Poderia ser uma máquina escavadora. Poderia ser um estetoscópio. Poderiam ser pilhas de processos, códigos e livros - ela não se importaria.
Qual nada.
O objeto de trabalho dele era um violão.
E um homem nunca tem com um violão uma relação de trabalho apenas. Ela sabia. Ele amava o violão. Era nele que gastava seus momentos de inspiração-mais-doce, a compor canções de amor e ódeio, músicas sobre início e fim. Sim, ela sabia. Assim como sabia que não poderia simplesmente competir com a música. Tinham - ele e o violão - os segredos mais cúmplices. Era ali onde ele escolhia repousar as mãos nas horas de melancolia. Justo quando, de tanto amá-lo, tanto mais queria-lhe ela bem. Era ali, e não com ela, que ele se sentia compreendido. Com o violão, ele atingia um visível estado de completude que, ainda mais para ela, agigantava-se ao absurdo. Inaceitável.
Oh, quanto o amava. Mas já não suportava o tal violão.
- Faz parte de mim, querida. - Ele dizia - Veja a música que compus para você! - E era como se a usasse como pretexto para infidelidade.
Foi quando ela, literal e deliberadamente, quebrou o objeto de tantos ciúmes. Cruelmente. Por maldade.
Assustado com a reação da esposa, o homem não brigou. Não reclamou. Nem disse coisa alguma. Simplesmente foi à loja e comprou um novo, como o outro.
Naquela noite, choveu. Mas ela já não agrediu mais violão, nem marido. Nada. Deitada no quarto, enquanto ele tocava na sala, silenciosamente permitiu a cada uma das amadeiradas notas que assassinassem reiteradamente o sufocante amor. Em sinfonia dolorosa, a lágrimas grossas. E, desde então, nunca mais sentiu amor, nem dor, nem coisa alguma.
Mas é que quem a visse ali: nas tardes nubladas, em meio a linhas e agulhas, entre o crochê e o tricô, obstinada e compenetrada em seu pesar e sua lida - poderia quase escutar, num inaudível e alfinetado som, notas de amor e fúria. Interminavelmente bordadas: ora início, e ora fim. Pontos que fazem-desmancham-e-refazem um mesmo coração.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
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