domingo, 28 de fevereiro de 2016

Criação II.

No espelho, a barriga lisa fingia instante esquecer o pensar num filho. Pois é matéria demasiado complicada comer manias e paixões e ao fim pesar, por dentro, a sustança do feijão. Os filhos só conhecem a porta da frente, e atravessam medos e limites nossos, dedo em riste, querendo vida e mais vida.

A eles não se engana dando comida ao invés de alimento. Tampouco se interessam por livros a menos que sintam de você que podem fazer história. Filho é uma batida que começa a pulsar dentro, mas que depois ultrapassa tudo no mundo.

No quarto cinza, por entre projetos engavetados e estantes de sonhos empoeirados por décadas, haveria um filho. Mas, para então, era preciso que a mulher despertasse do rotineiro transe da mesmice e transformasse tudo em si numa única cor viva de verdade. Para, pintando, desgastar-se amorosamente, como óleo em tela, até acabar.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Minutos.

A respiração marcava o tempo que escorria pelo ralo que haveria de engolir-lhe, ao fim, a esperança. Por isso, ela tentava não respirar. Involuntariamente. Até o ponto em que as narinas enchiam-se de inevitabilidade, vorazes. - Que assim fosse, comandava-lhe o cérebro. Sem que o assentisse o coração.

Ele não chegaria. Da mesma forma que os seus sonhos, planos e desejos mais simples.

De medo, já nem olhava o relógio.

Avestruz, com a cabeça chafurdada numa lata de refrigerante, à entrada do cinema. Sob os olhares-mundo dos mudos.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Mau humor matinal.

Ela poderia não abrir a janela. Mas, se abrisse, o vento da manhã a invadiria com as certezas mais irrefutáveis. Docemente. Ao grasnado dos passarinhos.

Seus olhos fechados tentavam construir pesadelos. Ainda inebriados de uma turvez noturna. Qualquer coisa seria melhor do que acordar e contar as calorias do cereal, ou lembrar do chefe.

Mas é que lá fora, enquanto o sol esquentava os carros que evaporavam os segundos parcos do dia no vai-não-vai dos sinais de trânsito, reinava rotineiro o azul do céu. Em animada animosidade. Como quem reclama do preço daquilo que sabe que nunca vai faltar.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

A graça é leve.

Porque o fardo que trazia consigo a cansava, nem sempre os dias eram fáceis. Às vezes, quando levantava rápido demais, era preciso urgentemente respirar fundo em sua sede para aclarar a vista. Ao que ela disfarçava a tontura, com um sorriso opaco. Noutras, simplesmente o peito a abafava. Para que não gritasse. Nem rasgasse as páginas todas do seu calendário a cada nova ou velha agonia resiliente. Como uma mordaça.

Certa noite, cabeça no travesseiro, o peso que carregava sufocou-lhe os pensamentos. Seus despertos olhos fechados preferiam não enxergar a dura cama, que a trocava de posição com supliciosa ginástica de culpas. Ela ainda buscava ocupar a mente contando ovelhas, mas temia que, juntamente consigo, todas despressurizassem. Sucumbindo ao medo e ao horror.

Por último, em sobressalto, acordou a luz, e então chorou. Foi quando, às preces, o céu se abriu, em forma de leão. O senhor da fúria e da paz a colocou para dormir - lá fora explodiam bombas e mísseis - e então a marcou solenemente com sua pluma, e pintou aquela manhã de amarelo e azul, e todas as outras.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Pela estrada afora.

Ela previa o final das histórias e sentia que aquele seria lindo e pleno. Quando, depois da página 20, inventou que deveria também ser temprano para ser tempestivo. E encasquetou de encontrar um atalho para si própria.

A busca pelo caminho curto consumia-lhe dias e noites. Virara a razão principal do seu curso. O motivo pelo qual parou de trabalhar, de comemorar datas, de sorrir com os amigos. Era preciso ter prioridades.

Em algum ponto nas curvas floridas do caminho longo, o amor a esperava. Junto com tudo aquilo que realmente importa. Mas ela buscava um atalho, e a certeza da existência das almejadas finalidades belas no caminho longo não poderia importuná-la neste primeiro, custoso e sobrepujante mister.

Um dia, ela cansou de se dar inteira ao meio. Talvez no mesmo dia em que o fim cansou de esperá-la, na oposta direção certa. Então, descobriu-se escassa, rasa e tonta, tentando dirigir a vida como quem, em uma curta pista, roda num carrinho de bate-bate.

Bate-batendo o coração.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...