domingo, 26 de março de 2017

Ao silêncio. (Ou: Palavras que descansem como o seu Francisco.)

Um avô é um novelo difícil da gente desenrolar. É como a raiz por trás de um grande motivo, ao qual chamemos vida. Um avô não diz nada sobre quem você é. Mas explica com detalhes por que não fomos o que não somos.

Millôr dizia que viver é escrever sem rascunhos, mas a verdade é que a vida é uma história que se escreve a muitas e muitas mãos. As de meus avós, de meus pais, de minha sobrinha pequenininha… Em nossas linhas, contrapontos que se cruzam, fazendo tudo ter sentido.

Como, por trás da minha fala sem sotaque, a história do meu avô. Um sertanejo que, ainda hoje, foi traído pela morte - mas que sobreviveu à seca de 1958, descendo a serra que liga o Ceará ao Piauí com os filhos, pouca farinha, um porquinho magro, muita disposição e vontade.

Talvez daí venha essa certeza de que só o sol me conhece e entende bem. Talvez por isso a fixação por buscar onde for preciso asas e tinta para escrever da vida o meu próprio pedaço.

Ter um avô - alguém de quem seus pais discordem, e com quem concordem também - é uma das maiores alforrias para a alma humana, tão necessitada de arbítrios para ser livre. Além disso, os pais nos mostram o caminho da ida, mas é com os avós (a quem nós temos sempre!) que aprendemos como voltar.

E conseguir enxergar esses fios todos é olhar para o céu e agradecer de boca larga ao dono da vida pelo pouco que ele dela nos empresta todos os dias…

(Teresina, 11 de março de 2013)

domingo, 5 de março de 2017

Estado de espírito.

O mar era aquilo que ela olhava, olhava, e não precisava dizer a ninguém. Emaranhado o cabelo. Pele queimada e já nenhuma maquiagem.

Na praia, de biquíni, ela encarava os fatos como eles são. Com os pés entregues à areia e ao sol quente. Molhados. Quase protegidos pela capinha de lama: areia, água e sal.

Por mais avassaladora que fosse a segunda-feira, por mais enlouquecedor que fosse o retornar ao sempre.

Na praia, as mulheres perfeitas das propagandas de cerveja perdiam todo o encanto. Viravam papel. E, de papel, areia que voa com a poeira. A realidade exposta de si, em exclamação, era que, com o sol, caminhava para cima e para baixo. Absurdamente viva. Inconsolavelmente humilde. E entregue a si mesma o suficiente para não reparar em você, em amor, ou em coisa alguma.

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...