Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Dar o pé a torcer.
O homem que criava um papagaio insistia em deixá-lo voar. Por mais que o avisassem os amigos que um dia o Louro bem poderia sumir. É que não queria vê-lo ressentido do cativeiro. Solto, o pássaro poderia comer as frutas dos galhos mais altos da árvore do quintal. E voar. Mas, sobretudo, voltar.
Por gratidão, os pássaro não se importava de que o dono lhe cortasse a pontinha das asas. Nutria-lhe amor. Bebia café em sua mesa, fincava as patas nos seus dedos ou no braço. Para conversar com ele, aprendia novas palavras. Cantava em uma nota só.
O verde e amarelo do papagaio e o azul do céu formavam um belíssimo cenário. Coloriam o coração e os dias do homem. Que confiava no Louro. Mas é que, ao vê-lo voar um tanto mais alto, um outro dia, rumo à copa da árvore de um vizinho, enciumou-se e lhe impôs correntes.
E foi por tristeza que o papagaio nunca mais quis falar.
Ou sequer reclamar. Mas isso porque pressentiu, na escura crueldade, alguma amarga doçura remota.
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Alvorada.
As margaridas gargalhavam feito hienas na floricultura, e já era manhã. O saudoso salgueiro enxugava as lágrimas, por chuvosa a noite, encorajado pelo lírio que o fitava de algures.
O ar não cabia em si de tanta esperança. Tudo era doce, puro, real e assustadoramente novo.
Exceto para as margaridas - ainda bêbadas, debochadas e estúpidas - que fofocavam entre risinhos. Não existe seriamente sobriedade em emendar noites nos dias vagando aos bandos, trôpegas e colombinas. Queriam que a loja abrisse logo para paquerar os rapazes, roubando olhares que pertenciam às namoradas. Qual florezinhas levianas e descompromissadas, que eram.
Orvalhado, o lírio laranja agora meditava na cor do céu. O salgueiro afinal se conformava por ter perdido seu grande amor. Ele não pedira, mas amanhecera ainda assim. O sol, em dosada força, aquecia o dia branda e vigorosamente. O seu calor desfazia as nuvens e os rumores de que em algum momento elas pudessem atrapalhar qualquer alguém, com suas dores.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Tudo bem?
O encontro dos olhos separados pelo tempo tinha a dureza dos fatos e a
leveza da casualidade. Pairando.
Por alguns segundos, o nariz se fechou: de novo sentindo o cheiro da vida-que-poderia-ter-sido,
em flashback. Só que aqueles olhos já não verteriam
lágrimas. Não é que não houvesse cicatriz. Mas no momento presente, dali
onde estava, era simplesmente lucro demais que o remendado coração
pudesse ainda pulsar simplesmente. Sem mais precisar de sutura, gazes ou
esparadrapos. Não se chora por palimpsestos.
Autônomos, os pés decidiram mover-se, a passos firmes. A boca contraiu-se
oscilante num sorriso gélido. No ar, a firmeza de um soldado que mata
inimigos por tanto querer bem à pátria. Aos seus. A si. A tudo. Sufocando,dentro de si, os gritos de quem mata uma barata. Por saber que deve. Muda, em tamanho escândalo.
E foi assim, por dentro em desmaio, que a mulher guiou pelo salão de festas a própria alma desacordada, arrastando-a por entre o espaço para não perder o presente.
Com os olhos vazios como um peixe escorrendo por água abaixo. Maquilados com
sombra negra, ressaltando as pupilas escuras. Vestida num bonito vestido cor-de-rosa, que destoava de tudo. Pois que, sem alma, a mulher já não era amor, nem
cor, nem flor alguma.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Dois pássaros.
O escritor amava a Arte. Moravam juntos. Tinha-na por sua. Juramentada em versos testemunhados por mim, por você e por todos. Mas se desmedia em paixão indisfarçável pela Celebridade. Que, fogosa e insaciável, num belo dia cinza o partiu. Deixando-o, já de mãos dadas com o novo best-seller da prateleira.
Injuriado, o artista se inflamou. Que haveria de tê-la de volta. Por já não crer haver, consigo mesmo, valor algum. E pôs-se a escrever, sem nenhuma inspiração, quadrinhas passionais de recalque. As quais a Celebridade prontamente esnobou, desapercebendo-as por completo. Até que ele definhou.
Na surdina, a Arte enxugou das lágrimas a revolta e catou da casa as últimas migalhas de dignidade, colocou-as em sua mala, e a fechou. Não fosse a última a saltar de um tão naufragado barco. Restou, no fim, o nada. Despojado até do último destroço.
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