domingo, 23 de julho de 2017

Para o buraco negro.

As noites eram sempre calmas, fugido o sono, até enquanto os fantasmas não a vinham achincalhar. Do seu lado, um nu e desconhecido homem. A quem ela nunca tivera a pretensão de amar realmente.


Por dentro, sentia-se perdida.


Ainda mais do que antes.


Já era tarde quando o conhecera, e aquela cinza barba vanguardeava sabores fortes e estonteantes. Como gelo seco. Quando ela sorveu cada promessa, que do gelado copo descia ardendo em si, abraçou sem pensar tudo que não sabia. Depois veio o filho, a conta fixa no mercadinho, e os fantasmas. Pontuais. A interrogar-lhe nas noites tranquilas.


Eles queriam garantias. Seguros. Previdência privada. Eles mostravam a ela a solidão de não saber quem é o outro, para além de nós mesmos. E diminuiam-na, dada a fragilidade feminina da abnegação.


Então, ela explicava a si mesma cada escolha, cada passo. Pedia pacientemente desculpas por todos os erros, de um por um. Prometia à lua que haveria de mudar. Sempre calma, amena, sempre em pânico.

É que as noites, pacatas e tenebrosas, enchiam-lhe de pavor. De que um dia o mundo desconhecido ao lado acordasse de sobressalto e soprasse, sem avisos, o seu castelo de cartas. Ou que ele ruísse, rachando-lhe o chão. Ou que lhe tomasse o filho e pulassem juntos pela janela de andares do apartamento.

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