Fora malvada. Mas isso foi ontem, e já hoje ninguém precisava saber. No espelho, o mesmo rosto mascarado a que a vida pandêmica se ia acostumando. Ao bater a porta, em relance, viu restos de comida no prato do café da manhã. Pensou nos venezuelanos na rua, que passavam fome. Custava-lhe admitir a perversidade de saber que ia omiti-los de si mesma. Ainda má.
Circulava na rua, filtrando e escasseando o ar a cada respirada. Desviando da gente. Se escondendo de si. Fora malvada sim, porque poderia ter intercedido por alguém que precisava ontem, no trabalho, e não o fez. Aos inimigos a lei. E em seu coração - outrora quentinho - já não cabiam amigos. O alguém não tinha como pagar o aluguel. Ela nada fez. Ela, que tinha casa, comida e emprego. No caminho, um homem pedia dinheiro em troca de bala de goma com uma plaquinha de papelão, onde narrava ter família. Hoje-não-moço-desculpe.
Não teria sido favor. Não se ela fosse um ser humano.
Alerta vermelho de declínio de temperatura. Fim de expediente. Lá vem a chuva derrubando mais dez graus. Na rua, muitos se encolhem. De noite, se encolherão ainda mais.
Ela tira o casaco e o entrega a um senhor sentadinho sem sapatos que se abraçava. Sai sentindo frio e respingando consciência. De dentro de si, porém, sai um grunhidinho de inseto. Tirasse a máscara, saberia. Já não era mais gente. Era barata, tentando limpar-se no sabão da pasta de dente.