domingo, 27 de novembro de 2016

Alfazema.

A mais bela mão que segure o tempo em um pouco transforma-se no tremor ressequido de um afã. Belo sim, porque um dia o foi. E a beleza é perfume verdadeiro, que fica mesmo quando se vai.

Finda a correria, o semblante é feliz se, dada a largada, já o era. São iguais sempre as duas faces da mudada moeda. O velho brinquedo é novo sempre que a criança descobre de brincar. Ainda quando por imaginação, se adiantados os anos.

Aos menos é o que hoje, quando recebeu flores, a jovem mão envelhecida ouviu das sábias pétalas que anteviu caírem, entre sussurros e enternecidos gemidos. Nua de segredos. Evidente por si. A beleza era, então, conquista a qual nunca alcançam os que se regam do medo de um dia murchar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Penada.

O desejo é um monstro alucinado de fome que, um dia, abrindo a boca para me engolir, explodiu. Mas a pontinha dos meus pés, porque foi quase deglutida, desde então se recusa a pisar no razoável chão. Assim, por sã a minha mente, fantasmagueio.

domingo, 13 de novembro de 2016

Estaca.

O meu pai é a linha que me costura os pés ao chão para que eu não desista de voar: ele mantém a lei da gravidade. O meu pai sempre foi - e será, sempre - quando encontro dentro de mim os traços retos que me organizam os sentidos mais contundentes. Arquivo e guardo o que for cabível. E que se lance fora o pó daquilo que já não tiver utilidade.

Ele tem gosto de feijão. Como mágica, cresce cada dia mais dentro de mim, quando pelo raciocínio e lógica realizo um sonho. Como teima, contesta todos os dias as minhas vontades, para me treinar a força com que as devo realmente querer ou não.

O meu pai fala mais alto do que o mundo inteiro sem uma única palavra.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Enquanto.

Ele a amava como se espera uma fruta amadurecer no pé. Porque não estavam prontos. Num mundo em pó solúvel instantâneo.

Tinha dia que chovia, dia que fazia sol. Sobretudo, tinham dias. Com vinte e quatro horas, de sessenta minutos cada. E se ele a esperava contando as gotas e os fios de sol, contando os segundos, era porque tinha certeza no coração.

Por amor é que regava as plantas do quintal, como se fosse obrigação diária. Ele - que sempre estava com pressa demais. Parava ali seus instantes melhores, sob um céu laranja de amores certos e temporãos.

Apaixonado.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Marra.

Talvez eu tenha algo a dizer sobre o tempo que passa que ultrapasse as pequenas ganâncias que moram em mim e querem dominar o mundo. Sempre inatingíveis.

Talvez eu fale ao tempo que já não me incomoda que ele siga passando tanto assim. Que não me incomoda que carregue para longe os amigos - seja para outras paisagens, ou para além da vida. Que eu estou sentada e bem confortável vendo as ondas do mar. Quebrando.

Talvez eu diga o quanto amei voar rasante de asa delta por emoções que desafiaram a minha paz. Ou ler, comer, vestir e cantar o que havia de mais divertido na modinha. E que já não me fazem falta as extravagâncias irreverentes, ou o mais novo caos político extenuante dos trending topics.

Estou bem. Sóbria. De resto, guardei minha única e própria cor. Se os anos não me assustam, é porque já não há sonho algum que seja grande o suficiente para não caber em mim. E, no dia em que eu não mais for, posto vazia a plateia, nem que seja a cortina que encerrar o ato sorrirá ao meu fim.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...