quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Inimputável.

No dia em que ele a ameaçou com flores, ela ficou brava como não se pôde entender. É que cada pétala era intrínseco dardo, num assalto qualificado de coração.

E, por ter-lhe trancado dos sentimentos a porta, as flechas então cravadas a doíam. Sangradas. Sem que a ele fosse imputada qualquer tipicidade.

O que mais sei é que, por agonia, ela o procurou. Abriu-lhe a carteira. Entregou identidade, impressões digitais e tudo de mais valor que em si existia. Desde então, e para sempre, a tiveram por desculpavelmente feliz e louca.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Resiliência.

Nos momentos difíceis, acalantavam-lhe a alma as batidas intermitentes de um coração que prometeu nunca deixá-la, enquanto vivesse. Eram, ela e ele, um só. Indivisíveis. Mas não exatamente inseparáveis.

Inclusive ali, na UTI. Era como se metade de si recheasse mornamente um corpo estático. Enquanto almas e corações restavam unos. Ela, madura e eterna demais. Ele, cansado e irremediavelmente pretérito.

E quando o último respiro fechou a porta, apagando a luz, a alma concluiu que solidão não era desexistir. Era existir, depois. Quando a agonia última, feita de certezas lancinantes sendo mastigadas e engolidas por um buraco negro, comprimisse-lhe cores em dores.

Dentro do corpo entregue aos vermes, a metade sem vida do coração putrefava junto às promessas lindas e fiéis de antes. Decompondo a viúva. Ao tempo em que do ontem ter um dia existido remanescia-lhe a vida que ainda é. E que urge tão cotidiana quanto limpar o pó da casa. Como partículas suspensas de saudade a pousar em memórias.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Verde, a esperança é minha!

Já era tarde, e mesmo assim o papagaio-louro-do-bico-dourado dava bom dia, como quem persistia ao repetir. Envoltas em amarelo, às suas cinzas pálpebras cerradas fugia o céu azul do sempre nunca. Elas escondiam seus olhos. Ele tinha as asas cortadas.

Para que não voasse.

Mas era pássaro.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Grito e guerra.

Foi quando pediu ao namorado que matasse a barata, e ele não matou (alegando que se escondera debaixo do sofá), que a agonia noturna por conhecer a existência de um perigo viscoso e próximo cresceu. Invisível.

Tique-taque.

Inerte, o homem despediu-se caminhando rumo à praça, seguindo para o outro lado da cidade no ônibus das onze. Deixando-a a sós com o algoz, a chinelos limpos.

 ...

Na penumbra, a solidão da mulher a restava. Fugida do sono pelo coração, o qual arguia que colocar a cabeça no travesseiro seria como fechar os olhos para o conformismo gigante que sapateava na sala. Ou dar razão aos que se escondem nos cantos, que se esgueiram nas preguiçosas brechas das desculpas. Aplaudir a quem nunca apóia a revolução.

Então, o baygon que ela de si espremeu matou a noite, a barata, o rapaz e todos os seus emplastos.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...