segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Cerco.

Um dia, uma gota única de chuva molhou a terra.  E, porque era só uma gota, dela germinou uma semente bem pequena. Que, curiosa, por fim saiu da terra, esticando os olhos em suas folhinhas para espiar ao redor. O mundo era demasiado quente, e então a plantinha quis abanar-se. Fazendo um movimento bonito. Que a florzinha ao seu lado imitou. Num improvisado balé. Animado, o grilo compôs uma batucada para percussão.

Era a maior das descobertas para a plantinha, que estava longe de alcançar a perfeição de um Bolshoi. Na verdade,  seu farfalhar era bastante desengonçado.  Ela quase não tinha galhos. A florzinha ao seu lado não passava de uma coisinha, assim,  muito minguada. E ao grilo só aceitaria acompanhar em canto o sapo.  E isso,  enquanto controlava o pensamento de o engolir. Afinal, a fome às vezes não faz lá grandes exigências.

Mas, ao se agitar, a plantinha imaginava o requeleque da copa mais armada. Seus amigos principiantes a tinham por mestra experiente. E, agora,  que todos façam silêncio.  Pois que vem passando pelas bandas de cá o Crítico, com seu crivo de cerdas de espelho cortantes...

[!!! ... ... .]

Desolada, a plantinha começou a murchar.  A florzinha perdeu algumas pétalas. O grilo foi, enfim, engolido pelo sapo. Seria demais achar que todos sobreviveriam a um crivo tão espelhado.  Que, ainda por cima, achatava e engordava aqueles que criticava. Cria o Crítico haver, naquela pequenez, galhos que pudesse podar. Picotando, sem dó, umas vidinhas tão tenras.

Ferido de dor, o céu chorou uma chuva desfibriladora. Mas, para o Crítico,  isso não haveria de ser remédio nem castigo.  Já não há mesmo com que se comova quem não tem um coração.

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