sábado, 22 de outubro de 2016

Maldades.

Ela chegou. Largou a bolsa e as chaves na mesa. E terminou de percorrer o corredor enquanto tirava os sapatos. Em alívio, mas agora desesperava.

É que, chegando ao quarto, pelo espelho, viu uma barata. Sentiu-se vista pela barata. E, porque a vida já lhe era suficientemente difícil, chorou. E não lhe tirem a razão.

Ela, que tanto trabalhava. E cansava. E tentava arrumar a própria bagunça todos os dias. Que havia velado o final de semana aos estudos, não descansando: ela não precisava. Não agora. Não ali. Nem daquele jeito.

Tinha asas.

Num ápice de desrespeito, a barata alada invadia o banheiro e pousava em sua escova de dentes. Lambia o tubo de pasta.

A mulher virou tapete de chão. Inerte. Impotente. Seu semblante era duro e frio, quase a morte. A barata a tripudiava absurdamente.

Foi então, e sempre chega o depois. Que, por não conseguir dormir, ela acordou. Logo, tudo o mais sufocou com cheiro de Baygon pela casa inteira, e desde-em-diante era ela quem zombava. E foi o ponto final.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ventos Uivantes.

Não sei quando. Um dia, Catherine olhou para um céu de cores e desejou sinceramente ser quem não era. Inabalável.

E fingiu não-ser com tanto ardor que magoou tudo a que pertencia.

Heatcliff, o dono do seu coração, urrou e esbravejou qual fera a ponto de nunca conseguir ser feliz, arrastando na imensidão de tristeza todos, exorcizando para sempre a luz do sol, em continuado absurdo.

Percebendo-se morta, ela voltou a si já inexoravelmente tarde.

A noite era fria, pesada e nua. Como só imaginamos lendo os piores livros.

Nunca mais, ou antes, esperança alguma. Neve por dentro dos ossos e a cerrar-lhe os dentes, e a enrijecer os músculos de quem já não existia. A fantasma batia desesperada na janela do vilão. Eram batidas mais fortes que o ódio, e o hálito da morte lhe era mais doce do que tudo, de tão áspero o coração.

Por ter escolhido o escuro, por ter destruído em si o entorno, por já não saber ou querer consertar. E por ser tão cruel. Outrora, lacerado obstinadamente por seu único motivo. Então, embriagado de amor e solidão.

Ele ainda preferiria mil vezes viver a morte a um cemitério.

domingo, 2 de outubro de 2016

Timing.

Ela acordou de sobressalto, entrou na roupa, sorveu café com chiclete de menta e saiu. Ainda assim, já era outubro. Tarde demais para começar o que quer que fosse. Continuavam tic tac os ponteiros que mais um pouco e trariam o ônibus, as pessoas e o movimento. Fechava os olhos e sentia o chão ficando longe longe longe. Igual a tudo que não passava de pensamento. Noventa dias para tentar de novo.

O presente continuava.

Ao redor, por entre narizes e bocas, o ar abastecia a vida. Não a que queria, mas a que é. Desobstante, por detrás dos óculos, a matéria premente futurava aspirações, enraizada. Como a fé de quem sente a ponta da trança.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...