quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Salgueiro.

Quando ela saiu de casa, o homem achou que não mais existia. Ou: não fosse a dor, acreditaria. O anel no seu dedo esquerdo era a certeza que tinha da vida. As promessas que fazemos nos constroem o chão, caminhamos por cima dele e construímos planos. Sonhados. Desejados. Arquitetados. Apainelados. Protegidos.

Como a filha.

Por isso, esperava que ela retornasse. Eram pais de uma filha, elo ao qual o homem zelosamente se agarrava, como a uma tábua de salvação. Velando. Cuidando. Perscrutando. Alimentando. Levando e trazendo da escola. Não fugisse também.

A menina era a casca rasa da ferida purulenta do seu coração. Sem ela, ele escoaria pelo ralo feito o esgoto onde estão as palavras que falamos e depois desejamos nunca ter dito. As promessas que fazemos e cobrimos inteiras de tacanho arrependimento. O chiclete mastigado e sem gosto que custou cinco centavos. A etiqueta da roupa que já não usamos e de que nem lembramos mais.

Aquela pequenina existência era o fundinho de um fio de amor, ralinho como as últimas gotas de água que restaram no copo em que alguém bebeu. Desértico, ele afundaria suas raízes para criar sombra, e então fazer do seu pequeno rastro de verdade um lago, um rio, um braço do mar. Não poderia mais aguentar muito, calculava. Mas não demoraria para sempre. Em meia hora ou em mil anos, ela haveria de voltar...

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