domingo, 26 de julho de 2015

Ciranda, cirandinha.

É preciso ruidoso vento para abrir as portas que teimamos em manter fechadas. Sem nunca fechar realmente. Vindo de onde for. As ondas que sacodem o barquinho inundam os pescadores de possibilidades. Ainda quando não há escolha. Na montanha-russa, crianças alucinadas amam viver mais que a própria vida. E, naquele dia, ela precisava esquecer um amor.

Sem sufocá-lo. Era abrir a gaiola e deixar o pássaro voar. E depois voltar, lembrar inteira do canto. Aprendendo a calar. Escutar e dançar ritmos outros desiguais. Com a integridade frágil daquilo que cai mas não parte.

Calejado, um par de olhos resistentes desescondia a alma de quem desarma o peito da ilusão. Pela liberdade. Na renúncia do que nunca foi, mas se pensou ter sido, como quando sentimos fome de chocolate.

domingo, 19 de julho de 2015

Céu limpo.

Caminhava com um balde, que lhe guardava as memórias. Vez em quando, puxava alguma de sorriso doce. Ou doída como os calos da alma. Pois a vida é melodia para tons graves e agudos. Nela, a beleza reside além - onde se descobre entrecaminhos. Já que o mundo não é roupa estendida e pregada a esperar o sol no varal.

Dobrando a esquina, a mulher viu uma lembrança, que guardara triste, rindo de rachar os dentes. Mais um pouco, e a memória que guardara esma apareceu-lhe aplaudida, tida por bela e elegante, recebendo presentes e fazendo viagens fantásticas.

A mulher olhou para o outro lado e viu seus sonhos, ou o que lembrava deles, correndo por direções que não alcançaria. Cruzando o caminho de gente que ela não gostou um dia. E do gostar ou desgostar, só restavam reminiscências. A amplidão do presente ocupava mais espaço que todos os baldes, catando-lhe os olhares a todo sempre, ao desanuviá-los de outroras ou falsas tristezas e alegrias...

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Segredo.

Não era a cartola e umas tantas cartas na manga que faziam a magia do mágico. Nem o suspense, pausado em gotinhas homeopáticas de tambores rufando. Ou mesmo a assistente bonita, com suas roupas coladas e brilhosas.

Ali, à frente da pista.  Administrando truques entre bolsos e fundos falsos. Acontecia mágica quando os olhares todos por sobre o mágico, empatizados, sentiam-se também capazes de determinar o curso e o tempo.

Abracadabra.  E a bolinha que havia desaparecido reaparecia.

Sopro. E o passarinho branco voava, mas antes era um lenço.

Racionalmente ensandecido, o mágico sutilmente subvertia as mentes, guiando-as por tão doce ilusão.  Não importava se impossível. De alguma forma, era real.

Saíam personagens os que entraram plateia no espetáculo.  Enquanto o ator principal encerrava a noite com o maior de todos os números: o de fazer as pessoas acreditarem que o improvável, prescindíveis técnicas e compartimentos secretos, seria mera questão de dizer ao tempo alguma palavra mágica.

domingo, 5 de julho de 2015

Sentença.

Porque vivia mais rápido que o tempo, a morte a espreitava já a mais de um quarteirão. Entre uma medicação e outra, entreolhavam-se. Os mais sábios, em experiência e lógica, a aconselhariam a deixar-se ir docemente, tão infinitos somos depois de nós. E agradecer.

Mas ela tinha um amor.

Por isso a agonia. Por isso o respiro gritando tosse, teimando vida. E todo o desespero, e desejo. Ainda mais do que ela ou ele, era pela linda promessa que lhes sombreara a vida, de ambos em uma. Promessas são palavras que falamos e não se desfazem mais. Era caso de amor eterno: já estava dito.

Inescapável, a morte e suas passadas avessas bem mais de perto sopravam-lhe a cantiga do sono. Quase rente ao coração em gemidos. Foi por impulso, levantou-se e decidiu falar ao homem ainda uma vez. Ou, na verdade, sobre todas as vezes.

- Que era eterno o amor. E imenso o tempo. Que os fios da vida quando desenrolamos para bordar um tapete às vezes é obra para mais de um fio só. Se não por ele, pelo amor que os unia, que deixasse a porta aberta, quando dos dois restasse apenas um. Para, então, amanhecer.

Por dentro, sabia que, bordado o tapete, pisar-se-iam, sobre um, todos. Ela, ele e a futura cor. Pois que não ser mais ou não ter sido antes são adagas empunhadas contra o peito de quem amou como seu a alguém. E o que entendia a morria lentamente.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...