domingo, 23 de abril de 2017

Conto de Trancoso I.

Era de partir o coração que a aurora (desapaixonada) não aparecesse ali para desfazer tamanho mal-entendido. Talvez porque não fosse um mal-entendido. O barquinho bêbado e trôpego sairia em missão de busca e resgate do seu grande amor mesmo que fosse tarde, todos sabiam. Queimavam-lhe, densas e escuras, as raivosas ondas do mar. Doíam mais que águas-vivas.

O barquinho trôpego e louco deixava-se bolar pelas ondas de soda cáustica. Arranhando-se nas pedras e cascalhos, até perder a esperança. Atingido pelos relâmpagos da tempestade. Eram grossas, pesadas e amargas as balas de gota que o sacudiam, redemoinhas.

E até amanheceria. Só que, daquele barquinho, não restaria mais nada. Não em sendo ele assim como era. Suicida.

Era de doer. De partir o coração. Que o barquinho se tivesse deixado estar tão aturdido, rouco, louco e remexido.

Inexorável, irredutível.

E morto.


sábado, 22 de abril de 2017

Como sempre.

Fora longo o dia e tortuosas as estradas pelas quais teve de percorrer, já muito tarde, de volta para casa. Vazia. Mas, ainda assim, uma casa. Um lugar que, qualquer dia desses, bem se poderia encher de pertences. Quando o fracasso bateu à porta. Ele costumava fazer isso todas as noites.


Como antes, o homem não teria com que fazer barricadas para impedi-lo de entrar. Os vizinhos não veriam motivo de preocupação na visita contumaz de um velho conhecido a um pobre desguarnecido. Os legalistas achariam justíssima a intervenção, e os generosos buscariam enxergar algum mérito por entre os defeitos do intruso indesejado.

O homem estava encurralado pelo fracasso e pelas riquezas que não conseguira acumular. E muito urravam, esbravejavam, caçoavam. Mas ele sabia que não tinha o que temer. Ele era feito de tijolos, e resistiria ao sopro do Lobo Mau.

domingo, 2 de abril de 2017

Bituca.

Um dia, o palhaço olhou para seu nariz vermelho e não viu graça. Até porque, com os anos, já ninguém mais lhe notava o encanto mesmo. Além disso, estava velho e cansado. Enquanto surgiam, corriqueiramente, caras novas e lavadas fazendo comédia em pé. Um artista deve saber o clímax da própria vida para, a partir de então, bater em retirada. Haverá, quem sabe, algum segredo consolador em seguir e viver à sombra dos refletores.

Por detrás da cortina, ele espiava a plateia embeber-se de tramas alheias. Com as mãos, apertava o próprio coração. Para que coubesse na mala - já repleta de lenços descoloridos, uma velha pancake esfarinhada e truques de lógica. E viagens tantas. Que, ainda assim, nada somavam perto das jornadas que vivera no picadeiro, transcendentalmente, espetáculo após espetáculo.

O palhaço gastara todas as suas cores a colorir noites. Restavam-lhe o fim e a esperança de que, por algum resquício de gratidão, a vigília de agora o enluarasse a ele. Tornando-o etéreo, ainda que monocromático. Reduzido à essência que seduz e ilumina os sonhos dos que hão de vir.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...