Um avô é um novelo difícil da gente desenrolar. É como a raiz por trás de um grande motivo, ao qual chamemos vida. Um avô não diz nada sobre quem você é. Mas explica com detalhes por que não fomos o que não somos.
Millôr dizia que viver é escrever sem rascunhos, mas a verdade é que a vida é uma história que se escreve a muitas e muitas mãos. As de meus avós, de meus pais, de minha sobrinha pequenininha… Em nossas linhas, contrapontos que se cruzam, fazendo tudo ter sentido.
Como, por trás da minha fala sem sotaque, a história do meu avô. Um sertanejo que, ainda hoje, foi traído pela morte - mas que sobreviveu à seca de 1958, descendo a serra que liga o Ceará ao Piauí com os filhos, pouca farinha, um porquinho magro, muita disposição e vontade.
Talvez daí venha essa certeza de que só o sol me conhece e entende bem. Talvez por isso a fixação por buscar onde for preciso asas e tinta para escrever da vida o meu próprio pedaço.
Ter um avô - alguém de quem seus pais discordem, e com quem concordem também - é uma das maiores alforrias para a alma humana, tão necessitada de arbítrios para ser livre. Além disso, os pais nos mostram o caminho da ida, mas é com os avós (a quem nós temos sempre!) que aprendemos como voltar.
E conseguir enxergar esses fios todos é olhar para o céu e agradecer de boca larga ao dono da vida pelo pouco que ele dela nos empresta todos os dias…
(Teresina, 11 de março de 2013)