O encontro dos olhos separados pelo tempo tinha a dureza dos fatos e a
leveza da casualidade. Pairando.
Por alguns segundos, o nariz se fechou: de novo sentindo o cheiro da vida-que-poderia-ter-sido,
em flashback. Só que aqueles olhos já não verteriam
lágrimas. Não é que não houvesse cicatriz. Mas no momento presente, dali
onde estava, era simplesmente lucro demais que o remendado coração
pudesse ainda pulsar simplesmente. Sem mais precisar de sutura, gazes ou
esparadrapos. Não se chora por palimpsestos.
Autônomos, os pés decidiram mover-se, a passos firmes. A boca contraiu-se
oscilante num sorriso gélido. No ar, a firmeza de um soldado que mata
inimigos por tanto querer bem à pátria. Aos seus. A si. A tudo. Sufocando,dentro de si, os gritos de quem mata uma barata. Por saber que deve. Muda, em tamanho escândalo.
E foi assim, por dentro em desmaio, que a mulher guiou pelo salão de festas a própria alma desacordada, arrastando-a por entre o espaço para não perder o presente.
Com os olhos vazios como um peixe escorrendo por água abaixo. Maquilados com
sombra negra, ressaltando as pupilas escuras. Vestida num bonito vestido cor-de-rosa, que destoava de tudo. Pois que, sem alma, a mulher já não era amor, nem
cor, nem flor alguma.
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