quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Para o Natal, um Par de Olhos.


A discrição e calma com que a menina escrevia a carta para Papai Noel eram de preocupar. Faltava paixão. Ardor. Ou pesar. Buscava ganhar como quem sabe perder. E sonhos são matéria demasiado escassa para ser confiada a quem os esquece ou perde.

Um tanto cansado, o diretor duende escolhia as cartas que enviaria a Nicolau. Junto com cinegrafistas, renas enfeitadas e anúncios dos patrocinadores nos entrecomerciais. De preferência, histórias que rendessem lágrimas. Para então, fechada a cena daqui - enquadrado o rosto dali, roubadas as emoções; as outras pessoas acreditassem, por um momento que fosse, que sentiam, choravam e riam também. E como ficariam deslumbradas, e como os anunciantes ficariam contentes – então Papai Noel riria com a sonoridade de um estouro luminoso de audiência a anunciar mais alguma nova e ilustre programação.

Paralelamente antes, um desfogueado coração de menina caminhava, passos firmes, até os Correios, a postar sua mera intenção. Na querença de ser verdade o que alguns diziam, e que alguém, novo ou velho, fosse mesmo muito bom. E soubesse ver. De si, o tudo. O sonho descrido de quem já não pode sonhar. Mas sonha poder.

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