domingo, 27 de março de 2016

Paixão.

Era Páscoa, e o moço da Galiléia andava pelas bocas que resmungavam o preço do peixe e do chocolate - falantes mausoléus de uma festa sem lágrimas. E incomodava.

Que houvesse sofrido. Existido. Que fosse mesmo santo, abnegado e o próprio amor. Perturbava nele crer ou descrer. Com pequenas maldades, as pessoas da ruazinha enforcavam o Judas. Ou pelo desejo quase sentido de honestidade e austera justiça, sob a prerrogativa de tê-lo paramentado como os corruptos da ocasião, réus julgados e condenados informalmente à pena máxima pelos populares.

E assim, enterrando-se o homem que só sabia perdoar, festejavam aqueles que de sacrifícios compassivos só queriam esquecer - enquanto o ano seguia, umbiguesmado, aos reclamos da política e do futebol.

terça-feira, 22 de março de 2016

Agnóstico.

Muitas foram as escolhas que o trouxeram ali para onde estava: naquele momento. Quando em criança, a paixão pelo giz-de-cera. Agonia ao ver um papel em branco. Depois, o prazer de descascar a ponta do lápis com estilete. Por fim, a magia do misturar das tintas, criando cores inéditas em óleo. O fascínio pelo céu que muda, pelas estações do ano. Sobretudo, a crença de poder sempre traduzir as emoções em pinceladas estudadas e por ele mesmo calculadas.

Naquele exato momento, no entanto, a tela diante de si restava inflexível, imutável, branca e muda. Todas as possíveis cores em sua paleta eram falíveis. E ele simplesmente não poderia.

Ainda que misturasse o azul e o laranja, imitando o entardecer do céu, como as pessoas provariam a amplidão de pressentir o tempo pelo cheiro? E, se desenhasse a menina de vestido branco que. em sua mente, caminhava premente por uma cidadezinha etérea, como entenderiam quão absurdamente transparentes eram seus olhos espelhados?

Na galeria, o contraste entre quadros de flores vivas e de natureza morta. Gravuras que retratavam amores e dissabores. Ou deuses em momentos lascivos e humanos. Onde caber a menininha de branco estilhaçante?

Eventualmente, ele tentou pintá-la. Começando pelos olhos. Mas estes logo refletiram-no duro e agonizante. Numa tela remanescente, inexpressiva e espaçosa demais. Do rosto do pintor, caiu uma lágrima. A menina estava ali, presa em sua mente, e ele não conseguia resgatá-la. Tão pequena. Frágil. Como sem ter quem valesse por si. Quase condenada a jamais existir, sendo que urgia.

Ela não precisava de cuidados nem de um pai, ou coisa alguma. Mas, porque era real, lancinava-lhe o prolongado não cabê-la em si. Atormentado, o dantes hábil pintor seguia incapaz de coordenar traços tão claros. O riso da alma que nela enxergava. Miserável por não saber deixar fluir o que livremente era. Por ter sempre que recorrer a suas próprias cores para desenhar, autossuficientemente, o que, em verdade, escapava ao domínio de si. Por não confiar na essência entrementes de tudo que se explica por si só. Ou sequer conseguir enxergar, por detrás de uma bolha de medo, a fome tremenda que se lhe desmilinguia. Da fé indizível que em miragem lhe importunava descrer. Desafortunado.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Dedos (des)apontados.

Um dia, a alegria dos lábios que se encontravam virou o conforto de um café quentinho. Nas manhãs cotidianas certas de incertezas. E os carinhos ao pé do ouvido viraram a força motriz do bom ânimo. Os abraços eram promessas e os sorrisos, bombons para as almas.

Que caminhavam confiadamente unidas pelo fio mais fino e tênue. Não fossem soltas e separadas para os lados. Nem amarradas forte demais a ponto de quebrar.

Lado a lado, a passos simétricos, os anos seguiam.

Até quando, do desfiadozinho de um ciúme escondido, a linha rompeu barragens de águas pesadas. Aí, então, só para se defender, os dedos das mãos dadas acusadoramente se desentrelaçaram. Tristes, em riste.

domingo, 6 de março de 2016

Curare.

A dor - sabia o faquir - vinha de um ponto único, um espinho cravado no entorno da alma. Não de todas as desgraças literalmente juntas, como os pregos da sua cama.

Ali, reunidos, eles não eram nada. É preciso certa dose de calmaria despretensiosa e de coragem ruminada para sentir dor. O faquir não saberia doar-se a um único machucado, por isso tinha a vida que podia suportar. Passava seus dias sob a sombra resistente da resignação. Não ousasse ele ter um amor. Um sonho. Ou deixar-se seduzir por qualquer expectativa específica. E o fogo não o queimaria. Nem jamais lhe perturbaria o cravar das lanças.

Na rua, a viver do que sobejava dos bolsos dos passantes, o homem que lambia espadas subvertia a nevralgia a um ponto ao qual os corações doloridos que desavisadamente o encontravam desajariam ardentemente alcançar. Mas isso antes de desesquecerem em cada lágrima a réstia indelével do amar...

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...