Ela poderia cair e levantar. Quebrar maldições. Suportar os piores venenos. Perder sapatinhos de cristal. E tinha em seus olhos o encanto de fazer-se acompanhar, sob uma lagrimazinha que fosse, de príncipes, fadas, duendes e bichinhos da floresta, até mesmo sapos, que a cortejariam, ajudariam e aplaudiriam. Assim, admirada, amada, rica e bem novinha, seu final seria invariavelmente feliz.
Fechado o livro, porém, perdia-se-lhe a magia. Conquistada, a mulher restava invisível e esquecida como uma velha história, na sombra de dias escuros, longos e intermitentemente chuvosos. A vida é o ser que hiberna enquanto o calendário e o relógio assumem o controle do piloto automático. Num acende e desliga o sol 365 vezes por ano. Para sempre.
Ou até chegar o dia em que a última pétala da flor invariavelmente se cansa e cai no chão. Quando o humano frasco prenunciadamente murcha e é acolhido pela terra mais querida.
A menos que, na imensidão do antes disso, a mulher, rainha de si, saia do faz-de-conta e desperte um dia, ainda que centenária, da inerte torre do castelo. E, com a vida, pulse-lhe também a alegria mais despachada, a pintar, em sangue tinto suave, as formas livres e imperecíveis do envelhecido existir. Alheias às fidalguias do sucesso. Contempladoras do pôr-do-sol, e artesãs e caminhos próprios.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 12 de novembro de 2017
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