Foi porque lhe arrancaram os brios: um dia, o homem forte escolheu fechar os olhos e, desde então, passou a ser cego. A resmungar quem o guiasse em tão vasta e densa escuridão.
Era difícil esperar. Era difícil ser gentil sempre. Por isso, mais e mais ele se alheava entre as quatro paredes da mente, onde só o iluminavam os sonhos que um dia foram seus.
Os amigos deram pela sua falta e foram visitá-lo. Mas a tristeza era tanta por vê-lo cabronho e sem tino que resolveram compactuar com a escuridão. Não corresse o risco de que, enxergando, percebesse que os sonhos velhos já não lhe serviam mais.
Embargados de saudade, eles já não conseguiam enxergar o homem ou sentir qualquer amizade pelo que se tornara. Mas, por lealdade, estiravam lona preta por detrás das janelas fechadas, e pregavam fita isolante nos escuros óculos do cego.
Ainda uma vez, e como todos os dias, amanhecia lá fora. Azul de esperanças, o céu buscava brechinhas por entre frestas e pálpebras para atingir aquele e qualquer coração. Trazia o calor das certezas e sonhos novinhos em folha. Além de canetas para quem, querendo, se dispusesse a aprender a ler e escrever o idioma das epifanias.
Mas o homem em seu orgulho insistia em remoer lástimas, em renunciar o frescor da vida, tateando em si a face de uma múmia.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 2 de julho de 2017
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