Ela fez as malas com muito menos do que precisava, pois o
essencial pesa bem mais que 23kg. E, como nada é realmente banal, levou consigo
uma avolumada caixa de chocolates que ganhara de presente dias antes. Ao
contrário da rede de lojas de doces, o afeto familiar corporificado ali não
estaria tangível a quase três mil quilômetros. Entre o ar e as lágrimas, cria
que da vida as sementes viram casas - e umas tantas assim carregava no coração. Voando insopesadas.
Ela creu que ele iria com ela. Que a cada momento estaria
ali. Que a tomaria pela mão, como sempre. Ele, o dono de tudo. A quem ela
tantas vezes tentara persuadir que lhe desse listas e listas coisas que queria-só-porque-queria.
Mas a verdade é que nos últimos e atordoados anos ela tinha sido como a criança
que grita e o pai finge não ouvir. Porque não fez o dever de casa, ou porque
fez alguma arte para a qual não há negociação. Ou porque precisa aprender a
falar no tom certo, mocinha. O seu coração confiava no caráter e no poder que
ele tinha de transformar o mal em bem, e o bem em responsabilidade. E ela já
estava exausta de não ir para onde o dedo dele apontava, então seguiu.
Para trás, uma vida inteira. No presente, ao invés das
próprias escolhas, vestia a roupa que ele separou. À frente, não mais que a
certeza de que ele a transformaria naquilo que, desde o princípio, era para ela
ser. Mudinha, despida do tronco da planta-mãe e da sombra dos galhos-irmãos.
Tostava-lhe o sol. Molhava-lhe a chuva. Do céu, olhava por ela o Criador.
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