terça-feira, 12 de setembro de 2017

Cadeira de espaguete.

Era de tardezinha, e a mulher levava a cadeira para a calçada, movimentando a rua, para ver as coisas que queria ver. À volta, vizinhos faziam o mesmo. O sol pintava-se de cores cada vez mais escuras. Em breve, seria breu. E o que mais haveria seriam estrelas de luz ensandecida a ludibriar os tolos que se deixassem persuadir. E quantas promessas descabidas os faria jurar, as quais só a sensatez da alvorada poderia desmentir.

O movimento era igual. Mas tinha dias que a mulher via casais enamorados. Em outros, pessoas com muita idade a respirar mais ar ainda. Tinha dias que via saquinhos de biscoito a voar, carregados pelo vento quente que nos levará a todos. Ou o vira-lata. Tão desamparado e sorridente como o fundinho da alma. Tinha dias que ela secretamente espionava outras mulheres como ela mesma. Nestes, era quase sempre um assombro enxergar-se tão literal.

E era bom ser casa. Calçada por onde alguém pudesse entrar, sair, sentar e ser. Mas é que no momento que as cores fugiam do céu, entregando-o aos deslumbres de um brilho sem luz, um abandono absurdo a deixava com o juízo abarrotado da solidão mais farta.

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