quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Caminho de sol.

Uma tempestade sempre acaba aos pouquinhos.
Primeiro, cessam os trovões. Depois, os relâmpagos. E, então, o céu vermelho dá lugar a uma chuva serena, amena. Que poderia bem ser uma cantiga de ninar, não estivesse ainda presente o desacalantador cheiro da truculência.
Finda a tempestade, reconstroem-se as cidades. Recompõem-se as pessoas. Recolhem-se os galhos, reparam-se os postes de energia elétrica.
Depois da tempestade, existimos sempre. Aquietado o coração.
Pois foi quando o ato encerrou. Mas não mudaram o cenário. Cortinas reabertas.
Perdida, no centro, a atriz já não mais podia reconhecer a personagem de que se cercara. Tudo o que saberia fazer seria repetir o primeiro ato, repleto de trovões e relâmpagos, negando a presente paz. Presa em repetido lapso temporal. Pássara numa gaiola de horrores.
Na fuga, ao despir-se da alheia persona, só lhe restava a si mesma: nua, na frente de todos. Exposta como vedete em palco de cabaré. Crua em carne, sangue, ossos, e ferida... viva.

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