Talvez tenha sido porque não lhe seduziam mais os aplausos corteses da atenção alheia. Um dia, a equilibrista deixou o circo e decidiu seguir em slackline as batidas do seu coração, desfilando sua mesma linha tênue por um dos bairros residenciais da cidade. Sem equipamento de segurança.
Acompanhavam-lhe as expectativas próprias e próximas, e as memórias de quando um dia largou o convencional pela vida de ginasta. Da carreira artística que seguira à de ginasta. Os primeiros malabares, o quanto o próprio corpo a surpreendia, e como, antes de criar, era ela cria da mágica. O primeiro figurino brilhoso. Depois, o sopesado chamar compromissado do amor.
Trazia junto de si a vara. Sobretudo, a vara. Era o que a ligava à própria essência. A maneira residual de preservar o equilíbrio ali, na invisível jornada que agora trilhava, atravessando descalça por entre o telhado e o muro da casinha, ou indo e voltando de um emprego normalzinho, de sandalinha, despida de grandezas galantes. Seu coração seguia uma nova, posto que imperceptível, missão. Por isso, era grata. As missões só escolhem os mais fartos possuidores de vida. Aqueles que, por não temerem a morte, pegam confiado amor ao que podem tocar. Vara, cão-guia, ou aliança de casamento.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 5 de novembro de 2017
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