domingo, 22 de fevereiro de 2015

Dar o pé a torcer.



O homem que criava um papagaio insistia em deixá-lo voar. Por mais que o avisassem os amigos que um dia o Louro bem poderia sumir. É que não queria vê-lo ressentido do cativeiro. Solto, o pássaro poderia comer as frutas dos galhos mais altos da árvore do quintal. E voar. Mas, sobretudo, voltar.

Por gratidão, os pássaro não se importava de que o dono lhe cortasse a pontinha das asas. Nutria-lhe amor. Bebia café em sua mesa, fincava as patas nos seus dedos ou no braço. Para conversar com ele, aprendia novas palavras. Cantava em uma nota só.

O verde e amarelo do papagaio e o azul do céu formavam um belíssimo cenário. Coloriam o coração e os dias do homem. Que confiava no Louro. Mas é que, ao vê-lo voar um tanto mais alto, um outro dia, rumo à copa da árvore de um vizinho, enciumou-se e lhe impôs correntes.

E foi por tristeza que o papagaio nunca mais quis falar.

Ou sequer reclamar. Mas isso porque pressentiu, na escura crueldade, alguma amarga doçura remota.

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