quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Caminho de sol.

Uma tempestade sempre acaba aos pouquinhos.
Primeiro, cessam os trovões. Depois, os relâmpagos. E, então, o céu vermelho dá lugar a uma chuva serena, amena. Que poderia bem ser uma cantiga de ninar, não estivesse ainda presente o desacalantador cheiro da truculência.
Finda a tempestade, reconstroem-se as cidades. Recompõem-se as pessoas. Recolhem-se os galhos, reparam-se os postes de energia elétrica.
Depois da tempestade, existimos sempre. Aquietado o coração.
Pois foi quando o ato encerrou. Mas não mudaram o cenário. Cortinas reabertas.
Perdida, no centro, a atriz já não mais podia reconhecer a personagem de que se cercara. Tudo o que saberia fazer seria repetir o primeiro ato, repleto de trovões e relâmpagos, negando a presente paz. Presa em repetido lapso temporal. Pássara numa gaiola de horrores.
Na fuga, ao despir-se da alheia persona, só lhe restava a si mesma: nua, na frente de todos. Exposta como vedete em palco de cabaré. Crua em carne, sangue, ossos, e ferida... viva.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Cadeira de espaguete.

Era de tardezinha, e a mulher levava a cadeira para a calçada, movimentando a rua, para ver as coisas que queria ver. À volta, vizinhos faziam o mesmo. O sol pintava-se de cores cada vez mais escuras. Em breve, seria breu. E o que mais haveria seriam estrelas de luz ensandecida a ludibriar os tolos que se deixassem persuadir. E quantas promessas descabidas os faria jurar, as quais só a sensatez da alvorada poderia desmentir.

O movimento era igual. Mas tinha dias que a mulher via casais enamorados. Em outros, pessoas com muita idade a respirar mais ar ainda. Tinha dias que via saquinhos de biscoito a voar, carregados pelo vento quente que nos levará a todos. Ou o vira-lata. Tão desamparado e sorridente como o fundinho da alma. Tinha dias que ela secretamente espionava outras mulheres como ela mesma. Nestes, era quase sempre um assombro enxergar-se tão literal.

E era bom ser casa. Calçada por onde alguém pudesse entrar, sair, sentar e ser. Mas é que no momento que as cores fugiam do céu, entregando-o aos deslumbres de um brilho sem luz, um abandono absurdo a deixava com o juízo abarrotado da solidão mais farta.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...