domingo, 10 de abril de 2016

Naftalina.

Fazia sol, e ele a buscou no aeroporto com uma caixinha de presente. Seus olhos cor-de-sonho brilhavam. Dentro, mais um colar. Prateado, com um morango cravejado de pedras. Também enchia a florida caixa cor-de-rosa uma folha amassada de papel seda vermelho-apaixonado. Naquele dia, ele disse a ela o quanto era ruim que estivessem longe e que isso nunca mais aconteceria.

É claro que isso foi antes de dizer-lhe que não deveriam estar juntos nunca mais por toda a vida. Uma coruja apareceu a ela naquela noite, enigmando tragicidade, minutos antes.

E todo o tempo, choro, promessa, os porta-retratos e as músicas, todo ar e cemitério foram espremidos para caber ali: na caixinha guardada.

Que ficava escondida.

Enquanto ela recomeçava, por ser impossível simplesmente continuar.

Se a sobressaltava um pensamento, lembrança doce ou ruim. Se lhe vinha alguma angústia, saudade sem ter mais o de quem. Espremia mais a tal caixinha. Que, com o tempo, passou a quase desexistir, em instntes de feliz esquecimento, como quando tomamos um analgésico.

Por isso, mais constantemente viajava. Fora de casa, os caminhos eram sempre mais iluminados. Ninguém precisa pôr as rachaduras de casa na mala.

Mas é que, voltando-se para dentro de si, ela simplesmente preferia nunca mais se abrir. Ou tocar no que lhe era incenso e tóxico, naquilo que sabia que não poderia destruir. Mas que também não destruiria, se pudesse.

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