Vou buscar nas batidas do meu coração, e trago para a superfície, uma vez e outra, alguma calma. Como quem procura pedrinhas, mergulhando até o chão da piscina. E volta. Iminente a possibilidade de, em mais, morrer o ar.
Alguma calma. E as cores do quadro continuam as mesmas. Já então, um pouco menos assustadoras. Alguma calma e continuo tensa, concentrada no provável golpe do inimigo, mas encontro leveza no abismo-triz.
Alguma calma e não enlouqueço. Nem esqueço.
Abençoado intervalo entre a sístole e a diástole do pulsar.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 24 de abril de 2016
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Fim de caso.
Era de partir o coração que a aurora (desapaixonada) não aparecesse ali para desfazer tamanho mal-entendido. Talvez porque não fosse um mal-entendido. O barquinho bêbado e trôpego sairia em missão de busca e resgate do seu grande amor mesmo que fosse tarde, todos sabiam. Queimava-lhe, denso e escuro, o raivoso ziguezague do mar. Doía mais que água-viva.
O barquinho trôpego e louco deixava-se bolar pelas ondas de soda cáustica, cegamente vagando. No perquirir notícias de um ensolarado idílio já findo, arranhava-se entre pedras e cascalhos, até perder a esperança. Atingido pelos relâmpagos da tempestade. Sucumbido pelas grossas, pesadas e amargas balas de gota d'água, que o sacudiram, redemoinhas. Escurecendo-lhe o nariz.
E até amanheceria. Só que, daquele barquinho, não restaria mais nada. Não em sendo ele assim, como era. Passional e inconsequente.
Era de doer. De partir o coração. Que o barquinho se tivesse deixado estar tão aturdido, rouco, louco e remexido.
Inexorável, irredutível.
E morto.
O barquinho trôpego e louco deixava-se bolar pelas ondas de soda cáustica, cegamente vagando. No perquirir notícias de um ensolarado idílio já findo, arranhava-se entre pedras e cascalhos, até perder a esperança. Atingido pelos relâmpagos da tempestade. Sucumbido pelas grossas, pesadas e amargas balas de gota d'água, que o sacudiram, redemoinhas. Escurecendo-lhe o nariz.
E até amanheceria. Só que, daquele barquinho, não restaria mais nada. Não em sendo ele assim, como era. Passional e inconsequente.
Era de doer. De partir o coração. Que o barquinho se tivesse deixado estar tão aturdido, rouco, louco e remexido.
Inexorável, irredutível.
E morto.
domingo, 10 de abril de 2016
Naftalina.
Fazia sol, e ele a buscou no aeroporto com uma caixinha de presente. Seus olhos cor-de-sonho brilhavam. Dentro, mais um colar. Prateado, com um morango cravejado de pedras. Também enchia a florida caixa cor-de-rosa uma folha amassada de papel seda vermelho-apaixonado. Naquele dia, ele disse a ela o quanto era ruim que estivessem longe e que isso nunca mais aconteceria.
É claro que isso foi antes de dizer-lhe que não deveriam estar juntos nunca mais por toda a vida. Uma coruja apareceu a ela naquela noite, enigmando tragicidade, minutos antes.
E todo o tempo, choro, promessa, os porta-retratos e as músicas, todo ar e cemitério foram espremidos para caber ali: na caixinha guardada.
Que ficava escondida.
Enquanto ela recomeçava, por ser impossível simplesmente continuar.
Se a sobressaltava um pensamento, lembrança doce ou ruim. Se lhe vinha alguma angústia, saudade sem ter mais o de quem. Espremia mais a tal caixinha. Que, com o tempo, passou a quase desexistir, em instntes de feliz esquecimento, como quando tomamos um analgésico.
Por isso, mais constantemente viajava. Fora de casa, os caminhos eram sempre mais iluminados. Ninguém precisa pôr as rachaduras de casa na mala.
Mas é que, voltando-se para dentro de si, ela simplesmente preferia nunca mais se abrir. Ou tocar no que lhe era incenso e tóxico, naquilo que sabia que não poderia destruir. Mas que também não destruiria, se pudesse.
É claro que isso foi antes de dizer-lhe que não deveriam estar juntos nunca mais por toda a vida. Uma coruja apareceu a ela naquela noite, enigmando tragicidade, minutos antes.
E todo o tempo, choro, promessa, os porta-retratos e as músicas, todo ar e cemitério foram espremidos para caber ali: na caixinha guardada.
Que ficava escondida.
Enquanto ela recomeçava, por ser impossível simplesmente continuar.
Se a sobressaltava um pensamento, lembrança doce ou ruim. Se lhe vinha alguma angústia, saudade sem ter mais o de quem. Espremia mais a tal caixinha. Que, com o tempo, passou a quase desexistir, em instntes de feliz esquecimento, como quando tomamos um analgésico.
Por isso, mais constantemente viajava. Fora de casa, os caminhos eram sempre mais iluminados. Ninguém precisa pôr as rachaduras de casa na mala.
Mas é que, voltando-se para dentro de si, ela simplesmente preferia nunca mais se abrir. Ou tocar no que lhe era incenso e tóxico, naquilo que sabia que não poderia destruir. Mas que também não destruiria, se pudesse.
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Mortalha quentinha.
O gosto do passado era doce e ensolarado, mas teria no fim o amargor da decepção mais leviana. Posto que, naquela noite, ao fechar-lhe o portão o costumeiro amor, seus olhos escuros esvaziaram de si tudo que era essência, mudando passivamente de cor para um raso gélido adiante outrora inimaginado.
Definitivo, o fim pairava. Como guerra pressentida em Berlim. Sem que houvessem máscaras de gás.
Entre a asma e o latente suspiro, ela questionava a lua. Que, enlutada, preferia não se pronunciar. Tramando consigo colar ainda os cacos de amor. Ou tecer-lhes a memória, com os mais puros fios grisalhos, numa colcha de belíssimos retalhos.
Definitivo, o fim pairava. Como guerra pressentida em Berlim. Sem que houvessem máscaras de gás.
Entre a asma e o latente suspiro, ela questionava a lua. Que, enlutada, preferia não se pronunciar. Tramando consigo colar ainda os cacos de amor. Ou tecer-lhes a memória, com os mais puros fios grisalhos, numa colcha de belíssimos retalhos.
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