Ela poderia cair e levantar. Quebrar maldições. Suportar os piores venenos. Perder sapatinhos de cristal. E tinha em seus olhos o encanto de fazer-se acompanhar, sob uma lagrimazinha que fosse, de príncipes, fadas, duendes e bichinhos da floresta, até mesmo sapos, que a cortejariam, ajudariam e aplaudiriam. Assim, admirada, amada, rica e bem novinha, seu final seria invariavelmente feliz.
Fechado o livro, porém, perdia-se-lhe a magia. Conquistada, a mulher restava invisível e esquecida como uma velha história, na sombra de dias escuros, longos e intermitentemente chuvosos. A vida é o ser que hiberna enquanto o calendário e o relógio assumem o controle do piloto automático. Num acende e desliga o sol 365 vezes por ano. Para sempre.
Ou até chegar o dia em que a última pétala da flor invariavelmente se cansa e cai no chão. Quando o humano frasco prenunciadamente murcha e é acolhido pela terra mais querida.
A menos que, na imensidão do antes disso, a mulher, rainha de si, saia do faz-de-conta e desperte um dia, ainda que centenária, da inerte torre do castelo. E, com a vida, pulse-lhe também a alegria mais despachada, a pintar, em sangue tinto suave, as formas livres e imperecíveis do envelhecido existir. Alheias às fidalguias do sucesso. Contempladoras do pôr-do-sol, e artesãs e caminhos próprios.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 12 de novembro de 2017
domingo, 5 de novembro de 2017
Coragem.
Talvez tenha sido porque não lhe seduziam mais os aplausos corteses da atenção alheia. Um dia, a equilibrista deixou o circo e decidiu seguir em slackline as batidas do seu coração, desfilando sua mesma linha tênue por um dos bairros residenciais da cidade. Sem equipamento de segurança.
Acompanhavam-lhe as expectativas próprias e próximas, e as memórias de quando um dia largou o convencional pela vida de ginasta. Da carreira artística que seguira à de ginasta. Os primeiros malabares, o quanto o próprio corpo a surpreendia, e como, antes de criar, era ela cria da mágica. O primeiro figurino brilhoso. Depois, o sopesado chamar compromissado do amor.
Trazia junto de si a vara. Sobretudo, a vara. Era o que a ligava à própria essência. A maneira residual de preservar o equilíbrio ali, na invisível jornada que agora trilhava, atravessando descalça por entre o telhado e o muro da casinha, ou indo e voltando de um emprego normalzinho, de sandalinha, despida de grandezas galantes. Seu coração seguia uma nova, posto que imperceptível, missão. Por isso, era grata. As missões só escolhem os mais fartos possuidores de vida. Aqueles que, por não temerem a morte, pegam confiado amor ao que podem tocar. Vara, cão-guia, ou aliança de casamento.
Acompanhavam-lhe as expectativas próprias e próximas, e as memórias de quando um dia largou o convencional pela vida de ginasta. Da carreira artística que seguira à de ginasta. Os primeiros malabares, o quanto o próprio corpo a surpreendia, e como, antes de criar, era ela cria da mágica. O primeiro figurino brilhoso. Depois, o sopesado chamar compromissado do amor.
Trazia junto de si a vara. Sobretudo, a vara. Era o que a ligava à própria essência. A maneira residual de preservar o equilíbrio ali, na invisível jornada que agora trilhava, atravessando descalça por entre o telhado e o muro da casinha, ou indo e voltando de um emprego normalzinho, de sandalinha, despida de grandezas galantes. Seu coração seguia uma nova, posto que imperceptível, missão. Por isso, era grata. As missões só escolhem os mais fartos possuidores de vida. Aqueles que, por não temerem a morte, pegam confiado amor ao que podem tocar. Vara, cão-guia, ou aliança de casamento.
Assinar:
Postagens (Atom)
Poema de Halloween.
Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato. Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...
-
Quando o meu pior medo pulou da caixa dos temores para o meio da rua era como se esta rua já nem fosse mais tão minha assim. Então, me...
-
Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato. Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...
-
Talvez eu tenha algo a dizer sobre o tempo que passa que ultrapasse as pequenas ganâncias que moram em mim e querem dominar o mundo. Sempre ...