sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Carteiro.

De vez em quando, o vento a afagava. De vez em quando. E era diferente do simplesmente encontrar-lhe o rosto.

Quando o vento a afagava, vinha a pedido de alguém. Invariavelmente doce. Enamorado da brisa. E sempre trazia um recado: que ela não escutava. Mas entendia.

E, naquele dia, aconteceu dele espantar uma lágrima. E fios de medo que maquinavam entremear-lhe os pés, atrapalhando o caminho. Foi quase um espanto, ela viu a temerosa bruma do que não foi passar. Olhou para cima, e a copa das árvores eram galhos aos risinhos de adorável ironia, balançando. Divertia-lhes que os grandes quase medos agora restassem poeirinha de sapato, entregues ao chão marrom. As folhas batiam palmas.

Em volta da praça, no meio da cidade, no alegre coração. Tudo era barulho e paz.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Carta de demissão.

Terminasse de limpar as gavetas, ele iria embora. Por não haver motivos para ficar. Da mesma forma como permaneceria. Não houvesse motivos para partir.

Era eterna a busca gravitacional por um eixo.

Abismados com a situação, chefe e colegas se despediam.

Da estrada, o mais eram as contrarregras da vida desmontando e remontando um novo cenário. Para o mesmo ato.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

À grande causa.


Ela estava ali, é lógico. Onde mais poderia estar? A jejuadora protestava sem indignação, fechando os olhos e sumindo, em público. Para lugar nenhum. Desaparecia sempre, aos pouquinhos. Num espetáculo.

Sim. Porque as pessoas, que paravam para a ver acontecer, tomavam aquilo por número de mágica: a mulher que desexistia por um motivo algum. E, desligados das próprias vidas, burburavam aos cochichinhos.

Eram olhos. Dedos apontes. Estonteada pelo silêncio dentro de si, observava. Quando o fim finalmente acabasse, todas as testemunhas culpariam um outro alguém. Na verdade, ela sabia, ninguém podia mudar realidades que ela também não poderia. Mas, porque desistira, sua fragilidade exposta alcançaria fama e notoriedade que a redimissem. E os piedosos que dela aproximavam comida nada mais queriam que um trisco dos holofotes. Jogo de luzes que se voltava inteiro para ela a cada recusa.

Já não era abnegação.

A jejuadora obedecia, cegamente, a ilógica das coisas, por insanidade. Seria tragada como os demais. Do circo de horrores. Só que literalmente.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...