domingo, 23 de julho de 2017

Para o buraco negro.

As noites eram sempre calmas, fugido o sono, até enquanto os fantasmas não a vinham achincalhar. Do seu lado, um nu e desconhecido homem. A quem ela nunca tivera a pretensão de amar realmente.


Por dentro, sentia-se perdida.


Ainda mais do que antes.


Já era tarde quando o conhecera, e aquela cinza barba vanguardeava sabores fortes e estonteantes. Como gelo seco. Quando ela sorveu cada promessa, que do gelado copo descia ardendo em si, abraçou sem pensar tudo que não sabia. Depois veio o filho, a conta fixa no mercadinho, e os fantasmas. Pontuais. A interrogar-lhe nas noites tranquilas.


Eles queriam garantias. Seguros. Previdência privada. Eles mostravam a ela a solidão de não saber quem é o outro, para além de nós mesmos. E diminuiam-na, dada a fragilidade feminina da abnegação.


Então, ela explicava a si mesma cada escolha, cada passo. Pedia pacientemente desculpas por todos os erros, de um por um. Prometia à lua que haveria de mudar. Sempre calma, amena, sempre em pânico.

É que as noites, pacatas e tenebrosas, enchiam-lhe de pavor. De que um dia o mundo desconhecido ao lado acordasse de sobressalto e soprasse, sem avisos, o seu castelo de cartas. Ou que ele ruísse, rachando-lhe o chão. Ou que lhe tomasse o filho e pulassem juntos pela janela de andares do apartamento.

domingo, 16 de julho de 2017

Para não sofrer mais.

Quando a bailarina quebrou o pé, todas as cortinas despencaram e o teatro fechou as portas.

Precavidos, os pais da moça a levaram de volta para casa e recolheram todas as sapatilhas, colants e os dvd's de espetáculos clássicos. Era como se nada nunca tivesse existido.

Assim esperaram que ela se recuperasse. Montaram uma biblioteca com livros fabulosos. Bloquearam os principais sites de balé da rede local de internet. Fizeram festas e a apresentaram a rapazes bons. Por fim, plantaram um jardim com rosas, bougainvílleas e margaridas na janela do seu quarto.

Para tentar fazer passar o tempo, a moça parou de reclamar. Já não perguntava por seus apetrechos. E, enfim, começou a estudar o Direito e as leis.

Mas era quando o vento ritmicamente balançava as folhas do jardim. Ou quando, distraídos, seus dedos desenhavam cisnes negros no caderno da universidade, que ela se lembrava de quem realmente era.

Só que, então, já pesava quilos a mais. E seu recuperado pé poderia jamais reaver a leveza dos movimentos nunca esquecidos. Além do mais, o balé lhe traria de volta calos. E os teatros poderiam nunca mais lhe abir as portas tão solenemente cerradas.

Foi quando ensaiou uma pirueta, às escondidas, no seu quarto já sem espelhos ou barra. Que a mãe a viu e desesperou. O coração inflado pela desolação própria à dor alheia. Desejo de nunca ter sofrido como cruelmente se havia, no ver a filha sofrer, por ter-lhe forçado o abandono. Em raiva, desejo de ela ter sempre ter existido protegida, segura e discreta jurista, nunca exposta e livre bailarina.

Foi na finalização da desengonçada pirueta, ao inevitável sorriso brotado de dentro de si, que o relógio voltou a bater horas. Com sua dança, o mundo voltou a girar. E, porque ela vivia, à porta a mãe exclamava um iminente infarto.

domingo, 9 de julho de 2017

Shamar.

E não era a primeira vez que, em suspiro fundo, tudo que ela conseguia conceber é que Ele é. Mesmo que ela não fosse.

Dentro de si, compreendia: Ele é. E Sua presença é mais vital do que o ar ou o sangue, entendia o claro absurdo. Do reconhecer a própria pequenez, brotava-lhe o consolo, o renovo, respirava a vida.

Porque ele é, ela avalia de si mesma - já sem dor - a dessignificância. Sucumbindo reiterada à existência de um ser maior. Por amor à razão. Por adorar o Sentido, Senhor e Motivo.

Aquele era sempre um momento de libertário temor. Quando, da entrega de angústias, lhe aportava o alívio. À ansiedade, achegava-se sublime paz. E, por ter se despido de suas próprias e orgulhosas incertezas, ela recebia, pela graça, as mais indizíveis roupas brancas e eternas de costura perfeita.

domingo, 2 de julho de 2017

Sarcófago.

Foi porque lhe arrancaram os brios: um dia, o homem forte escolheu fechar os olhos e, desde então, passou a ser cego. A resmungar quem o guiasse em tão vasta e densa escuridão.

Era difícil esperar. Era difícil ser gentil sempre. Por isso, mais e mais ele se alheava entre as quatro paredes da mente, onde só o iluminavam os sonhos que um dia foram seus.

Os amigos deram pela sua falta e foram visitá-lo. Mas a tristeza era tanta por vê-lo cabronho e sem tino que resolveram compactuar com a escuridão. Não corresse o risco de que, enxergando, percebesse que os sonhos velhos já não lhe serviam mais.

Embargados de saudade, eles já não conseguiam enxergar o homem ou sentir qualquer amizade pelo que se tornara. Mas, por lealdade, estiravam lona preta por detrás das janelas fechadas, e pregavam fita isolante nos escuros óculos do cego.

Ainda uma vez, e como todos os dias, amanhecia lá fora. Azul de esperanças, o céu buscava brechinhas por entre frestas e pálpebras para atingir aquele e qualquer coração. Trazia o calor das certezas e sonhos novinhos em folha. Além de canetas para quem, querendo, se dispusesse a aprender a ler e escrever o idioma das epifanias.

Mas o homem em seu orgulho insistia em remoer lástimas, em renunciar o frescor da vida, tateando em si a face de uma múmia.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...