Quando a bailarina quebrou o pé, todas as cortinas despencaram e o teatro fechou as portas.
Precavidos, os pais da moça a levaram de volta para casa e recolheram todas as sapatilhas, colants e os dvd's de espetáculos clássicos. Era como se nada nunca tivesse existido.
Assim esperaram que ela se recuperasse. Montaram uma biblioteca com livros fabulosos. Bloquearam os principais sites de balé da rede local de internet. Fizeram festas e a apresentaram a rapazes bons. Por fim, plantaram um jardim com rosas, bougainvílleas e margaridas na janela do seu quarto.
Para tentar fazer passar o tempo, a moça parou de reclamar. Já não perguntava por seus apetrechos. E, enfim, começou a estudar o Direito e as leis.
Mas era quando o vento ritmicamente balançava as folhas do jardim. Ou quando, distraídos, seus dedos desenhavam cisnes negros no caderno da universidade, que ela se lembrava de quem realmente era.
Só que, então, já pesava quilos a mais. E seu recuperado pé poderia jamais reaver a leveza dos movimentos nunca esquecidos. Além do mais, o balé lhe traria de volta calos. E os teatros poderiam nunca mais lhe abir as portas tão solenemente cerradas.
Foi quando ensaiou uma pirueta, às escondidas, no seu quarto já sem espelhos ou barra. Que a mãe a viu e desesperou. O coração inflado pela desolação própria à dor alheia. Desejo de nunca ter sofrido como cruelmente se havia, no ver a filha sofrer, por ter-lhe forçado o abandono. Em raiva, desejo de ela ter sempre ter existido protegida, segura e discreta jurista, nunca exposta e livre bailarina.
Foi na finalização da desengonçada pirueta, ao inevitável sorriso brotado de dentro de si, que o relógio voltou a bater horas. Com sua dança, o mundo voltou a girar. E, porque ela vivia, à porta a mãe exclamava um iminente infarto.
Desculpe a indefinição de estilo. É que, enquanto escrevo, vem a vida e me troca as canetas...
domingo, 16 de julho de 2017
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