Poderia ser uma máquina escavadora. Poderia ser um estetoscópio. Poderiam ser pilhas de processos, códigos e livros - ela não se importaria.
Qual nada.
O objeto de trabalho dele era um violão.
E um homem nunca tem com um violão uma relação de trabalho apenas. Ela sabia. Ele amava o violão. Era nele que gastava seus momentos de inspiração-mais-doce, a compor canções de amor e ódeio, músicas sobre início e fim. Sim, ela sabia. Assim como sabia que não poderia simplesmente competir com a música. Tinham - ele e o violão - os segredos mais cúmplices. Era ali onde ele escolhia repousar as mãos nas horas de melancolia. Justo quando, de tanto amá-lo, tanto mais queria-lhe ela bem. Era ali, e não com ela, que ele se sentia compreendido. Com o violão, ele atingia um visível estado de completude que, ainda mais para ela, agigantava-se ao absurdo. Inaceitável.
Oh, quanto o amava. Mas já não suportava o tal violão.
- Faz parte de mim, querida. - Ele dizia - Veja a música que compus para você! - E era como se a usasse como pretexto para infidelidade.
Foi quando ela, literal e deliberadamente, quebrou o objeto de tantos ciúmes. Cruelmente. Por maldade.
Assustado com a reação da esposa, o homem não brigou. Não reclamou. Nem disse coisa alguma. Simplesmente foi à loja e comprou um novo, como o outro.
Naquela noite, choveu. Mas ela já não agrediu mais violão, nem marido. Nada. Deitada no quarto, enquanto ele tocava na sala, silenciosamente permitiu a cada uma das amadeiradas notas que assassinassem reiteradamente o sufocante amor. Em sinfonia dolorosa, a lágrimas grossas. E, desde então, nunca mais sentiu amor, nem dor, nem coisa alguma.
Mas é que quem a visse ali: nas tardes nubladas, em meio a linhas e agulhas, entre o crochê e o tricô, obstinada e compenetrada em seu pesar e sua lida - poderia quase escutar, num inaudível e alfinetado som, notas de amor e fúria. Interminavelmente bordadas: ora início, e ora fim. Pontos que fazem-desmancham-e-refazem um mesmo coração.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Rasante.
Ele era fraco. Autocentrado. E, de muitas maneiras, o culpado. Por descuidos que atingiam ela e por outros que não a atingiriam também - posto estarem conectados em inconsequente sintonia.
Ela achava que eram uma dupla, ele sabia que não. E era por pura maldade que não a jogava ali mesmo: do precipício. Negando-lhe, procrastinando-lhe, a agoniante libertação pela verdade do desexistir em pluralidade.
Até o momento em que ela caiu. E existem alturas das quais já não esperamos que pessoas apareçam para nos salvar mesmo.
Distraído, solitário e completo, o alpinista alcançava, naquele instante, o cume da montanha do eu. Repleto e sublime.
E foi por não ter encontrado ninguém e nada em que segurar que a mochila descobriu que era pássaro.
Ela achava que eram uma dupla, ele sabia que não. E era por pura maldade que não a jogava ali mesmo: do precipício. Negando-lhe, procrastinando-lhe, a agoniante libertação pela verdade do desexistir em pluralidade.
Até o momento em que ela caiu. E existem alturas das quais já não esperamos que pessoas apareçam para nos salvar mesmo.
Distraído, solitário e completo, o alpinista alcançava, naquele instante, o cume da montanha do eu. Repleto e sublime.
E foi por não ter encontrado ninguém e nada em que segurar que a mochila descobriu que era pássaro.
domingo, 13 de dezembro de 2015
Destruísmo.
O mundo entrelaçava-se de tal forma à mulher que ela tudo sentia. Para desespero do marido, que solicitamente sempre arrancava da rosa os espinhos. Ainda assim, as mãos da mulher doíam.
Todas as manhãs, ele fazia a feira. Uma vez ao mês, comprava-lhe roupas novas. Nas ocasiões especiais, trazia joias. Mas ela permanecia magra, maltrapilha e endividada.
Um dia, o homem ferido e decidido resolveu tapar todos os ralos da casa para não haver por onde escoar tanto segredo.
Viu passar pela cozinha um rato. Ela lhe deu todo o queijo. Viu passar pela janela uma mendiga, ela lhe deu todas as roupas. Viu um cão, para ele a carne. Viu um gato, para ele o leite. Para a vizinha, os doces. Para a visita, as frutas. Para a caridade, as joias, mantas e cobertores.
O homem olhou ao redor de si, na casa vazia, sem entender o que a mulher faria com ele mesmo, afinal. Mas, quando se virou, já não conseguia enxergá-la. Até um dia, quando, escovando os dentes, ao se ver num relance de espelho, encontrou-a cravada em suas costas.
Todas as manhãs, ele fazia a feira. Uma vez ao mês, comprava-lhe roupas novas. Nas ocasiões especiais, trazia joias. Mas ela permanecia magra, maltrapilha e endividada.
Um dia, o homem ferido e decidido resolveu tapar todos os ralos da casa para não haver por onde escoar tanto segredo.
Viu passar pela cozinha um rato. Ela lhe deu todo o queijo. Viu passar pela janela uma mendiga, ela lhe deu todas as roupas. Viu um cão, para ele a carne. Viu um gato, para ele o leite. Para a vizinha, os doces. Para a visita, as frutas. Para a caridade, as joias, mantas e cobertores.
O homem olhou ao redor de si, na casa vazia, sem entender o que a mulher faria com ele mesmo, afinal. Mas, quando se virou, já não conseguia enxergá-la. Até um dia, quando, escovando os dentes, ao se ver num relance de espelho, encontrou-a cravada em suas costas.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
E tenho dito.
Não tenho medo dos medos que moram dentro de mim. Já nos declaramos guerra e, desde então, vivo em paz.
Mas vejo bem as caretinhas que eles me fazem do lado de lá.
Dali. De onde o dia é sempre cinza. Explodem em deboches, como granadas num audivelmente surdo campo minado. Acionadas por qualquer variação de tempo.
Agora, para cá entre nós, nesse cantinho onde repousa a mente do coração - aí eles não voltarão jamais.
Mas vejo bem as caretinhas que eles me fazem do lado de lá.
Dali. De onde o dia é sempre cinza. Explodem em deboches, como granadas num audivelmente surdo campo minado. Acionadas por qualquer variação de tempo.
Agora, para cá entre nós, nesse cantinho onde repousa a mente do coração - aí eles não voltarão jamais.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Dualidade.
Havia duas estradas que levavam a um destino só: a caminhada. No entroncamento, o desavisado viajante parou. É que lhe torturavam as incertezas do seguir. E se. Porém. Aquém. Apenasmente. O chão eram formigas que insistiam em seu trabalho, vazias a divagações alheias. Adivinhadoras da inutilidade de concentrar esperanças e expectativas na estrada. Peregrinas, por saberem que não era esta, e sim a caminhada, que percorreria o destino.
Passou um louco, solto de pensamentos e desconexo de reflexões. Doidivagando por qualquer estrada. Um sábio entendeu a encruzilhada e seguiu reto, a passos confiantes, na mesma direção do louco, para estranhamento do viajante. Uma mulher passou com o marido pela outra estrada. Na verdade, ela sequer reparou por onde seguia, deixando-se guiar pelo homem no mais livre arbítrio. É que olhava para o céu e para a paisagem. Ralhando de vez em quando com as crianças, para que aquietassem a mania de perguntar-lhe desmotivos. Ensinava-lhes que era certo e doce o caminho do amor. Em qualquer situação.
Acima, as nuvens trocavam de uma figura para outra, pois todas serviam, a cada vez que o viajante pedia aos céus uma pista. Como respostas aleatórias de um oráculo imaginário e azul de certezas. As quais, em seus medos, ele invertia na mente, fantasmagando-as. Plantadas, algumas não-me-toques se ouriçavam com o movimentado pensamento errante do viajante empacado. O qual, quando afinal escolheu um lado, o fez depois de tanto tempo, e seguido de um raciocínio tão turvo, que o dia ficou tarde e velho demais. E anoiteceu.
Passou um louco, solto de pensamentos e desconexo de reflexões. Doidivagando por qualquer estrada. Um sábio entendeu a encruzilhada e seguiu reto, a passos confiantes, na mesma direção do louco, para estranhamento do viajante. Uma mulher passou com o marido pela outra estrada. Na verdade, ela sequer reparou por onde seguia, deixando-se guiar pelo homem no mais livre arbítrio. É que olhava para o céu e para a paisagem. Ralhando de vez em quando com as crianças, para que aquietassem a mania de perguntar-lhe desmotivos. Ensinava-lhes que era certo e doce o caminho do amor. Em qualquer situação.
Acima, as nuvens trocavam de uma figura para outra, pois todas serviam, a cada vez que o viajante pedia aos céus uma pista. Como respostas aleatórias de um oráculo imaginário e azul de certezas. As quais, em seus medos, ele invertia na mente, fantasmagando-as. Plantadas, algumas não-me-toques se ouriçavam com o movimentado pensamento errante do viajante empacado. O qual, quando afinal escolheu um lado, o fez depois de tanto tempo, e seguido de um raciocínio tão turvo, que o dia ficou tarde e velho demais. E anoiteceu.
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