sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"Espólio"


Eu tinha mandado um e-mail de agradecimento, mas como ele voltou pra minha caixa postal...

Agradeço aqui pelo presente - um livro premiado do poeta Rubervam du Nascimento (e autografado!) :D

Em Teresina, onde muita gente boa mantém seus escritos nos fundos das gavetas, é muito bom ler os autores com gabarito que estão seguindo na poesia. Os poemas são irretocáveis, têm métrica e simétrica. MUITO OBRIGADA pelo livro, pela atenção, pelo "Atente!". E viva a poesia, porque falta alma aqui e no mundo!!!



L.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Criação I.

Ela fixava o papel como quem tinha o que dizer, mas esperando que ele o fizesse. Desviava o olhar, como quando mentindo. E depois voltava, inexorável, para onde antes - interpretando saber, mas escondendo para trás de si o sentimento indecifrável.

O papel esperava. Não porque quisesse; era sua missão. A paciência é virtude que vence os maus hábitos por simples teima. Impessoal e despassional.

O sentimento descia pelos olhos, via o papel, e voltava. Não queria estar nu.

Até que, por pura curiosidade, colocando um pé e depois o outro, a mão, e enfim molhando o cabelo, deixou-se nadar por inteiro na palidez dos versos. Descoberto.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Sufrágio.



Foi a janela que trouxe o vento que ao invés de ar puro fez-se resfriado. Em sonoros espirros. Então a princesa, sempre presa na mais alta torre do castelo-coração de alguém, irremediavelmente soube que havia um mundo lá fora capaz de contagiar os sãos. Para desespero alheio.

Já não queria as rosas do jardim. Exigia que lhe buscassem mudas d'além mares, e depois bichos, por fim pássaros. Aos quais se agarraria em minguante lua qualquer, livrando-os da gaiola. E consentiria que a guiassem aérea por onde sabiam voar: em rumo de casa.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Status quo ante.


O mendigo que mora perto da minha casa revira o lixo. Ele tem fome. Acho estranho escutar a sua fala. A droga muda um tanto e outro da voz, até deformar o inteiro. Ele mistura alucinações com realidade em seus relatos, sempre cheios de muito rancor.

O mendigo que mora perto da minha casa se junta com o mendigo que vigia carros na calçada do meu trabalho. E com o mendigo que pede nos sinais de trânsito da avenida que se cruza com a que sobe para o Morro da Esperança de todo dia. São prováveis rivais entre si.

Juntos, eles reviram a minha alma.

Ela mistura ilusão e realidade, com pensamentos tão cheios de pavor. Eles andam sempre com facas. Eu tenho medo dos bandidos. Os mendigos sentem fome. Os bandidos extorquem dinheiro. Os mendigos podem ser bandidos também.

Embriagados por uma dose e outra de droga, a que vem de dentro. Pobres de tudo. Tanto eles quanto o meu espírito – quando, por covardia, esquecer, um instante apenas, que ali e aqui bate um coração.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Sorine.



E foi na quina de alguma pedra dessas que nascem entrecaminhos: ele perdeu a fé. Mas ainda existia, e o mundo era composto da mesma matéria, só não havia o porquê.

O vento quente e empoeirado cobria as raladuras da queda. E o rapaz engolia a sede, já que não cria em água ou cálice. O caminho, de sempre o mesmo, desdobrava-se-lhe em cansaço por causa do calor do dia, na cabeça o sol de rachar.

A atmosfera agora tinha um peso esmagador. O ar que entrava parecia ser o mesmo que saía do nariz, pois nada possivelmente seria novo, tudo revolvia de si para si em vômito, asmático-ruminante.

Os problemas resolviam as soluções, apagando os pontos finais; que viravam reticências, vírgulas e travessões... Num roteiro censuravelmente trágico.

Foi quando ele começou a ver graça em coisinhas pequenas daqui e dali, como frestas de luz. Inusitadamente. E a vida era então o cuidado de ler um livro que nos entende bem.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...