domingo, 25 de dezembro de 2016

Além do horizonte.

Porque a vida era boa, o bichinho precisava trocar de concha como quem se despede de si: lentamente. Anátema aos dias, meses ou anos. Seguro de atentar a cada detalhezinho de sua continuação. Haveria um backup esquematizado de todos os encantos que pudesse transportar em si à nova morada. Mas, sobretudo, do que passou não restaria mais nada. Por escolha.

O bichinho ia embora devagar porque tinha amado ficar. E já não iria retornar. É que é assim que a vida segue. Linda.

Muitos animais censuraram-no pela demora. Mediam o tempo com calendários e relógios. Desconheciam as estações inerentes somente audíveis ao mais sensível coração. Arrancavam cascas de ferida como se fossem bandeides, sangrando desapercebidos ou em segredo, para não dar o braço a torcer. Ao bichinho, ninguém enganava.

Ele era sábio.

Talvez mais do que um pouquinho só demorado demais mesmo.

Ainda vaga.

Um dia, há de chegar juntinho de mim.

Quem sabe arranje na concha nova um espacinho para dois.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Anjos.

o vento negro acalantava os galhos
onde pássaros empoleirados descansavam do dia,
na velocidade do pensamento

as almas separadas pelas ruas
escorriam qual anéis ensaboados,
amor em riste,
dormindo nuas

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Dorme, coração.

Chacoalhada pelas emoções,
a criança cansada do dia
espera pela noite
pisando espalhado em cacos audíveis de lágrimas.

Sua alma só precisa de um banho e um leitinho.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Divórcio.

A distância centímetra entre os dois corpos media a altura orgulhosa de um gigante e a força de todos os dentes do mundo. E a memória das mágoas.

Cruzada a porta, o homem prometeu de si a si mesmo jamais acreditar em sorrisos ou palavras outra vez.

Esmagada pelo bater da porta, a mulher sufocava com seu peso toda queixa e todo amor. Traía-lhe a esperança de um fim depois do fim. O querer crer que no mundo houvesse ainda cores.

O homem em seu caminhão de fretes buscava logística no depois, subindo e descendo serras. E correndo os perigos da estrada, sem os pudores de quem tem coração. Sem afrouxar a mordaça à saudade que, ainda assim, o atocaiava e estrangulava, vez em quando.

A mulher descascava sempre cebolas. Que o mal de tudo seria o desmotivo. E depois, é receita das mais simples falsear um porquê.

 Até o dia em que se encontraram. No fórum, perante o juiz. À tal distância centímetra. Que é quanto media o muro alto que arranhava de cinza um céu de azuis. Erguido imponentemente ali por desrazões que já nenhum dos dois, e nem ninguém, saberia realmente contar. E, por isso mesmo, fingiam esconder-se como formiguinhas, nas sombras esvanecentes do tamanho muro. Não descobrisse o desamor que lhe haviam faltado.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...