No final do arco-íris, ao invés de pote de ouro, tudo que a sonhadora encontrou foi um velho par de sapatos. Surrados e apertados. Com um solado que parecia descolado e colado outra vez. Então, chorou. Não é fácil caminhar anos de volta sem algum consolo nas mãos, a que se possa tocar. E já de nada vale a experiência para quem não tem novos desafios.
O sol era árduo. Por mais colorido que estivesse, o céu fazia-se preto ou branco. Da cor do vazio. Os amores e encantos, se outrora, soavam a mais improvável das liras.
Amarrados um ao outro, os cadarços do sapato uniam os pés que se arrastavam pelo chão, reduzindo em tamanho suas passadas. Eles estavam sujos de estrada, pois a cada pisão o solado esfacelava o asfalto em pedrinhas de piçarra. Desfazendo a pista. Tal qual o tempo fazia com ela, a cada desaniversário. Desfiando-lhe a vida. Em breve, tudo o que restaria de tanto cansaço seria matéria-prima. Esperando para decompor ou recompor, a depender de ainda remanescer-lhe a vontade última de ainda querer. E, por hora, esse foi o último relato de que se teve notícia.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 30 de agosto de 2015
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Cerco.
Um dia, uma gota única de chuva molhou a terra. E, porque era só uma gota, dela germinou uma semente bem pequena. Que, curiosa, por fim saiu da terra, esticando os olhos em suas folhinhas para espiar ao redor. O mundo era demasiado quente, e então a plantinha quis abanar-se. Fazendo um movimento bonito. Que a florzinha ao seu lado imitou. Num improvisado balé. Animado, o grilo compôs uma batucada para percussão.
Era a maior das descobertas para a plantinha, que estava longe de alcançar a perfeição de um Bolshoi. Na verdade, seu farfalhar era bastante desengonçado. Ela quase não tinha galhos. A florzinha ao seu lado não passava de uma coisinha, assim, muito minguada. E ao grilo só aceitaria acompanhar em canto o sapo. E isso, enquanto controlava o pensamento de o engolir. Afinal, a fome às vezes não faz lá grandes exigências.
Mas, ao se agitar, a plantinha imaginava o requeleque da copa mais armada. Seus amigos principiantes a tinham por mestra experiente. E, agora, que todos façam silêncio. Pois que vem passando pelas bandas de cá o Crítico, com seu crivo de cerdas de espelho cortantes...
[!!! ... ... .]
Desolada, a plantinha começou a murchar. A florzinha perdeu algumas pétalas. O grilo foi, enfim, engolido pelo sapo. Seria demais achar que todos sobreviveriam a um crivo tão espelhado. Que, ainda por cima, achatava e engordava aqueles que criticava. Cria o Crítico haver, naquela pequenez, galhos que pudesse podar. Picotando, sem dó, umas vidinhas tão tenras.
Ferido de dor, o céu chorou uma chuva desfibriladora. Mas, para o Crítico, isso não haveria de ser remédio nem castigo. Já não há mesmo com que se comova quem não tem um coração.
Era a maior das descobertas para a plantinha, que estava longe de alcançar a perfeição de um Bolshoi. Na verdade, seu farfalhar era bastante desengonçado. Ela quase não tinha galhos. A florzinha ao seu lado não passava de uma coisinha, assim, muito minguada. E ao grilo só aceitaria acompanhar em canto o sapo. E isso, enquanto controlava o pensamento de o engolir. Afinal, a fome às vezes não faz lá grandes exigências.
Mas, ao se agitar, a plantinha imaginava o requeleque da copa mais armada. Seus amigos principiantes a tinham por mestra experiente. E, agora, que todos façam silêncio. Pois que vem passando pelas bandas de cá o Crítico, com seu crivo de cerdas de espelho cortantes...
[!!! ... ... .]
Desolada, a plantinha começou a murchar. A florzinha perdeu algumas pétalas. O grilo foi, enfim, engolido pelo sapo. Seria demais achar que todos sobreviveriam a um crivo tão espelhado. Que, ainda por cima, achatava e engordava aqueles que criticava. Cria o Crítico haver, naquela pequenez, galhos que pudesse podar. Picotando, sem dó, umas vidinhas tão tenras.
Ferido de dor, o céu chorou uma chuva desfibriladora. Mas, para o Crítico, isso não haveria de ser remédio nem castigo. Já não há mesmo com que se comova quem não tem um coração.
domingo, 16 de agosto de 2015
Fim de tarde na Maranhão.
A cidade era correnteza forte que levava os carros de lá para cá, e de cá para lá. Maré que engolia as pessoas mais e mais para dentro de si. Descascadas.
Na avenida Maranhão, o Parnaíba escorre nos olhos de um outrora pescador que um dia já amou ver as cores bronzeadas do céu despencarem na água, da canoa. Agora, troca e vende vales. Sem mais confiar a escassos peixes magros o sustento. Da angústia de não ser tudo que não era, ou de desconhecer o que jamais estudou. Tristeza mais funda que o rio ilhado de areia.
Na calçada, alguém rabiscava, de caneta, um desenho sem paisagem. É que lhe amargava não ter o que não tinha, e a fraqueza queimava-lhe em pó a dor e o amor.
Outro alguém, apressado, voltava algures para procurar algo que perdeu, ou esqueceu.
A caminho da parada de ônibus, uma mulher reclama da sandália que quebrou, por tiras cansadas de tanto caminhar.
O pescador vende água, biscoito e chiclete de menta também.
Ele ainda vai escutar carros e motos passando, e buzinas, e resmungos, antes de tudo adormecer. Para, em seguida, despertar prontamente com o noticiário de um novo dia que nunca começou realmente.
Na avenida Maranhão, o Parnaíba escorre nos olhos de um outrora pescador que um dia já amou ver as cores bronzeadas do céu despencarem na água, da canoa. Agora, troca e vende vales. Sem mais confiar a escassos peixes magros o sustento. Da angústia de não ser tudo que não era, ou de desconhecer o que jamais estudou. Tristeza mais funda que o rio ilhado de areia.
Na calçada, alguém rabiscava, de caneta, um desenho sem paisagem. É que lhe amargava não ter o que não tinha, e a fraqueza queimava-lhe em pó a dor e o amor.
Outro alguém, apressado, voltava algures para procurar algo que perdeu, ou esqueceu.
A caminho da parada de ônibus, uma mulher reclama da sandália que quebrou, por tiras cansadas de tanto caminhar.
O pescador vende água, biscoito e chiclete de menta também.
Ele ainda vai escutar carros e motos passando, e buzinas, e resmungos, antes de tudo adormecer. Para, em seguida, despertar prontamente com o noticiário de um novo dia que nunca começou realmente.
domingo, 9 de agosto de 2015
Elo.
A menor das crianças se sentia grande quando em seu colo a tomava o pai. Dele, puxava barba e cabelos. O mundo, enfim, era algo que se podia domar. E crescia sempre.
Para o colo, aprendeu a puxar os fantasmas que se escondiam debaixo da cama, ou atrás do armário. Para ali, foi puxando algumas decepções e um bocado de expectativas.
Então, o colo do pai já era um lugar gigante, onde cabiam raiva, dor, amor, sufoco e tudo mais que pudesse existir... Condensava-se tudo em uma só matéria, que os que conhecem entendem bem: confiança.
Porque teve colo de pai, um dia a criança cresceu e soube dar colo a seus filhos também. Não faz muito tempo, o pai descansou de tanto ar o coração, deitando na terra. E em seu colo a criança chorou. E chora ainda hoje, quando se distrai.
É que o colo de pai restou plantado. Tem do tronco raízes e galhos bem ramados, e abraça forte a todo aquele que precisar.
Para o colo, aprendeu a puxar os fantasmas que se escondiam debaixo da cama, ou atrás do armário. Para ali, foi puxando algumas decepções e um bocado de expectativas.
Então, o colo do pai já era um lugar gigante, onde cabiam raiva, dor, amor, sufoco e tudo mais que pudesse existir... Condensava-se tudo em uma só matéria, que os que conhecem entendem bem: confiança.
Porque teve colo de pai, um dia a criança cresceu e soube dar colo a seus filhos também. Não faz muito tempo, o pai descansou de tanto ar o coração, deitando na terra. E em seu colo a criança chorou. E chora ainda hoje, quando se distrai.
É que o colo de pai restou plantado. Tem do tronco raízes e galhos bem ramados, e abraça forte a todo aquele que precisar.
domingo, 2 de agosto de 2015
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Poema de Halloween.
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