas próprias cores para desenhar, autossuficientemente, o que, em verdade, escapava ao domínio de si. Por não confiar na essência entrementes de tudo que se explica por si só. Ou sequer conseguir enxergar, por detrás de uma bolha de medo, a fome tremenda que se lhe desmilinguia. Da fé indizível que em miragem lhe importunava descrer. Desafortunado.

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