domingo, 26 de fevereiro de 2017

Ensemble.

Foi numa briga de ciúmes: o homem acusou a arte de ser volúvel, e ela o acusou de não ser verdadeiro. Desde então, passaram a isolar os corpos um do outro, ao tempo em que seguiam firmes e individuais.

Ela, conceitual, não marcava os dias com relógios, mas com estados de espírito.

Ele, habitual, acordava-trabalhava-e-dormia 365 vezes e então recomeçava. Divorciado e libertino. Dado a repetições de notas sem melodia, comida sem aprumo, bebida sem ocasião e televisão sem sentimento, num ritual de hipnose.

A arte, solitária, restava-se, ainda assim. A esparsas plateias. É que corria o boato de que ela não enchia barriga. Espalhado pelo homem, é claro, que, desesperançado, também não enchia coração.

Mas o que só alguns sabiam é que, à costumeira, de quando em vez, eles se encontravam. Nas sombras. E trocavam juras de amor fisiológicas. Irremediavelmente unidos pela evidente impossibilidade de viver sem paixão.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Namoro.

No final do abraço, depois do beijo, terminados os minutos que contavam horas cheias, ele ia embora sempre. Trocando-a pela parada de ônibus. Soltando a mão que a ligava ao pertencer. Doendo em falta. Por isso, ela fechava o portão e subia a escada, com a cara trancada. Independente. Crescendo em individualidade dentro de si. Sufocando e espremendo a falta do seu amor que cruzava a esquina, reduzindo-o a um lapso.

Até quando ele voltava, depois de um dia ou dois. Renovando-lhe juras. Mas cruzando, de novo, o portão, à menor ameaça da lua e do relógio. Distante o dia em que cumprisse a promessa de amor eterno consumado com anel e festa. Chamando de lindo o rosto com que ela, enamorada e em fúria, lamentava-lhe um tchau em ultimato.

Restando, de novo, a si tão só. Presente a noite imensa. Por entre postes e prédios, a namorada sonhava com castelos, cavalos brancos e homens decididos.

Coaxavam os sapos.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Mordida no cotovelo.

Já era tarde demais
quando a aranha desdenhosa
resolveu voltar à presa.

Tanto que, então,
já não havia mais nada.
Só teias, tantas.
Que a aranha por ali ficou...

Agora mesmo,
enquanto escrevo,
a provar do próprio veneno.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Tempo real.

Ou as palavras me fogem
ou já as cansei de buscar.

Cansei de me perguntarem
comigo o que há.

Comigo, há o de sempre:
papel em branco, caneta aos dentes,
vivendo, sem graça,
na mais funda espalidão.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...