domingo, 27 de agosto de 2017

Telefone vermelho.

Separados pela distância, os amigos caminhavam sempre juntos. Que o existir, por diverso que fosse, é matéria que cola almas irmanadas como um ímã. Um amigo é como um irmão a quem não se xinga. Editados os momentos bons. Recortados e colados nas paredes interiores equilibristicamente sólitas. O para sempre seria sinônimo puro para a temporização da amizade, sempre tão jovem na mente.

Foi quando naquela manhã - há quanto tempo! - um amigo não reconheceu a voz do outro pelo telefone.

Desde então, dos dessintonizados fios, o que escorre é uma solidão súbita, gelada e animosina, ponte/ilhada como se por agulhas. Ou flepas. Ou farpas de sanguezinho nuclearmente endurecido a trespassar as dores da remoto-obliteração.

Graham sequer inventaria o telefone se não tivesse para quem ligar.

sábado, 12 de agosto de 2017

Devaneio.

Quando as curvas da colina acabaram e ela finalmente chegaria à ponta do arco-íris, o tapete colorido estendido debaixo de si sumiu. Sendo que todos os outros colegas, tal como os imaginava, já haviam conseguido alcançar as nuvens, festejando com buzinas e dancinhas - que a essa altura pareciam ridículas. Não era inveja.

Até então, havia sido invariavelmente complacente. Com o inatingível das estrelas. Com as paisagens do Windows. Com as crianças e os animais. Mantivera a crença de que o que não fosse belo haveria de tornar-se alegre, sendo questão de ligar a trilha sonora certa, escolher a melhor luz para fotograr, ou editar o vídeo.

No chão de restos, garganta seca, olhos inchados, tudo parecia preto e branco. Lojas, capôs de carro, outdoors. E o homem que a esperava, estendendo-lhe o coração. E o problema de olhar para o céu ainda mais uma vez seria desperceber a única cor do mundo real ali, diante de si.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...