domingo, 20 de julho de 2025

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé,

procurando o outro sapato.

 

Atrasada até para passar o café,

tem no encalço uma pequena filha contestadora-de-nãos

 

Opa, já sumiu.

 

Talvez a encontrem pondo a roupa pra lavar,

Ou tenha finalmente chegado no serviço

- peço a delicadeza de não reparar nas unhas

nem no atropelo da maquiagem.

 

Hoje, pode ser que ela não pinte as cores do dia com palavras.

Vai que madrugou ordinariamente fazendo contas, ou certificações técnicas,

ou só lembrou de esquecer.

 

Mas aqui jaz.

 

Reguem com um pouco de tempo.

 

(A compostagem segue a decomposição)

 

Ela espera o luar, sorve a brisa, aguça a vista e afia os sentidos.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Licença-saúde.

Minha mente tem espaço e gavetas, mas é bagunça o puro suco do meu coração.

 

Tem amor. Um resto de orgulho engolido, que ficou por ali, engordurado. Mágoas esquecidas, como remanescentes tampinhas de garrafa KS descartadas há um milênio. Machucam o pé.

 

Tem culpas. Enormes. Por coisas que nem fiz. Por não ter dado ou por ter fixado demais a atenção. Por não ter segurado e também por ter soltado a mão.

 

[Não. Quando. Quanto.] 

 

Na falta de ré, sobe a poeira táctil da imaginação - espirra, tosse, escarra.

 

Bombeia esse sangue em meu corpo. Me bombardeia. Faz-se onda a querer invadir o andar da organização. Ou leite que ferve.

 

- É caso de faxina. Sou eu. É comigo. Mas digam no RH que foi virose!

sábado, 6 de novembro de 2021

Depressão.

 Abraço o teu corpo pois é onde você costumava estar.

Procuro o vigor das promessas de um dia em teus olhos soturnos, pesados, que fitam o tergiversar.

Te busco no forçar d'um sorriso que sei que você já não mais sente...


E espero mais um pouquinho.

Não tenho relógio.


Vasto, inóspito, imenso e esburacado coração

- nas batidas, minera, buscando ainda encontrar teu veio, meu aluvião!

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Samsa.

 Fora malvada. Mas isso foi ontem, e já hoje ninguém precisava saber. No espelho, o mesmo rosto mascarado a que a vida pandêmica se ia acostumando. Ao bater a porta, em relance, viu restos de comida no prato do café da manhã. Pensou nos venezuelanos na rua, que passavam fome. Custava-lhe admitir a perversidade de saber que ia omiti-los de si mesma. Ainda má.


Circulava na rua, filtrando e escasseando o ar a cada respirada. Desviando da gente. Se escondendo de si. Fora malvada sim, porque poderia ter intercedido por alguém que precisava ontem, no trabalho, e não o fez. Aos inimigos a lei. E em seu coração - outrora quentinho - já não cabiam amigos. O alguém não tinha como pagar o aluguel. Ela nada fez. Ela, que tinha casa, comida e emprego. No caminho, um homem pedia dinheiro em troca de bala de goma com uma plaquinha de papelão, onde narrava ter família. Hoje-não-moço-desculpe.


Não teria sido favor. Não se ela fosse um ser humano.


Alerta vermelho de declínio de temperatura. Fim de expediente. Lá vem a chuva derrubando mais dez graus. Na rua, muitos se encolhem. De noite, se encolherão ainda mais.


Ela tira o casaco e o entrega a um senhor sentadinho sem sapatos que se abraçava. Sai sentindo frio e respingando consciência. De dentro de si, porém, sai um grunhidinho de inseto. Tirasse a máscara, saberia. Já não era mais gente. Era barata, tentando limpar-se no sabão da pasta de dente.

domingo, 12 de maio de 2019

Zumbi.

O homem que deixou a alma de lado buscava dinheiro dentro de um pote sem fundo. Quando a viu passar. Ela: a quem tinha jurado amor e todas as cores.

Por causa dela, a urgência em ter com que pagar as contas. De ter como comprar o céu. E um enfeite bonito, e diamantes para coroar o amor inteiro que lhe trazia no coração.

Enquanto ela dobrava a esquina, o homem virou para o lado onde deixara a alma a fim de ter como mostrar-lhe de si o todo, quando percebeu que sumiu. Não uma, mas as duas coisas. E já nem mais lágrimas lhe restaram para chorar a solidão.

domingo, 21 de abril de 2019

Update da alma.

Quando o meu pior medo
pulou da caixa dos temores
para o meio da rua
era como se esta rua
já nem fosse mais tão minha assim.

Então, me recusei a pisar no chão,
pulando, por sobre galhos de planta
e ombros de amigos desesquecidos,
que ficaram pesados de tamanho chorar...

Foi quando ele veio, me jogou no chão
e trocou meus olhos.

Aí eu vi um caminho refeito
de fantasmas apequenados pelo coração sereno
que faz novas todas as coisas
e transforma noites em manhãs.

Todo dia.

domingo, 24 de março de 2019

Cotidiano.

A musa de todos os dias seguia de cabelos assanhados e presos a pensar que poderia bem fazer as unhas no sábado. Enquanto a musa dos idílios passava ao lado, vestida de festa, espalhando um cheirinho suave e francês.

Não tardava, e a musa de todos os dias voltaria para o seu poeta. Para sorver-lhe o olhar inquietado em meio ao café com pão. E fazê-lo reparar nos cores do rótulo de margarina, rir das ironias do jornal, aturar com leveza alguma nova implicância do vizinho...

Ela o faria deitar tranquilo. Acalmaria seus pensamentos tornando-os iguais, mas belos. De sorte que, se ele dormisse até mais tarde, ainda sonharia.

Mas não com ela. Ele sonharia com a musa dos idílios. À outra escreveria versos, enquanto a musa de todos os dias não recebia sequer palavra.

E isso enquanto não houver justiça no mundo. Porque, quando houver, as noites, os dias e os amores serão inteiros e sempre da musa de todos os dias.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...