Um dia, o palhaço olhou para seu nariz vermelho e não viu graça. Até porque, com os anos, já ninguém mais lhe notava o encanto mesmo. Além disso, estava velho e cansado. Enquanto surgiam, corriqueiramente, caras novas e lavadas fazendo comédia em pé. Um artista deve saber o clímax da própria vida para, a partir de então, bater em retirada. Haverá, quem sabe, algum segredo consolador em seguir e viver à sombra dos refletores.
Por detrás da cortina, ele espiava a plateia embeber-se de tramas alheias. Com as mãos, apertava o próprio coração. Para que coubesse na mala - já repleta de lenços descoloridos, uma velha pancake esfarinhada e truques de lógica. E viagens tantas. Que, ainda assim, nada somavam perto das jornadas que vivera no picadeiro, transcendentalmente, espetáculo após espetáculo.
O palhaço gastara todas as suas cores a colorir noites. Restavam-lhe o fim e a esperança de que, por algum resquício de gratidão, a vigília de agora o enluarasse a ele. Tornando-o etéreo, ainda que monocromático. Reduzido à essência que seduz e ilumina os sonhos dos que hão de vir.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 2 de abril de 2017
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