quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Salgueiro.

Quando ela saiu de casa, o homem achou que não mais existia. Ou: não fosse a dor, acreditaria. O anel no seu dedo esquerdo era a certeza que tinha da vida. As promessas que fazemos nos constroem o chão, caminhamos por cima dele e construímos planos. Sonhados. Desejados. Arquitetados. Apainelados. Protegidos.

Como a filha.

Por isso, esperava que ela retornasse. Eram pais de uma filha, elo ao qual o homem zelosamente se agarrava, como a uma tábua de salvação. Velando. Cuidando. Perscrutando. Alimentando. Levando e trazendo da escola. Não fugisse também.

A menina era a casca rasa da ferida purulenta do seu coração. Sem ela, ele escoaria pelo ralo feito o esgoto onde estão as palavras que falamos e depois desejamos nunca ter dito. As promessas que fazemos e cobrimos inteiras de tacanho arrependimento. O chiclete mastigado e sem gosto que custou cinco centavos. A etiqueta da roupa que já não usamos e de que nem lembramos mais.

Aquela pequenina existência era o fundinho de um fio de amor, ralinho como as últimas gotas de água que restaram no copo em que alguém bebeu. Desértico, ele afundaria suas raízes para criar sombra, e então fazer do seu pequeno rastro de verdade um lago, um rio, um braço do mar. Não poderia mais aguentar muito, calculava. Mas não demoraria para sempre. Em meia hora ou em mil anos, ela haveria de voltar...

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Gamofobia.

Não só o jardineiro amava a rosa. Ela o amava. Desde em botão, junto às folhas e flores irmãs, ela saudava com sorrisos cotidianos. Queria ser sua. Sonhava em perfumar tão calosas mãos. Ele cuidadosamente removeria seus espinhos. Ela toleraria amorosas podas.

Era breve o amor. Não por não ser eterno, porque sempre o é. A vida é que é fugaz, especialmente para uma rosa, um serzinho que ele via mindinho, incapaz de sustentar a gravidade do mundo. Sem demora, o jardineiro a colheu, e poderiam então ser simplisticamente felizes para todo o sempre.

Só que aquela era a flor mais querida de todo o jardim (todas, à sua maneira, o são). Enamorado e detentor da efêmera eternidade alheia, o jardineiro passou a sentir-se malquisto pelas plantas do jardim. Sentia-se culpado por reter a flor ao invés de plantá-la galhada no chão. Achou que o jarro enfeitado e a água onde a retinha bem junto de si não tinham a firmeza de uma vida cravada em terra fofinha com minhocas e raízes.

Mas as plantas eram só plantas. É que a rosa era a mais fincada metáfora de um amor não ramado, retido só para si. Engravecendo-o em torno de si mesmo, enjoado por girar no eixo de uma angústia soterrada em seu próprio adentro. Amado e solitário.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...