domingo, 22 de janeiro de 2017

Telegrafados.

Aquele momento em que sabemos que não vamos mais ver quem já não víamos mesmo há algum tempo se faz sentir mais - bem mais - do que o pouco que se poderia prever.

É quando morrem as pequenas expectativas de reconhecer alguém numa multidão de estranhos. E de achar mais gordo, ou mais magro. Mais ou menos cabeludo. De reconhecer a nós mesmos ao sentir, no envelhecer alheio, nossa própria crescência de dias. É quando morre um olhar, um trejeito que buscaríamos reconhecer nos filhos, se houvesse filhos, quando um dia os víssemos. Ou um carinho de imensa doçura repassado silenciosa e solenemente a eles, os detentores da perpetuação da vida. Para quem, contudo, não passaríamos de desconhecidas sombras ao nos cruzarmos em um dia qualquer.

O amargor de tudo que desejamos que não tivesse acontecido. O agridoce das lembranças, mesmo as pequenas, de dias mais jovens, de preocupações que já não preocupam. De sorrisos fartos ou frugais. A lembrança do ter passado é a mesma do ter vivido. Situação-tempo-fato presente e concreto que um dia nos lapidará a todos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Cantiga de ninar.

Era noite - e a lua azul cafunava os cabelos da mulher, com brisa e vento, perdidos os olhos que dela derramavam brilho no mar. Não havia mesmo palavra a dizer.

Pairava a noite e, serena, a luz da lua revelava a silhueta branca de uma espuminha que as ondas traziam sabe-lá-daonde, sabe-lá-pra-quê. Como no coração, esperança que ia e vinha sem ter motivo. Ela não tinha alguém para amar.

Deitada na rede da varanda, a mulher esperava. Como uma reticência, era tudo que sabia fazer. Comemorando o desaniversário de algum amor inventável. Confidenciando às estrelas em sonhos o fim de uma eterna solidão. Feliz por ano menos poder dormir e acordar em azul mistério.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...