O homem que deixou a alma de lado buscava dinheiro dentro de um pote sem fundo. Quando a viu passar. Ela: a quem tinha jurado amor e todas as cores.
Por causa dela, a urgência em ter com que pagar as contas. De ter como comprar o céu. E um enfeite bonito, e diamantes para coroar o amor inteiro que lhe trazia no coração.
Enquanto ela dobrava a esquina, o homem virou para o lado onde deixara a alma a fim de ter como mostrar-lhe de si o todo, quando percebeu que sumiu. Não uma, mas as duas coisas. E já nem mais lágrimas lhe restaram para chorar a solidão.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 12 de maio de 2019
domingo, 21 de abril de 2019
Update da alma.
Quando o meu pior medo
pulou da caixa dos temores
para o meio da rua
era como se esta rua
já nem fosse mais tão minha assim.
Então, me recusei a pisar no chão,
pulando, por sobre galhos de planta
e ombros de amigos desesquecidos,
que ficaram pesados de tamanho chorar...
Foi quando ele veio, me jogou no chão
e trocou meus olhos.
Aí eu vi um caminho refeito
de fantasmas apequenados pelo coração sereno
que faz novas todas as coisas
e transforma noites em manhãs.
Todo dia.
pulou da caixa dos temores
para o meio da rua
era como se esta rua
já nem fosse mais tão minha assim.
Então, me recusei a pisar no chão,
pulando, por sobre galhos de planta
e ombros de amigos desesquecidos,
que ficaram pesados de tamanho chorar...
Foi quando ele veio, me jogou no chão
e trocou meus olhos.
Aí eu vi um caminho refeito
de fantasmas apequenados pelo coração sereno
que faz novas todas as coisas
e transforma noites em manhãs.
Todo dia.
domingo, 24 de março de 2019
Cotidiano.
A musa de todos os dias seguia de cabelos assanhados e presos a pensar que poderia bem fazer as unhas no sábado. Enquanto a musa dos idílios passava ao lado, vestida de festa, espalhando um cheirinho suave e francês.
Não tardava, e a musa de todos os dias voltaria para o seu poeta. Para sorver-lhe o olhar inquietado em meio ao café com pão. E fazê-lo reparar nos cores do rótulo de margarina, rir das ironias do jornal, aturar com leveza alguma nova implicância do vizinho...
Ela o faria deitar tranquilo. Acalmaria seus pensamentos tornando-os iguais, mas belos. De sorte que, se ele dormisse até mais tarde, ainda sonharia.
Mas não com ela. Ele sonharia com a musa dos idílios. À outra escreveria versos, enquanto a musa de todos os dias não recebia sequer palavra.
E isso enquanto não houver justiça no mundo. Porque, quando houver, as noites, os dias e os amores serão inteiros e sempre da musa de todos os dias.
Não tardava, e a musa de todos os dias voltaria para o seu poeta. Para sorver-lhe o olhar inquietado em meio ao café com pão. E fazê-lo reparar nos cores do rótulo de margarina, rir das ironias do jornal, aturar com leveza alguma nova implicância do vizinho...
Ela o faria deitar tranquilo. Acalmaria seus pensamentos tornando-os iguais, mas belos. De sorte que, se ele dormisse até mais tarde, ainda sonharia.
Mas não com ela. Ele sonharia com a musa dos idílios. À outra escreveria versos, enquanto a musa de todos os dias não recebia sequer palavra.
E isso enquanto não houver justiça no mundo. Porque, quando houver, as noites, os dias e os amores serão inteiros e sempre da musa de todos os dias.
sábado, 9 de março de 2019
Cont̶r̶a̶gosto.
Ela fez as malas com muito menos do que precisava, pois o
essencial pesa bem mais que 23kg. E, como nada é realmente banal, levou consigo
uma avolumada caixa de chocolates que ganhara de presente dias antes. Ao
contrário da rede de lojas de doces, o afeto familiar corporificado ali não
estaria tangível a quase três mil quilômetros. Entre o ar e as lágrimas, cria
que da vida as sementes viram casas - e umas tantas assim carregava no coração. Voando insopesadas.
Ela creu que ele iria com ela. Que a cada momento estaria
ali. Que a tomaria pela mão, como sempre. Ele, o dono de tudo. A quem ela
tantas vezes tentara persuadir que lhe desse listas e listas coisas que queria-só-porque-queria.
Mas a verdade é que nos últimos e atordoados anos ela tinha sido como a criança
que grita e o pai finge não ouvir. Porque não fez o dever de casa, ou porque
fez alguma arte para a qual não há negociação. Ou porque precisa aprender a
falar no tom certo, mocinha. O seu coração confiava no caráter e no poder que
ele tinha de transformar o mal em bem, e o bem em responsabilidade. E ela já
estava exausta de não ir para onde o dedo dele apontava, então seguiu.
Para trás, uma vida inteira. No presente, ao invés das
próprias escolhas, vestia a roupa que ele separou. À frente, não mais que a
certeza de que ele a transformaria naquilo que, desde o princípio, era para ela
ser. Mudinha, despida do tronco da planta-mãe e da sombra dos galhos-irmãos.
Tostava-lhe o sol. Molhava-lhe a chuva. Do céu, olhava por ela o Criador.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
Poesia crua. (Ou: Poema para Fábio Maciel)
O papel em branco
pode ter qualquer cor
desde que espelhe a alma.
(Ou coisa que por ela ande.)
O que amo em ti
- não houvesse palavra -
escreveria igual:
Para ler a mordidos lábios.
pode ter qualquer cor
desde que espelhe a alma.
(Ou coisa que por ela ande.)
O que amo em ti
- não houvesse palavra -
escreveria igual:
Para ler a mordidos lábios.
Enquanto.
Ele a amava
como se espera uma fruta amadurecer no pé. Porque não estavam prontos. Num
mundo em pó solúvel instantâneo.
Tinha dia que chovia, dia que fazia sol. Sobretudo, tinham dias. Com vinte e quatro horas, de sessenta minutos cada. E se ele a esperava contando as gotas e os fios de sol, contando os segundos, era porque tinha certeza no coração.
Por amor é que regava as plantas do quintal, como se fosse obrigação diária. Ele - que sempre estava com pressa demais. Parava ali seus instantes melhores, sob um céu laranja de amores certos e temporãos.
Apaixonado.
Tinha dia que chovia, dia que fazia sol. Sobretudo, tinham dias. Com vinte e quatro horas, de sessenta minutos cada. E se ele a esperava contando as gotas e os fios de sol, contando os segundos, era porque tinha certeza no coração.
Por amor é que regava as plantas do quintal, como se fosse obrigação diária. Ele - que sempre estava com pressa demais. Parava ali seus instantes melhores, sob um céu laranja de amores certos e temporãos.
Apaixonado.
domingo, 13 de janeiro de 2019
O pó e a espuma.
Um dia, o mar se apaixonou por uma onda, mas deixou que ela passasse. Desde então, repetia sempre a mesma receita de marés e quebradas, mas a vaga que se tinha ido não retornaria jamais. E mesmo que voltasse, o que ele poderia esperar? Mudam-se os tempos e a vida e, sem promessas, transformam-se os afetos. Apenas o passado guarda o mistério de qual amor deveras foi ou não correspondido.
O mar retinha consigo doces lembranças. Como a onda refletia o céu, como sumiu na areia fina. Mas, de chorar, as salgava com lágrimas numa amplidão sem fim.
Na praia, a mulher de olhos envidraçados reparava mais uma onda apaixonada surgindo sem que o mar a fosse bem-querer jamais. Repetição que era - imperfeita e esquálida - da ideal de outrora. Desexistiria com a desolação de quem não conheceu o amor, sem sequer reparar no surfista que sobre suas águas se lançava com a alegria de quem encontra beleza e perfeição maior. Alheia, fora a única entre tantas, para ele.
Entre suspiros, a mulher não entendia por que o gingado do surfista eternamente em looping no seu coração lhe escapava no fim da tarde, carregando-se para fora do mar com a prancha. Ou por que razão, se incontestavelmente eterno, aquele verão não poderia durar por todo o sempre.
O mar retinha consigo doces lembranças. Como a onda refletia o céu, como sumiu na areia fina. Mas, de chorar, as salgava com lágrimas numa amplidão sem fim.
Na praia, a mulher de olhos envidraçados reparava mais uma onda apaixonada surgindo sem que o mar a fosse bem-querer jamais. Repetição que era - imperfeita e esquálida - da ideal de outrora. Desexistiria com a desolação de quem não conheceu o amor, sem sequer reparar no surfista que sobre suas águas se lançava com a alegria de quem encontra beleza e perfeição maior. Alheia, fora a única entre tantas, para ele.
Entre suspiros, a mulher não entendia por que o gingado do surfista eternamente em looping no seu coração lhe escapava no fim da tarde, carregando-se para fora do mar com a prancha. Ou por que razão, se incontestavelmente eterno, aquele verão não poderia durar por todo o sempre.
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Poema de Halloween.
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Talvez eu tenha algo a dizer sobre o tempo que passa que ultrapasse as pequenas ganâncias que moram em mim e querem dominar o mundo. Sempre ...