quarta-feira, 20 de abril de 2016

Fim de caso.

Era de partir o coração que a aurora (desapaixonada) não aparecesse ali para desfazer tamanho mal-entendido. Talvez porque não fosse um mal-entendido. O barquinho bêbado e trôpego sairia em missão de busca e resgate do seu grande amor mesmo que fosse tarde, todos sabiam. Queimava-lhe, denso e escuro, o raivoso ziguezague do mar. Doía mais que água-viva.

O barquinho trôpego e louco deixava-se bolar pelas ondas de soda cáustica, cegamente vagando. No perquirir notícias de um ensolarado idílio já findo, arranhava-se entre pedras e cascalhos, até perder a esperança. Atingido pelos relâmpagos da tempestade. Sucumbido pelas grossas, pesadas e amargas balas de gota d'água, que o sacudiram, redemoinhas. Escurecendo-lhe o nariz.

E até amanheceria. Só que, daquele barquinho, não restaria mais nada. Não em sendo ele assim, como era. Passional e inconsequente.

Era de doer. De partir o coração. Que o barquinho se tivesse deixado estar tão aturdido, rouco, louco e remexido.

Inexorável, irredutível.

E morto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...