No espelho, a barriga lisa fingia instante esquecer o pensar num filho. Pois é matéria demasiado complicada comer manias e paixões e ao fim pesar, por dentro, a sustança do feijão. Os filhos só conhecem a porta da frente, e atravessam medos e limites nossos, dedo em riste, querendo vida e mais vida.
A eles não se engana dando comida ao invés de alimento. Tampouco se interessam por livros a menos que sintam de você que podem fazer história. Filho é uma batida que começa a pulsar dentro, mas que depois ultrapassa tudo no mundo.
No quarto cinza, por entre projetos engavetados e estantes de sonhos empoeirados por décadas, haveria um filho. Mas, para então, era preciso que a mulher despertasse do rotineiro transe da mesmice e transformasse tudo em si numa única cor viva de verdade. Para, pintando, desgastar-se amorosamente, como óleo em tela, até acabar.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 28 de fevereiro de 2016
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Minutos.
A respiração marcava o tempo que escorria pelo ralo que haveria de engolir-lhe, ao fim, a esperança. Por isso, ela tentava não respirar. Involuntariamente. Até o ponto em que as narinas enchiam-se de inevitabilidade, vorazes. - Que assim fosse, comandava-lhe o cérebro. Sem que o assentisse o coração.
Ele não chegaria. Da mesma forma que os seus sonhos, planos e desejos mais simples.
De medo, já nem olhava o relógio.
Avestruz, com a cabeça chafurdada numa lata de refrigerante, à entrada do cinema. Sob os olhares-mundo dos mudos.
Ele não chegaria. Da mesma forma que os seus sonhos, planos e desejos mais simples.
De medo, já nem olhava o relógio.
Avestruz, com a cabeça chafurdada numa lata de refrigerante, à entrada do cinema. Sob os olhares-mundo dos mudos.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Mau humor matinal.
Ela poderia não abrir a janela. Mas, se abrisse, o vento da manhã a invadiria com as certezas mais irrefutáveis. Docemente. Ao grasnado dos passarinhos.
Seus olhos fechados tentavam construir pesadelos. Ainda inebriados de uma turvez noturna. Qualquer coisa seria melhor do que acordar e contar as calorias do cereal, ou lembrar do chefe.
Mas é que lá fora, enquanto o sol esquentava os carros que evaporavam os segundos parcos do dia no vai-não-vai dos sinais de trânsito, reinava rotineiro o azul do céu. Em animada animosidade. Como quem reclama do preço daquilo que sabe que nunca vai faltar.
Seus olhos fechados tentavam construir pesadelos. Ainda inebriados de uma turvez noturna. Qualquer coisa seria melhor do que acordar e contar as calorias do cereal, ou lembrar do chefe.
Mas é que lá fora, enquanto o sol esquentava os carros que evaporavam os segundos parcos do dia no vai-não-vai dos sinais de trânsito, reinava rotineiro o azul do céu. Em animada animosidade. Como quem reclama do preço daquilo que sabe que nunca vai faltar.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
A graça é leve.
Porque o fardo que trazia consigo a cansava, nem sempre os dias eram fáceis. Às vezes, quando levantava rápido demais, era preciso urgentemente respirar fundo em sua sede para aclarar a vista. Ao que ela disfarçava a tontura, com um sorriso opaco. Noutras, simplesmente o peito a abafava. Para que não gritasse. Nem rasgasse as páginas todas do seu calendário a cada nova ou velha agonia resiliente. Como uma mordaça.
Certa noite, cabeça no travesseiro, o peso que carregava sufocou-lhe os pensamentos. Seus despertos olhos fechados preferiam não enxergar a dura cama, que a trocava de posição com supliciosa ginástica de culpas. Ela ainda buscava ocupar a mente contando ovelhas, mas temia que, juntamente consigo, todas despressurizassem. Sucumbindo ao medo e ao horror.
Por último, em sobressalto, acordou a luz, e então chorou. Foi quando, às preces, o céu se abriu, em forma de leão. O senhor da fúria e da paz a colocou para dormir - lá fora explodiam bombas e mísseis - e então a marcou solenemente com sua pluma, e pintou aquela manhã de amarelo e azul, e todas as outras.
Certa noite, cabeça no travesseiro, o peso que carregava sufocou-lhe os pensamentos. Seus despertos olhos fechados preferiam não enxergar a dura cama, que a trocava de posição com supliciosa ginástica de culpas. Ela ainda buscava ocupar a mente contando ovelhas, mas temia que, juntamente consigo, todas despressurizassem. Sucumbindo ao medo e ao horror.
Por último, em sobressalto, acordou a luz, e então chorou. Foi quando, às preces, o céu se abriu, em forma de leão. O senhor da fúria e da paz a colocou para dormir - lá fora explodiam bombas e mísseis - e então a marcou solenemente com sua pluma, e pintou aquela manhã de amarelo e azul, e todas as outras.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Pela estrada afora.
Ela previa o final das histórias e sentia que aquele seria lindo e pleno. Quando, depois da página 20, inventou que deveria também ser temprano para ser tempestivo. E encasquetou de encontrar um atalho para si própria.
A busca pelo caminho curto consumia-lhe dias e noites. Virara a razão principal do seu curso. O motivo pelo qual parou de trabalhar, de comemorar datas, de sorrir com os amigos. Era preciso ter prioridades.
Em algum ponto nas curvas floridas do caminho longo, o amor a esperava. Junto com tudo aquilo que realmente importa. Mas ela buscava um atalho, e a certeza da existência das almejadas finalidades belas no caminho longo não poderia importuná-la neste primeiro, custoso e sobrepujante mister.
Um dia, ela cansou de se dar inteira ao meio. Talvez no mesmo dia em que o fim cansou de esperá-la, na oposta direção certa. Então, descobriu-se escassa, rasa e tonta, tentando dirigir a vida como quem, em uma curta pista, roda num carrinho de bate-bate.
Bate-batendo o coração.
A busca pelo caminho curto consumia-lhe dias e noites. Virara a razão principal do seu curso. O motivo pelo qual parou de trabalhar, de comemorar datas, de sorrir com os amigos. Era preciso ter prioridades.
Em algum ponto nas curvas floridas do caminho longo, o amor a esperava. Junto com tudo aquilo que realmente importa. Mas ela buscava um atalho, e a certeza da existência das almejadas finalidades belas no caminho longo não poderia importuná-la neste primeiro, custoso e sobrepujante mister.
Um dia, ela cansou de se dar inteira ao meio. Talvez no mesmo dia em que o fim cansou de esperá-la, na oposta direção certa. Então, descobriu-se escassa, rasa e tonta, tentando dirigir a vida como quem, em uma curta pista, roda num carrinho de bate-bate.
Bate-batendo o coração.
Assinar:
Postagens (Atom)
Poema de Halloween.
Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato. Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...
-
Quando o meu pior medo pulou da caixa dos temores para o meio da rua era como se esta rua já nem fosse mais tão minha assim. Então, me...
-
Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato. Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...
-
Talvez eu tenha algo a dizer sobre o tempo que passa que ultrapasse as pequenas ganâncias que moram em mim e querem dominar o mundo. Sempre ...