No dia em que ele a ameaçou com flores, ela ficou brava como não se pôde entender. É que cada pétala era intrínseco dardo, num assalto qualificado de coração.
E, por ter-lhe trancado dos sentimentos a porta, as flechas então cravadas a doíam. Sangradas. Sem que a ele fosse imputada qualquer tipicidade.
O que mais sei é que, por agonia, ela o procurou. Abriu-lhe a carteira. Entregou identidade, impressões digitais e tudo de mais valor que em si existia. Desde então, e para sempre, a tiveram por desculpavelmente feliz e louca.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Resiliência.
Nos momentos difíceis, acalantavam-lhe a alma as batidas intermitentes de um coração que prometeu nunca deixá-la, enquanto vivesse. Eram, ela e ele, um só. Indivisíveis. Mas não exatamente inseparáveis.
Inclusive ali, na UTI. Era como se metade de si recheasse mornamente um corpo estático. Enquanto almas e corações restavam unos. Ela, madura e eterna demais. Ele, cansado e irremediavelmente pretérito.
E quando o último respiro fechou a porta, apagando a luz, a alma concluiu que solidão não era desexistir. Era existir, depois. Quando a agonia última, feita de certezas lancinantes sendo mastigadas e engolidas por um buraco negro, comprimisse-lhe cores em dores.
Dentro do corpo entregue aos vermes, a metade sem vida do coração putrefava junto às promessas lindas e fiéis de antes. Decompondo a viúva. Ao tempo em que do ontem ter um dia existido remanescia-lhe a vida que ainda é. E que urge tão cotidiana quanto limpar o pó da casa. Como partículas suspensas de saudade a pousar em memórias.
Inclusive ali, na UTI. Era como se metade de si recheasse mornamente um corpo estático. Enquanto almas e corações restavam unos. Ela, madura e eterna demais. Ele, cansado e irremediavelmente pretérito.
E quando o último respiro fechou a porta, apagando a luz, a alma concluiu que solidão não era desexistir. Era existir, depois. Quando a agonia última, feita de certezas lancinantes sendo mastigadas e engolidas por um buraco negro, comprimisse-lhe cores em dores.
Dentro do corpo entregue aos vermes, a metade sem vida do coração putrefava junto às promessas lindas e fiéis de antes. Decompondo a viúva. Ao tempo em que do ontem ter um dia existido remanescia-lhe a vida que ainda é. E que urge tão cotidiana quanto limpar o pó da casa. Como partículas suspensas de saudade a pousar em memórias.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Verde, a esperança é minha!
Já era tarde, e mesmo assim o papagaio-louro-do-bico-dourado dava bom dia, como quem persistia ao repetir. Envoltas em amarelo, às suas cinzas pálpebras cerradas fugia o céu azul do sempre nunca. Elas escondiam seus olhos. Ele tinha as asas cortadas.
Para que não voasse.
Mas era pássaro.
Para que não voasse.
Mas era pássaro.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Grito e guerra.
Foi quando pediu ao namorado que matasse a barata, e ele não matou (alegando que se escondera debaixo do sofá), que a agonia noturna por conhecer a existência de um perigo viscoso e próximo cresceu. Invisível.
Tique-taque.
Inerte, o homem despediu-se caminhando rumo à praça, seguindo para o outro lado da cidade no ônibus das onze. Deixando-a a sós com o algoz, a chinelos limpos.
...
Na penumbra, a solidão da mulher a restava. Fugida do sono pelo coração, o qual arguia que colocar a cabeça no travesseiro seria como fechar os olhos para o conformismo gigante que sapateava na sala. Ou dar razão aos que se escondem nos cantos, que se esgueiram nas preguiçosas brechas das desculpas. Aplaudir a quem nunca apóia a revolução.
Então, o baygon que ela de si espremeu matou a noite, a barata, o rapaz e todos os seus emplastos.
Tique-taque.
Inerte, o homem despediu-se caminhando rumo à praça, seguindo para o outro lado da cidade no ônibus das onze. Deixando-a a sós com o algoz, a chinelos limpos.
...
Na penumbra, a solidão da mulher a restava. Fugida do sono pelo coração, o qual arguia que colocar a cabeça no travesseiro seria como fechar os olhos para o conformismo gigante que sapateava na sala. Ou dar razão aos que se escondem nos cantos, que se esgueiram nas preguiçosas brechas das desculpas. Aplaudir a quem nunca apóia a revolução.
Então, o baygon que ela de si espremeu matou a noite, a barata, o rapaz e todos os seus emplastos.
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