domingo, 12 de novembro de 2017

Velha Adormecida.

Ela poderia cair e levantar. Quebrar maldições. Suportar os piores venenos. Perder sapatinhos de cristal. E tinha em seus olhos o encanto de fazer-se acompanhar, sob uma lagrimazinha que fosse, de príncipes, fadas, duendes e bichinhos da floresta, até mesmo sapos, que a cortejariam, ajudariam e aplaudiriam. Assim, admirada, amada, rica e bem novinha, seu final seria invariavelmente feliz.

Fechado o livro, porém, perdia-se-lhe a magia. Conquistada, a mulher restava invisível e esquecida como uma velha história, na sombra de dias escuros, longos e intermitentemente chuvosos. A vida é o ser que hiberna enquanto o calendário e o relógio assumem o controle do piloto automático. Num acende e desliga o sol 365 vezes por ano. Para sempre.

Ou até chegar o dia em que a última pétala da flor invariavelmente se cansa e cai no chão. Quando o humano frasco prenunciadamente murcha e é acolhido pela terra mais querida.

A menos que, na imensidão do antes disso, a mulher, rainha de si, saia do faz-de-conta e desperte um dia, ainda que centenária, da inerte torre do castelo. E, com a vida, pulse-lhe também a alegria mais despachada, a pintar, em sangue tinto suave, as formas livres e imperecíveis do envelhecido existir. Alheias às fidalguias do sucesso. Contempladoras do pôr-do-sol, e artesãs e caminhos próprios.

domingo, 5 de novembro de 2017

Coragem.

Talvez tenha sido porque não lhe seduziam mais os aplausos corteses da atenção alheia. Um dia, a equilibrista deixou o circo e decidiu seguir em slackline as batidas do seu coração, desfilando sua mesma linha tênue por um dos bairros residenciais da cidade. Sem equipamento de segurança.

Acompanhavam-lhe as expectativas próprias e próximas, e as memórias de quando um dia largou o convencional pela vida de ginasta. Da carreira artística que seguira à de ginasta. Os primeiros malabares, o quanto o próprio corpo a surpreendia, e como, antes de criar, era ela cria da mágica. O primeiro figurino brilhoso. Depois, o sopesado chamar compromissado do amor.

Trazia junto de si a vara. Sobretudo, a vara. Era o que a ligava à própria essência. A maneira residual de preservar o equilíbrio ali, na invisível jornada que agora trilhava, atravessando descalça por entre o telhado e o muro da casinha, ou indo e voltando de um emprego normalzinho, de sandalinha, despida de grandezas galantes. Seu coração seguia uma nova, posto que imperceptível, missão. Por isso, era grata. As missões só escolhem os mais fartos possuidores de vida. Aqueles que, por não temerem a morte, pegam confiado amor ao que podem tocar. Vara, cão-guia, ou aliança de casamento.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Conto de Trancoso II.

No dia em que ela acordou sem poesia, o cinza espalhou-se pelo quarto, a começar pela fresta por debaixo da porta. No buraco da chave. Por fim, abriu o trinco e entrou.

Foi quando, ao levantar do quarto para o banheiro, a mulher refletiu absurdamente o grito surdo de Edvard Munch no espelho das manhãs. Que se estilhaçou em cacos, que se precipitaram suicidamente ao chão, perto da privada.

E assim se explicam surrealmente os quantos anos de azar que a entregavam às segundas-feiras inevitáveis, ordinariamente cinzentas e literais.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Amém!

A distância
é a prova de amor última
de quem um dia não quis amar menos
e a maior prova de respeito
de quem no fundo nunca amou.

domingo, 1 de outubro de 2017

Além, muito aquém.

Setembro e suas manhãs passaram varrendo a calçada e cada esperança de um coração. Qual balões, uma a uma, voaram bufadas pelo vapor quente. Restou o chão, deserto e árido, que já estava lá. Ainda assim, tinha florescido.

E o que se ressente é por pura saudade. Que, do mais, já tapei a boca para nem mesmo falar.

Sem setembro, entardece em mim. No fim da linha, restamos sempre um só. Irmanados. De vez em quando, isso é tudo. No ponto do casear dormente do amor, em que pese o desalinhavado.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Caminho de sol.

Uma tempestade sempre acaba aos pouquinhos.
Primeiro, cessam os trovões. Depois, os relâmpagos. E, então, o céu vermelho dá lugar a uma chuva serena, amena. Que poderia bem ser uma cantiga de ninar, não estivesse ainda presente o desacalantador cheiro da truculência.
Finda a tempestade, reconstroem-se as cidades. Recompõem-se as pessoas. Recolhem-se os galhos, reparam-se os postes de energia elétrica.
Depois da tempestade, existimos sempre. Aquietado o coração.
Pois foi quando o ato encerrou. Mas não mudaram o cenário. Cortinas reabertas.
Perdida, no centro, a atriz já não mais podia reconhecer a personagem de que se cercara. Tudo o que saberia fazer seria repetir o primeiro ato, repleto de trovões e relâmpagos, negando a presente paz. Presa em repetido lapso temporal. Pássara numa gaiola de horrores.
Na fuga, ao despir-se da alheia persona, só lhe restava a si mesma: nua, na frente de todos. Exposta como vedete em palco de cabaré. Crua em carne, sangue, ossos, e ferida... viva.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Cadeira de espaguete.

Era de tardezinha, e a mulher levava a cadeira para a calçada, movimentando a rua, para ver as coisas que queria ver. À volta, vizinhos faziam o mesmo. O sol pintava-se de cores cada vez mais escuras. Em breve, seria breu. E o que mais haveria seriam estrelas de luz ensandecida a ludibriar os tolos que se deixassem persuadir. E quantas promessas descabidas os faria jurar, as quais só a sensatez da alvorada poderia desmentir.

O movimento era igual. Mas tinha dias que a mulher via casais enamorados. Em outros, pessoas com muita idade a respirar mais ar ainda. Tinha dias que via saquinhos de biscoito a voar, carregados pelo vento quente que nos levará a todos. Ou o vira-lata. Tão desamparado e sorridente como o fundinho da alma. Tinha dias que ela secretamente espionava outras mulheres como ela mesma. Nestes, era quase sempre um assombro enxergar-se tão literal.

E era bom ser casa. Calçada por onde alguém pudesse entrar, sair, sentar e ser. Mas é que no momento que as cores fugiam do céu, entregando-o aos deslumbres de um brilho sem luz, um abandono absurdo a deixava com o juízo abarrotado da solidão mais farta.

domingo, 27 de agosto de 2017

Telefone vermelho.

Separados pela distância, os amigos caminhavam sempre juntos. Que o existir, por diverso que fosse, é matéria que cola almas irmanadas como um ímã. Um amigo é como um irmão a quem não se xinga. Editados os momentos bons. Recortados e colados nas paredes interiores equilibristicamente sólitas. O para sempre seria sinônimo puro para a temporização da amizade, sempre tão jovem na mente.

Foi quando naquela manhã - há quanto tempo! - um amigo não reconheceu a voz do outro pelo telefone.

Desde então, dos dessintonizados fios, o que escorre é uma solidão súbita, gelada e animosina, ponte/ilhada como se por agulhas. Ou flepas. Ou farpas de sanguezinho nuclearmente endurecido a trespassar as dores da remoto-obliteração.

Graham sequer inventaria o telefone se não tivesse para quem ligar.

sábado, 12 de agosto de 2017

Devaneio.

Quando as curvas da colina acabaram e ela finalmente chegaria à ponta do arco-íris, o tapete colorido estendido debaixo de si sumiu. Sendo que todos os outros colegas, tal como os imaginava, já haviam conseguido alcançar as nuvens, festejando com buzinas e dancinhas - que a essa altura pareciam ridículas. Não era inveja.

Até então, havia sido invariavelmente complacente. Com o inatingível das estrelas. Com as paisagens do Windows. Com as crianças e os animais. Mantivera a crença de que o que não fosse belo haveria de tornar-se alegre, sendo questão de ligar a trilha sonora certa, escolher a melhor luz para fotograr, ou editar o vídeo.

No chão de restos, garganta seca, olhos inchados, tudo parecia preto e branco. Lojas, capôs de carro, outdoors. E o homem que a esperava, estendendo-lhe o coração. E o problema de olhar para o céu ainda mais uma vez seria desperceber a única cor do mundo real ali, diante de si.

domingo, 23 de julho de 2017

Para o buraco negro.

As noites eram sempre calmas, fugido o sono, até enquanto os fantasmas não a vinham achincalhar. Do seu lado, um nu e desconhecido homem. A quem ela nunca tivera a pretensão de amar realmente.


Por dentro, sentia-se perdida.


Ainda mais do que antes.


Já era tarde quando o conhecera, e aquela cinza barba vanguardeava sabores fortes e estonteantes. Como gelo seco. Quando ela sorveu cada promessa, que do gelado copo descia ardendo em si, abraçou sem pensar tudo que não sabia. Depois veio o filho, a conta fixa no mercadinho, e os fantasmas. Pontuais. A interrogar-lhe nas noites tranquilas.


Eles queriam garantias. Seguros. Previdência privada. Eles mostravam a ela a solidão de não saber quem é o outro, para além de nós mesmos. E diminuiam-na, dada a fragilidade feminina da abnegação.


Então, ela explicava a si mesma cada escolha, cada passo. Pedia pacientemente desculpas por todos os erros, de um por um. Prometia à lua que haveria de mudar. Sempre calma, amena, sempre em pânico.

É que as noites, pacatas e tenebrosas, enchiam-lhe de pavor. De que um dia o mundo desconhecido ao lado acordasse de sobressalto e soprasse, sem avisos, o seu castelo de cartas. Ou que ele ruísse, rachando-lhe o chão. Ou que lhe tomasse o filho e pulassem juntos pela janela de andares do apartamento.

domingo, 16 de julho de 2017

Para não sofrer mais.

Quando a bailarina quebrou o pé, todas as cortinas despencaram e o teatro fechou as portas.

Precavidos, os pais da moça a levaram de volta para casa e recolheram todas as sapatilhas, colants e os dvd's de espetáculos clássicos. Era como se nada nunca tivesse existido.

Assim esperaram que ela se recuperasse. Montaram uma biblioteca com livros fabulosos. Bloquearam os principais sites de balé da rede local de internet. Fizeram festas e a apresentaram a rapazes bons. Por fim, plantaram um jardim com rosas, bougainvílleas e margaridas na janela do seu quarto.

Para tentar fazer passar o tempo, a moça parou de reclamar. Já não perguntava por seus apetrechos. E, enfim, começou a estudar o Direito e as leis.

Mas era quando o vento ritmicamente balançava as folhas do jardim. Ou quando, distraídos, seus dedos desenhavam cisnes negros no caderno da universidade, que ela se lembrava de quem realmente era.

Só que, então, já pesava quilos a mais. E seu recuperado pé poderia jamais reaver a leveza dos movimentos nunca esquecidos. Além do mais, o balé lhe traria de volta calos. E os teatros poderiam nunca mais lhe abir as portas tão solenemente cerradas.

Foi quando ensaiou uma pirueta, às escondidas, no seu quarto já sem espelhos ou barra. Que a mãe a viu e desesperou. O coração inflado pela desolação própria à dor alheia. Desejo de nunca ter sofrido como cruelmente se havia, no ver a filha sofrer, por ter-lhe forçado o abandono. Em raiva, desejo de ela ter sempre ter existido protegida, segura e discreta jurista, nunca exposta e livre bailarina.

Foi na finalização da desengonçada pirueta, ao inevitável sorriso brotado de dentro de si, que o relógio voltou a bater horas. Com sua dança, o mundo voltou a girar. E, porque ela vivia, à porta a mãe exclamava um iminente infarto.

domingo, 9 de julho de 2017

Shamar.

E não era a primeira vez que, em suspiro fundo, tudo que ela conseguia conceber é que Ele é. Mesmo que ela não fosse.

Dentro de si, compreendia: Ele é. E Sua presença é mais vital do que o ar ou o sangue, entendia o claro absurdo. Do reconhecer a própria pequenez, brotava-lhe o consolo, o renovo, respirava a vida.

Porque ele é, ela avalia de si mesma - já sem dor - a dessignificância. Sucumbindo reiterada à existência de um ser maior. Por amor à razão. Por adorar o Sentido, Senhor e Motivo.

Aquele era sempre um momento de libertário temor. Quando, da entrega de angústias, lhe aportava o alívio. À ansiedade, achegava-se sublime paz. E, por ter se despido de suas próprias e orgulhosas incertezas, ela recebia, pela graça, as mais indizíveis roupas brancas e eternas de costura perfeita.

domingo, 2 de julho de 2017

Sarcófago.

Foi porque lhe arrancaram os brios: um dia, o homem forte escolheu fechar os olhos e, desde então, passou a ser cego. A resmungar quem o guiasse em tão vasta e densa escuridão.

Era difícil esperar. Era difícil ser gentil sempre. Por isso, mais e mais ele se alheava entre as quatro paredes da mente, onde só o iluminavam os sonhos que um dia foram seus.

Os amigos deram pela sua falta e foram visitá-lo. Mas a tristeza era tanta por vê-lo cabronho e sem tino que resolveram compactuar com a escuridão. Não corresse o risco de que, enxergando, percebesse que os sonhos velhos já não lhe serviam mais.

Embargados de saudade, eles já não conseguiam enxergar o homem ou sentir qualquer amizade pelo que se tornara. Mas, por lealdade, estiravam lona preta por detrás das janelas fechadas, e pregavam fita isolante nos escuros óculos do cego.

Ainda uma vez, e como todos os dias, amanhecia lá fora. Azul de esperanças, o céu buscava brechinhas por entre frestas e pálpebras para atingir aquele e qualquer coração. Trazia o calor das certezas e sonhos novinhos em folha. Além de canetas para quem, querendo, se dispusesse a aprender a ler e escrever o idioma das epifanias.

Mas o homem em seu orgulho insistia em remoer lástimas, em renunciar o frescor da vida, tateando em si a face de uma múmia.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Felicidade subterrânea.

Carrego uma dor, e ela me carrega.
Em parte, isso é tudo que há em mim.

Carrego uma dor, ela da vida se encarrega.
Sem seu tanto, sorrir seria cuspir solidão.

A dor me ampara e acalma minhas lágrimas.
Ela mistura amor e aflição.
A dor me ajuda porque sou humana,
capaz de dançar no amargar do refrão.

domingo, 23 de abril de 2017

Conto de Trancoso I.

Era de partir o coração que a aurora (desapaixonada) não aparecesse ali para desfazer tamanho mal-entendido. Talvez porque não fosse um mal-entendido. O barquinho bêbado e trôpego sairia em missão de busca e resgate do seu grande amor mesmo que fosse tarde, todos sabiam. Queimavam-lhe, densas e escuras, as raivosas ondas do mar. Doíam mais que águas-vivas.

O barquinho trôpego e louco deixava-se bolar pelas ondas de soda cáustica. Arranhando-se nas pedras e cascalhos, até perder a esperança. Atingido pelos relâmpagos da tempestade. Eram grossas, pesadas e amargas as balas de gota que o sacudiam, redemoinhas.

E até amanheceria. Só que, daquele barquinho, não restaria mais nada. Não em sendo ele assim como era. Suicida.

Era de doer. De partir o coração. Que o barquinho se tivesse deixado estar tão aturdido, rouco, louco e remexido.

Inexorável, irredutível.

E morto.


sábado, 22 de abril de 2017

Como sempre.

Fora longo o dia e tortuosas as estradas pelas quais teve de percorrer, já muito tarde, de volta para casa. Vazia. Mas, ainda assim, uma casa. Um lugar que, qualquer dia desses, bem se poderia encher de pertences. Quando o fracasso bateu à porta. Ele costumava fazer isso todas as noites.


Como antes, o homem não teria com que fazer barricadas para impedi-lo de entrar. Os vizinhos não veriam motivo de preocupação na visita contumaz de um velho conhecido a um pobre desguarnecido. Os legalistas achariam justíssima a intervenção, e os generosos buscariam enxergar algum mérito por entre os defeitos do intruso indesejado.

O homem estava encurralado pelo fracasso e pelas riquezas que não conseguira acumular. E muito urravam, esbravejavam, caçoavam. Mas ele sabia que não tinha o que temer. Ele era feito de tijolos, e resistiria ao sopro do Lobo Mau.

domingo, 2 de abril de 2017

Bituca.

Um dia, o palhaço olhou para seu nariz vermelho e não viu graça. Até porque, com os anos, já ninguém mais lhe notava o encanto mesmo. Além disso, estava velho e cansado. Enquanto surgiam, corriqueiramente, caras novas e lavadas fazendo comédia em pé. Um artista deve saber o clímax da própria vida para, a partir de então, bater em retirada. Haverá, quem sabe, algum segredo consolador em seguir e viver à sombra dos refletores.

Por detrás da cortina, ele espiava a plateia embeber-se de tramas alheias. Com as mãos, apertava o próprio coração. Para que coubesse na mala - já repleta de lenços descoloridos, uma velha pancake esfarinhada e truques de lógica. E viagens tantas. Que, ainda assim, nada somavam perto das jornadas que vivera no picadeiro, transcendentalmente, espetáculo após espetáculo.

O palhaço gastara todas as suas cores a colorir noites. Restavam-lhe o fim e a esperança de que, por algum resquício de gratidão, a vigília de agora o enluarasse a ele. Tornando-o etéreo, ainda que monocromático. Reduzido à essência que seduz e ilumina os sonhos dos que hão de vir.

domingo, 26 de março de 2017

Ao silêncio. (Ou: Palavras que descansem como o seu Francisco.)

Um avô é um novelo difícil da gente desenrolar. É como a raiz por trás de um grande motivo, ao qual chamemos vida. Um avô não diz nada sobre quem você é. Mas explica com detalhes por que não fomos o que não somos.

Millôr dizia que viver é escrever sem rascunhos, mas a verdade é que a vida é uma história que se escreve a muitas e muitas mãos. As de meus avós, de meus pais, de minha sobrinha pequenininha… Em nossas linhas, contrapontos que se cruzam, fazendo tudo ter sentido.

Como, por trás da minha fala sem sotaque, a história do meu avô. Um sertanejo que, ainda hoje, foi traído pela morte - mas que sobreviveu à seca de 1958, descendo a serra que liga o Ceará ao Piauí com os filhos, pouca farinha, um porquinho magro, muita disposição e vontade.

Talvez daí venha essa certeza de que só o sol me conhece e entende bem. Talvez por isso a fixação por buscar onde for preciso asas e tinta para escrever da vida o meu próprio pedaço.

Ter um avô - alguém de quem seus pais discordem, e com quem concordem também - é uma das maiores alforrias para a alma humana, tão necessitada de arbítrios para ser livre. Além disso, os pais nos mostram o caminho da ida, mas é com os avós (a quem nós temos sempre!) que aprendemos como voltar.

E conseguir enxergar esses fios todos é olhar para o céu e agradecer de boca larga ao dono da vida pelo pouco que ele dela nos empresta todos os dias…

(Teresina, 11 de março de 2013)

domingo, 5 de março de 2017

Estado de espírito.

O mar era aquilo que ela olhava, olhava, e não precisava dizer a ninguém. Emaranhado o cabelo. Pele queimada e já nenhuma maquiagem.

Na praia, de biquíni, ela encarava os fatos como eles são. Com os pés entregues à areia e ao sol quente. Molhados. Quase protegidos pela capinha de lama: areia, água e sal.

Por mais avassaladora que fosse a segunda-feira, por mais enlouquecedor que fosse o retornar ao sempre.

Na praia, as mulheres perfeitas das propagandas de cerveja perdiam todo o encanto. Viravam papel. E, de papel, areia que voa com a poeira. A realidade exposta de si, em exclamação, era que, com o sol, caminhava para cima e para baixo. Absurdamente viva. Inconsolavelmente humilde. E entregue a si mesma o suficiente para não reparar em você, em amor, ou em coisa alguma.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Ensemble.

Foi numa briga de ciúmes: o homem acusou a arte de ser volúvel, e ela o acusou de não ser verdadeiro. Desde então, passaram a isolar os corpos um do outro, ao tempo em que seguiam firmes e individuais.

Ela, conceitual, não marcava os dias com relógios, mas com estados de espírito.

Ele, habitual, acordava-trabalhava-e-dormia 365 vezes e então recomeçava. Divorciado e libertino. Dado a repetições de notas sem melodia, comida sem aprumo, bebida sem ocasião e televisão sem sentimento, num ritual de hipnose.

A arte, solitária, restava-se, ainda assim. A esparsas plateias. É que corria o boato de que ela não enchia barriga. Espalhado pelo homem, é claro, que, desesperançado, também não enchia coração.

Mas o que só alguns sabiam é que, à costumeira, de quando em vez, eles se encontravam. Nas sombras. E trocavam juras de amor fisiológicas. Irremediavelmente unidos pela evidente impossibilidade de viver sem paixão.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Namoro.

No final do abraço, depois do beijo, terminados os minutos que contavam horas cheias, ele ia embora sempre. Trocando-a pela parada de ônibus. Soltando a mão que a ligava ao pertencer. Doendo em falta. Por isso, ela fechava o portão e subia a escada, com a cara trancada. Independente. Crescendo em individualidade dentro de si. Sufocando e espremendo a falta do seu amor que cruzava a esquina, reduzindo-o a um lapso.

Até quando ele voltava, depois de um dia ou dois. Renovando-lhe juras. Mas cruzando, de novo, o portão, à menor ameaça da lua e do relógio. Distante o dia em que cumprisse a promessa de amor eterno consumado com anel e festa. Chamando de lindo o rosto com que ela, enamorada e em fúria, lamentava-lhe um tchau em ultimato.

Restando, de novo, a si tão só. Presente a noite imensa. Por entre postes e prédios, a namorada sonhava com castelos, cavalos brancos e homens decididos.

Coaxavam os sapos.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Mordida no cotovelo.

Já era tarde demais
quando a aranha desdenhosa
resolveu voltar à presa.

Tanto que, então,
já não havia mais nada.
Só teias, tantas.
Que a aranha por ali ficou...

Agora mesmo,
enquanto escrevo,
a provar do próprio veneno.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Tempo real.

Ou as palavras me fogem
ou já as cansei de buscar.

Cansei de me perguntarem
comigo o que há.

Comigo, há o de sempre:
papel em branco, caneta aos dentes,
vivendo, sem graça,
na mais funda espalidão.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Telegrafados.

Aquele momento em que sabemos que não vamos mais ver quem já não víamos mesmo há algum tempo se faz sentir mais - bem mais - do que o pouco que se poderia prever.

É quando morrem as pequenas expectativas de reconhecer alguém numa multidão de estranhos. E de achar mais gordo, ou mais magro. Mais ou menos cabeludo. De reconhecer a nós mesmos ao sentir, no envelhecer alheio, nossa própria crescência de dias. É quando morre um olhar, um trejeito que buscaríamos reconhecer nos filhos, se houvesse filhos, quando um dia os víssemos. Ou um carinho de imensa doçura repassado silenciosa e solenemente a eles, os detentores da perpetuação da vida. Para quem, contudo, não passaríamos de desconhecidas sombras ao nos cruzarmos em um dia qualquer.

O amargor de tudo que desejamos que não tivesse acontecido. O agridoce das lembranças, mesmo as pequenas, de dias mais jovens, de preocupações que já não preocupam. De sorrisos fartos ou frugais. A lembrança do ter passado é a mesma do ter vivido. Situação-tempo-fato presente e concreto que um dia nos lapidará a todos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Cantiga de ninar.

Era noite - e a lua azul cafunava os cabelos da mulher, com brisa e vento, perdidos os olhos que dela derramavam brilho no mar. Não havia mesmo palavra a dizer.

Pairava a noite e, serena, a luz da lua revelava a silhueta branca de uma espuminha que as ondas traziam sabe-lá-daonde, sabe-lá-pra-quê. Como no coração, esperança que ia e vinha sem ter motivo. Ela não tinha alguém para amar.

Deitada na rede da varanda, a mulher esperava. Como uma reticência, era tudo que sabia fazer. Comemorando o desaniversário de algum amor inventável. Confidenciando às estrelas em sonhos o fim de uma eterna solidão. Feliz por ano menos poder dormir e acordar em azul mistério.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...