Nos momentos difíceis, acalantavam-lhe a alma as batidas intermitentes de um coração que prometeu nunca deixá-la, enquanto vivesse. Eram, ela e ele, um só. Indivisíveis. Mas não exatamente inseparáveis.
Inclusive ali, na UTI. Era como se metade de si recheasse mornamente um corpo estático. Enquanto almas e corações restavam unos. Ela, madura e eterna demais. Ele, cansado e irremediavelmente pretérito.
E quando o último respiro fechou a porta, apagando a luz, a alma concluiu que solidão não era desexistir. Era existir, depois. Quando a agonia última, feita de certezas lancinantes sendo mastigadas e engolidas por um buraco negro, comprimisse-lhe cores em dores.
Dentro do corpo entregue aos vermes, a metade sem vida do coração putrefava junto às promessas lindas e fiéis de antes. Decompondo a viúva. Ao tempo em que do ontem ter um dia existido remanescia-lhe a vida que ainda é. E que urge tão cotidiana quanto limpar o pó da casa. Como partículas suspensas de saudade a pousar em memórias.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
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