Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Para o Natal, um Par de Olhos.
A discrição e calma com que a menina escrevia a carta para Papai Noel eram de preocupar. Faltava paixão. Ardor. Ou pesar. Buscava ganhar como quem sabe perder. E sonhos são matéria demasiado escassa para ser confiada a quem os esquece ou perde.
Um tanto cansado, o diretor duende escolhia as cartas que enviaria a Nicolau. Junto com cinegrafistas, renas enfeitadas e anúncios dos patrocinadores nos entrecomerciais. De preferência, histórias que rendessem lágrimas. Para então, fechada a cena daqui - enquadrado o rosto dali, roubadas as emoções; as outras pessoas acreditassem, por um momento que fosse, que sentiam, choravam e riam também. E como ficariam deslumbradas, e como os anunciantes ficariam contentes – então Papai Noel riria com a sonoridade de um estouro luminoso de audiência a anunciar mais alguma nova e ilustre programação.
Paralelamente antes, um desfogueado coração de menina caminhava, passos firmes, até os Correios, a postar sua mera intenção. Na querença de ser verdade o que alguns diziam, e que alguém, novo ou velho, fosse mesmo muito bom. E soubesse ver. De si, o tudo. O sonho descrido de quem já não pode sonhar. Mas sonha poder.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Por um Maestro maior.
No dia em que ficou sem orquestra, o maestro tentou reger as formigas em seu caminho. Mas a sua simples presença dispersava-as todas. Mais unidas estavam em sua uníssona fileirinha, pobre de notas ou acordes. Tentou reger os pássaros, que dele fugiram com suas libertárias asas. Ele tentou reger uma cachoeira - que, sozinha, explicou-lhe em coro o quão grande e poderosa era para que se deixasse reger por um maestro humano.
Ele se deixou estar, então, velho e avulso, encostado numa pedra ribeirinha. A abandonar em uma mala tudo que de si compreendia, e o que mais pensava ser, para, quem sabe assim, conseguir seguir viagem. Sem bagagem.
Foi quando olhou o céu, e percebeu que a melodia dos passarinhos encaixava perfeitamente na marcha inaudível das formigas. Compassada com a percussão estrondosa da cachoeira. E com o guizo das cobras. E com o rebuliço dos macacos nas árvores.
A vida, então, o atraiu por um meandro de entretantos, ensinando-o as notas estreitas e eternas que existem desde antes da fundção do mundo e carregam o poder de transformar a mente e o coração...
Ele se deixou estar, então, velho e avulso, encostado numa pedra ribeirinha. A abandonar em uma mala tudo que de si compreendia, e o que mais pensava ser, para, quem sabe assim, conseguir seguir viagem. Sem bagagem.
Foi quando olhou o céu, e percebeu que a melodia dos passarinhos encaixava perfeitamente na marcha inaudível das formigas. Compassada com a percussão estrondosa da cachoeira. E com o guizo das cobras. E com o rebuliço dos macacos nas árvores.
A vida, então, o atraiu por um meandro de entretantos, ensinando-o as notas estreitas e eternas que existem desde antes da fundção do mundo e carregam o poder de transformar a mente e o coração...
Assinar:
Postagens (Atom)
Poema de Halloween.
Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato. Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...
-
Quando o meu pior medo pulou da caixa dos temores para o meio da rua era como se esta rua já nem fosse mais tão minha assim. Então, me...
-
Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato. Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...
-
Talvez eu tenha algo a dizer sobre o tempo que passa que ultrapasse as pequenas ganâncias que moram em mim e querem dominar o mundo. Sempre ...
