domingo, 13 de dezembro de 2015

Destruísmo.

O mundo entrelaçava-se de tal forma à mulher que ela tudo sentia. Para desespero do marido, que solicitamente sempre arrancava da rosa os espinhos. Ainda assim, as mãos da mulher doíam.

Todas as manhãs, ele fazia a feira. Uma vez ao mês, comprava-lhe roupas novas. Nas ocasiões especiais, trazia joias. Mas ela permanecia magra, maltrapilha e endividada.

Um dia, o homem ferido e decidido resolveu tapar todos os ralos da casa para não haver por onde escoar tanto segredo.

Viu passar pela cozinha um rato. Ela lhe deu todo o queijo. Viu passar pela janela uma mendiga, ela lhe deu todas as roupas. Viu um cão, para ele a carne. Viu um gato, para ele o leite. Para a vizinha, os doces. Para a visita, as frutas. Para a caridade, as joias, mantas e cobertores.

O homem olhou ao redor de si, na casa vazia, sem entender o que a mulher faria com ele mesmo, afinal. Mas, quando se virou, já não conseguia enxergá-la. Até um dia, quando, escovando os dentes, ao se ver num relance de espelho, encontrou-a cravada em suas costas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...