A musa de todos os dias seguia de cabelos assanhados e presos a pensar que poderia bem fazer as unhas no sábado. Enquanto a musa dos idílios passava ao lado, vestida de festa, espalhando um cheirinho suave e francês.
Não tardava, e a musa de todos os dias voltaria para o seu poeta. Para sorver-lhe o olhar inquietado em meio ao café com pão. E fazê-lo reparar nos cores do rótulo de margarina, rir das ironias do jornal, aturar com leveza alguma nova implicância do vizinho...
Ela o faria deitar tranquilo. Acalmaria seus pensamentos tornando-os iguais, mas belos. De sorte que, se ele dormisse até mais tarde, ainda sonharia.
Mas não com ela. Ele sonharia com a musa dos idílios. À outra escreveria versos, enquanto a musa de todos os dias não recebia sequer palavra.
E isso enquanto não houver justiça no mundo. Porque, quando houver, as noites, os dias e os amores serão inteiros e sempre da musa de todos os dias.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 24 de março de 2019
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