Quando ela saiu de casa, o homem achou que não mais existia.
Ou: não fosse a dor, acreditaria. O anel no seu dedo esquerdo era a certeza que
tinha da vida. As promessas que fazemos nos constroem o chão, caminhamos por
cima dele e construímos planos. Sonhados. Desejados. Arquitetados. Apainelados.
Protegidos.
Como a filha.
Por isso, esperava que ela retornasse. Eram pais de uma filha, elo ao qual o homem zelosamente se agarrava, como a uma tábua de salvação. Velando. Cuidando.
Perscrutando. Alimentando. Levando e trazendo da escola. Não fugisse também.
A menina era a casca rasa da ferida purulenta do seu
coração. Sem ela, ele escoaria pelo ralo feito o esgoto onde estão as palavras
que falamos e depois desejamos nunca ter dito. As promessas que fazemos e
cobrimos inteiras de tacanho arrependimento. O chiclete mastigado e sem gosto que
custou cinco centavos. A etiqueta da roupa que já não usamos e de que nem lembramos mais.